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Operação Vectura Corrupta mira infiltração do PCC no transporte de SP

Alvo de mandado de prisão, o ex-vereador Milton Leite é considerado foragido pela polícia; ele nega. A investigação aponta domínio da facção sobre empresas de ônibus da capital paulista

Operação Vectura Corrupta mira infiltração do PCC no transporte de SP
📷 Paulo Gomes/TV Globo
📋 Em resumo
  • A Polícia Civil de São Paulo e o Gaeco/MP-SP deflagraram a Operação Vectura Corrupta contra a suposta infiltração do PCC no poder público e no transporte coletivo da capital.
  • O ex-vereador e ex-presidente da Câmara Milton Leite (União Brasil) é considerado foragido; em nota, ele nega e diz que vai se apresentar e provar inocência.
  • Foram presos o ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, e o candidato a deputado estadual Danilo Morgado, cuja campanha teria sido financiada pela facção, segundo a investigação.
  • A apuração aponta 12 empresas de ônibus supostamente controladas pelo PCC e um núcleo de advogados, a "Sintonia dos Gravatas".
  • Por que isso importa para Rondônia: o caso é o exemplo mais avançado de um modelo — a facção capturando serviços públicos e campanhas — que se espalha pelo país, num estado onde o PCC já domina o Cone Sul.
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A Polícia Civil de São Paulo considera foragido o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil), alvo de mandado de prisão na Operação Vectura Corrupta, deflagrada nesta quinta-feira (17) contra a suposta infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de transporte coletivo da capital paulista. A ação, do MP-SP e da Polícia Civil, busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em sete municípios do estado.

Quem é Milton Leite e o que a investigação aponta

Milton Leite não foi encontrado pelos policiais que foram à sua casa. Diante das circunstâncias no imóvel, a polícia passou a tratá-lo como foragido. Em nota, o ex-vereador negou: afirmou que está viajando, que se apresentará às autoridades em até 24 horas e que vai provar sua inocência. Segundo a diligência, ele teria deixado a residência na noite de quarta-feira (16) para um compromisso de campanha.

O peso político do alvo é grande. Leite passou 27 anos na Câmara de São Paulo, cumpriu sete mandatos e presidiu a Casa quatro vezes. Deixou a vida pública eletiva em 2024, mas segue como presidente do União Brasil na capital e, desde julho, preside a Federação União Progressista (formada por União Brasil e Progressistas) no estado. Segundo o documento que embasa a operação, decisões estratégicas sobre empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC dependeriam de seu conhecimento ou aprovação política. O texto cita ainda declarações de policiais militares, prestadas no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais Leite seria o "dono de fato" da Transwolff — afirmações que, é preciso frisar, integram a investigação e ainda serão apuradas.

As 12 empresas e a "Sintonia dos Gravatas"

Também foram presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, e Danilo Morgado, ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e candidato a deputado estadual com registro cassado. Segundo a Polícia Civil, a investigação identificou "forte vínculo" de Danilo com integrantes do PCC e indícios de que sua campanha de 2024 teria sido financiada pela facção.

A apuração aponta 12 empresas de transporte que seriam controladas, direta ou indiretamente, pela organização: Viação Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2, Imperial, Move Bus, Pêssego, Allianz, Transunião, Qualibus, Norte Bus e Spencer. Parte delas já figurou em investigações anteriores — a Transwolff, alvo da Operação Fim da Linha (2024), chegou a sofrer intervenção da Prefeitura de São Paulo. Outra frente mira a "Sintonia dos Gravatas", um núcleo de advogados que, segundo a polícia, teria atuado em benefício da facção, com escritórios e contas usados para reuniões e movimentações. O principal investigado desta fase é José Daniel Satilite, o "Alemão", apontado como intermediário do PCC entre empresários, advogados e políticos.

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De onde vem a investigação

A Vectura Corrupta é desdobramento de duas operações anteriores. A Operação Decurio, de agosto de 2024, começou após a apreensão de drogas em Itaquaquecetuba e chegou a uma fintech da facção que teria movimentado cerca de R$ 8 bilhões — foi ali que surgiram as primeiras evidências do braço político do grupo, com campanhas de vereadores supostamente patrocinadas pela organização. Já a Operação Contaminatio, de abril de 2026, mirou o uso dessa estrutura financeira para infiltrar prefeituras e assumir a gestão de tributos e taxas municipais.

O quadro que emerge é o de uma facção que deixou de ser apenas força do tráfico para se tornar um agente político e empresarial: financia candidatos, captura contratos e licitações, e busca controlar serviços públicos essenciais.

Por que Rondônia deveria acompanhar de perto

Nenhuma das empresas citadas atua em Rondônia — são todas do sistema municipal de São Paulo. Mas seria um erro o leitor daqui tratar o caso como assunto distante. O que a Vectura Corrupta expõe é um modelo, e esse modelo avança pelo país.

Rondônia não é território neutro nessa disputa. Levantamentos e reportagens locais apontam que o PCC consolidou domínio sobre o Cone Sul do estado — em cidades como Vilhena, Cerejeiras, Colorado do Oeste e Cabixi —, onde a facção teria estabelecido controle territorial e diversificado a atuação para lavagem de dinheiro, extorsão e recrutamento, valendo-se da BR-364 e da fronteira com a Bolívia como logística. Ou seja: a facção que em São Paulo já tenta capturar transporte, licitações e campanhas é a mesma que, no interior rondoniense, já exerce poder de fato sobre parte do território.

A pergunta que o caso paulista devolve para cá é incômoda: se o PCC já domina rotas e cidades em Rondônia, quanto tempo até que a etapa seguinte — a captura de contratos públicos e o financiamento de candidaturas — bata também nas prefeituras do estado? O combate a esse tipo de infiltração, alertam especialistas, quase sempre chega tarde, na reação a um esquema já montado.

O que vem agora

A investigação segue em curso e nenhum dos citados foi condenado — as prisões são preventivas, e Milton Leite afirma que provará inocência. Os próximos passos incluem o cumprimento dos mandados restantes, a análise do material apreendido e a definição sobre o eventual comparecimento do ex-vereador. Para o leitor de Rondônia, porém, a lição transcende os nomes paulistas: a fronteira entre o crime organizado e o poder público ficou mais fina em todo o país — e vigiar essa fronteira é, cada vez mais, tarefa também da imprensa local.

Versão em áudio disponível no topo do post.


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