Radar do Judiciário

Influenciadora Evelyn Lima Dantas é morta a tiros no Pará na frente do pai

Aos 21 anos, ela foi baleada na frente de casa em Mãe do Rio; na fachada, os autores picharam a sigla de uma facção. A polícia investiga autoria e motivação

Influenciadora Evelyn Lima Dantas é morta a tiros no Pará na frente do pai
📷 Reprodução
📋 Em resumo
  • A influenciadora digital Evelyn Lima Dantas, 21 anos, foi morta a tiros na madrugada de quarta-feira (16), em Mãe do Rio, no nordeste do Pará.
  • Segundo a polícia, dois homens invadiram a casa, arrastaram a jovem para a rua e a executaram; na fachada, picharam a sigla TCP.
  • Ela estava em liberdade provisória havia poucos dias e era investigada por suspeita de envolvimento na morte de um sargento da PM, em julho — mas nunca foi condenada.
  • A Polícia Civil apura autoria e motivação e ainda não confirmou se a facção Terceiro Comando Puro é responsável pela execução.
  • Por que isso importa: a sigla pichada liga o caso à tentativa de expansão de uma facção do Rio de Janeiro sobre o Pará — parte de um movimento maior de interiorização do crime organizado na Amazônia.
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

A influenciadora digital Evelyn Lima Dantas, de 21 anos, foi morta a tiros na madrugada desta quarta-feira (16), em Mãe do Rio, no nordeste do Pará. Segundo a Polícia Militar, dois homens invadiram a residência onde ela estava, no bairro São Francisco, arrastaram a jovem para a área externa e efetuaram diversos disparos. O pai de Evelyn recebeu ordem de deitar no chão e assistiu a tudo, sem poder proteger a filha. Antes de fugir em um carro, os autores picharam na fachada a sigla TCP — referência à facção Terceiro Comando Puro. A Polícia Civil investiga a autoria e a motivação do crime.

Como foi o crime, segundo a polícia

A ocorrência foi registrada por volta das 3h30, depois que moradores ouviram vários disparos na rua Bernardo Ferreira de Oliveira e acionaram a Polícia Militar. Ao chegar, a guarnição encontrou o corpo já na calçada, coberto por um lençol. Segundo o relato do pai da vítima às autoridades, os dois homens chegaram e partiram de carro, mas ele não soube informar modelo ou cor.

Até a noite de quarta-feira, nenhum suspeito havia sido preso. Os investigadores trabalham com imagens de câmeras de segurança que registraram a movimentação do veículo e a ação dos autores. Em nota, a Polícia Civil informou que solicitou exames periciais e ouve testemunhas para identificar os responsáveis e estabelecer o motivo do crime.

A investigação que já cercava Evelyn

O caso tem uma camada que o torna mais complexo — e que exige cuidado. Evelyn estava em liberdade provisória havia poucos dias. Ela havia sido presa preventivamente sob suspeita de envolvimento na morte do sargento reformado da PM Antônio Anildo Alves, de 56 anos, assassinado a tiros em 29 de julho, também em Mãe do Rio, quando homens encapuzados atiraram de dentro de um carro contra ele em um supermercado. Segundo a investigação, Evelyn teria prestado apoio logístico ao grupo responsável, e, na operação, também foi autuada por tráfico de drogas.

Nada disso, porém, chegou a ser julgado. Evelyn era investigada e respondia em liberdade; não houve condenação. Registrar isso não é formalidade jurídica: é o que separa a informação da sentença antecipada, ainda mais no caso de alguém que já não pode se defender.

Apoie o jornalismo independente
Leia o Painel Político por inteiro
Assine e tenha acesso ao arquivo completo e a tudo que publicamos. Você sustenta um jornalismo que não se dobra ao poder.
Assinar por R$ 19/mês
ou acompanhe de graça
São canais, não grupos: só o Painel publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.

O que é o TCP — e por que sua sigla acende um alerta no Pará

A pichação encontrada na casa é o elemento que dá dimensão nacional ao caso. O Terceiro Comando Puro (TCP) é uma facção originária do Rio de Janeiro, apontada por serviços de inteligência como uma das maiores do país. Nos últimos anos, o grupo expandiu sua presença para estados como Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Ceará, Amapá, Acre, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul — e, segundo autoridades, vem tentando se estabelecer no Pará.

É preciso a ressalva: a polícia ainda não confirmou que a facção é a autora da execução. A sigla pichada pode indicar autoria, mas também pode ser uma tentativa de atribuir o crime a terceiros — uma cautela que os próprios investigadores fazem questão de manter. O que é fato é o alerta que a marca representa: a disputa territorial entre facções, que já redesenha o mapa do crime na Amazônia, tem em episódios como esse a sua face mais visível.

Redes sociais

Redes sociais

Influência digital e crime: uma vitrine que não conta tudo

Nas redes, Evelyn se apresentava como acadêmica de Ciências Contábeis e reunia mais de 24 mil seguidores, com fotos de viagens e passeios pelas praias de Salinópolis. Seu perfil foi desativado após a morte. O contraste entre a vitrine — glamorosa, jovem, aspiracional — e a investigação que a cercava é exatamente o ponto que a cobertura sensacionalista explora e que merece o tratamento oposto: sobriedade.

A imagem cuidada das redes sociais não é prova de inocência nem de culpa; é apenas uma superfície. O que o caso escancara, sem que se precise transformar a vítima em personagem, é como a fronteira entre a vida comum e o crime organizado ficou porosa no interior do país — e como jovens, homens e mulheres, são engolidos por engrenagens que a estética do feed não mostra.

O que vem agora

A Polícia Civil segue em diligências, analisando as imagens e ouvindo testemunhas, sem suspeitos presos até o fechamento desta edição. Uma das linhas de apuração é se há relação entre a morte de Evelyn e a do sargento da PM, num contexto de escalada de violência que atingiu a região desde julho.

A pergunta que o caso deixa não é sobre uma influenciadora. É sobre um estado onde uma facção nascida a milhares de quilômetros pinta sua sigla numa parede do nordeste paraense — e sobre quanto o poder público ainda demora a enxergar que o mapa das facções já não respeita as fronteiras que a gente imaginava seguras.

Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #CrimeOrganizado #PCC #amazonia #segurancapublica