Inteligência artificial na guerra: como algoritmos já escolhem alvos
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Inteligência artificial na guerra: como algoritmos já escolhem alvos

📋 Em resumo
  • As maiores empresas de IA do mundo — Anthropic, OpenAI, Google, Meta e xAI — abandonaram, entre 2024 e 2026, políticas que proibiam uso militar de seus modelos e assinaram contratos de defesa nos EUA.
  • O sistema Maven Smart System, da Palantir, virou o principal ponto de integração desses modelos em operações reais, das capturas na Venezuela aos bombardeios no Irã.
  • Em Gaza, sistemas israelenses como Lavender e Habsora já operavam há anos a lógica que agora se espalha: geração automática de alvos em escala industrial, com margem de erro assumida.
  • A Ucrânia se tornou o laboratório vivo dessa tecnologia, com milhões de drones guiados por IA e reconhecimento facial em campo de batalha.
  • Por que isso importa: a decisão sobre quem vive e quem morre está migrando da cadeia de comando humana para camadas de software fornecidas por empresas privadas — e o debate público não acompanha a velocidade.
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Entre novembro de 2024 e março de 2026, o Vale do Silício desmontou, uma a uma, as promessas que fizera de manter a inteligência artificial longe do campo de batalha. A Anthropic, a OpenAI, a Google, a Meta e a xAI — as empresas por trás dos assistentes que hoje redigem petições, corrigem código e resumem relatórios — reescreveram suas regras de uso e entraram, cada uma a seu modo, na indústria da guerra. O resultado já não é hipótese: os mesmos modelos usados em escritórios estão sugerindo coordenadas de bombardeio em conflitos ativos.

O sistema que costura tudo: o Maven Smart System

Para entender como um modelo de linguagem chega a uma sala de guerra, é preciso conhecer o Maven Smart System (MSS), produto da Palantir Technologies, empresa de análise de dados cofundada por Peter Thiel e dirigida por Alex Karp.

O Maven não nasceu com a Palantir. Segundo o centro de estudos CSIS, o Projeto Maven foi criado pelo Pentágono em abril de 2017 para levar capacidades de IA aos militares, e teve a Google como primeira parceira de tecnologia. A relação ruiu em 2018: mais de três mil funcionários da Google assinaram uma petição contra o envolvimento da empresa em tecnologia de guerra, cerca de uma dúzia de engenheiros pediu demissão, e a companhia não renovou o contrato — publicando, na sequência, princípios de IA que vedavam trabalho com armas. A Palantir entrou no vácuo e nunca mais saiu.

O que o MSS faz é conceitualmente simples e operacionalmente devastador: ele funde imagens de satélite, transmissões de drones, dados de radar e inteligência de sinais em uma única interface, classifica alvos, recomenda sistemas de armas e gera pacotes de ataque em tempo quase real. Em outras palavras, comprime o que os militares chamam de "cadeia de morte" — o intervalo entre detectar e destruir — para os prazos mais curtos já vistos em combate.

O tamanho do negócio acompanha a ambição. De acordo com o CSIS, o teto do contrato da Palantir para o Maven ultrapassou US$ 1 bilhão em maio de 2025. E o modelo cruzou o Atlântico: em abril de 2025, a OTAN anunciou a adoção do Maven Smart System para operações de comando aliadas.

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A camada de inteligência que decide prioridades de ataque deixou de ser um sistema militar fechado e passou a ser um produto comercial, vendido, atualizado e licenciado como qualquer outro software corporativo.

A virada das gigantes: de "não faremos armas" a contratos milionários

A cronologia da mudança de política é reveladora quando lida em sequência.

Em janeiro de 2024, a OpenAI removeu discretamente de seus termos a proibição de uso militar de suas ferramentas, segundo a CNBC. Em dezembro do mesmo ano, anunciou parceria com a startup de defesa Anduril Industries para combinar seus modelos GPT-4o e o1 com sistemas antidrones — o que a empresa descreveu como aplicação defensiva. O CEO Sam Altman afirmou que a companhia buscava garantir que a tecnologia sustentasse valores democráticos.

Em novembro de 2024, a Meta liberou seus modelos Llama para agências governamentais e empresas ligadas à defesa e à segurança nacional — apesar de sua própria política proibir, na letra, o uso do Llama para aplicações militares e de guerra.

Em fevereiro de 2025, a Google removeu de seus princípios de IA o compromisso, feito em 2018, de não desenvolver tecnologia para armas ou para vigilância que viole normas internacionais. A empresa justificou a mudança citando competição global em IA e interesses de segurança nacional. A Anistia Internacional classificou a decisão como vergonhosa.

O ponto de convergência veio em julho de 2025, quando o Departamento de Defesa dos EUA fechou contratos de até US$ 200 milhões cada com quatro empresas de fronteira: Google, OpenAI, Anthropic e xAI, de Elon Musk. A lógica do Pentágono, segundo o Defense News, era de modularidade — múltiplos fornecedores, adoção rápida, inovação comercial no lugar dos ciclos lentos de desenvolvimento militar sob encomenda.

O caso Anthropic: a empresa que se dizia a mais cautelosa

A trajetória da Anthropic, criadora do Claude, é o retrato mais nítido da contradição do setor — e merece detalhamento, porque a empresa construiu sua marca sobre a promessa de segurança.

A Anthropic anunciou parceria com Palantir e Amazon Web Services ainda no fim de 2024, para levar seus modelos a agências de inteligência e defesa. Sua política de uso, porém, manteve duas linhas vermelhas: proibia vigilância em massa de cidadãos americanos e sistemas de armas totalmente autônomos capazes de selecionar e engajar alvos sem envolvimento humano.

Essas linhas vermelhas colidiram com a realidade. Em 3 de janeiro de 2026, forças especiais dos EUA capturaram o então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas. Segundo reportagem do The Wall Street Journal, confirmada em parte pela Axios, o Claude foi usado durante a operação — não apenas na preparação — por meio da parceria com a Palantir. O sinal mais revelador de descontrole: funcionários da Anthropic teriam perguntado à Palantir como, exatamente, sua ferramenta havia sido empregada. A empresa não sabia.

Poucas semanas depois, a escala saltou. Em 28 de fevereiro de 2026, EUA e Israel lançaram ataques coordenados a instalações no Irã. De acordo com o The Washington Post, o sistema integrado Claude-Maven produziu cerca de mil alvos priorizados nas primeiras 24 horas, cada um acompanhado de dados operacionais. Reportagem do Military Times foi além: descreveu o Claude classificando alvos por importância estratégica de forma semiautônoma e redigindo justificativas legais automatizadas para cada ataque.

O desfecho institucional é digno de nota. Em 27 de fevereiro — um dia antes dos ataques ao Irã —, o presidente Donald Trump (Partido Republicano) emitiu ordem executiva mandando agências federais interromperem o trabalho com a Anthropic e designando a empresa como potencial "risco de cadeia de suprimentos", rótulo antes reservado a adversários estrangeiros. A Anthropic recusou-se a remover suas salvaguardas, tornou-se a primeira empresa americana a receber essa designação e processou o governo. O CEO Dario Amodei declarou que a companhia não poderia, em sã consciência, ceder à exigência.

A empresa que mais alardeou cautela virou a primeira a ser punida por mantê-la. É o paradoxo que define o setor: no mercado de defesa, a ética não é um diferencial competitivo — é um passivo.

Gaza: onde o futuro já era presente

Nada do que se viu no Irã em 2026 seria surpresa para quem acompanhou Gaza desde 2023. O exército israelense operava, muito antes, a lógica que agora se globaliza.

Segundo investigações da revista +972 Magazine e do Local Call, retomadas por veículos como The Guardian, dois sistemas foram centrais. O Habsora (Gospel, em inglês), desenvolvido pela Unidade 8200 da inteligência israelense, foca em estruturas e edifícios e chegou a gerar cerca de cem alvos por dia — contra os cerca de cinquenta por ano que analistas humanos produziam. Já o Lavender foi mais longe: gerou listas de dezenas de milhares de pessoas marcadas como alvos com base em suposta afiliação a grupos armados.

Os números que circularam nas investigações são o cerne do debate ético. Fala-se em aproximadamente 37 mil pessoas sinalizadas e uma margem de erro admitida de cerca de 10% — o que, na prática, significa milhares de identificações potencialmente equivocadas. Oficiais de inteligência descreveram, sob anonimato, um processo em que alvos designados pela máquina eram aprovados com revisão humana mínima, às vezes em segundos. Um terceiro sistema, apelidado de Where's Daddy?, era usado para rastrear indivíduos até suas residências.

A diferença entre Gaza e os casos americanos é de grau, não de natureza: em ambos, a IA transformou a geração de alvos de gargalo humano em linha de produção.

Ucrânia: o laboratório a céu aberto

Se Gaza foi a vitrine do targeting automatizado, a Ucrânia é o laboratório da autonomia em escala.

Segundo levantamento do think tank Strategy International, o país produziu 800 mil drones em 2023, dobrou o número em 2024 e mirava 5 milhões de unidades em 2025 — ao menos metade com algum grau de guiagem por IA. A reportagem descreve como engenheiros ucranianos, retreinando modelos de IA disponíveis publicamente com dados reais de combate, elevaram a precisão de ataques de drones de faixas de 10-20% para algo entre 70% e 80%.

A Palantir também está lá, fornecendo fusão de dados e análise de imagens de satélite. E o Clearview AI, empresa americana de reconhecimento facial, disponibilizou sua tecnologia a milhares de autoridades ucranianas, usada — segundo a TIME — para identificar centenas de milhares de russos, entre soldados mortos e supostos colaboradores. A promessa inicial era humanitária: identificar corpos para avisar famílias. O risco, apontado por organizações de direitos digitais, é o de sempre — a mesma tecnologia que identifica um morto pode alimentar um sistema que decide sobre um vivo.

Contexto: por que as promessas caíram

A reversão coletiva não foi coincidência. Ela responde a um ambiente geopolítico específico: a corrida por chips de IA, os controles de exportação impostos pelos EUA à China a partir de 2022, e a pressão de governos que passaram a tratar a liderança em IA como questão de segurança nacional. Quando o Estado enquadra um setor como estratégico para a defesa nacional, as políticas corporativas de autocontenção viram obstáculo — e obstáculos, no mercado de defesa, são removidos.

Para o leitor brasileiro, o tema não é distante. O Brasil possui indústria de defesa em expansão, marco legal próprio para empresas estratégicas de defesa e crescente interesse em sistemas de consciência situacional e fusão de dados. As perguntas que os EUA e Israel enfrentam agora — quem responde por um erro algorítmico, onde fica o humano na decisão letal, quem audita o código que prioriza alvos — chegarão, mais cedo ou mais tarde, ao debate nacional.

Encerramento: a pergunta que ninguém quer assinar

Há uma assimetria incômoda no coração dessa transformação. Quando um oficial autoriza um ataque, existe um nome, uma patente e uma cadeia de responsabilidade. Quando um sistema prioriza mil alvos em 24 horas e redige a própria justificativa legal, a responsabilidade se dilui entre o programador que treinou o modelo, a empresa que o licenciou, o integrador que o acoplou ao sistema de armas e o operador que apertou o botão confiando na máquina.

O setor gosta de repetir que sempre haverá um "humano no circuito". A pergunta que o Painel deixa é outra, e mais desconfortável: quando o humano tem segundos para revisar o que a máquina levou milissegundos para decidir, e sob a pressão de um conflito ativo, esse humano ainda decide — ou apenas assina?


Versão em áudio disponível no topo do post.

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