Eleições 2026

Intercept: Flávio pagou R$ 600 mil a empresa que oferece IA para manipular eleições nos EUA

O Intercept Brasil revelou que a campanha de Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a uma empresa que oferece, nos EUA, um sistema de IA para operações de manipulação eleitoral — mas a própria reportagem diz não haver prova de que o sistema tenha sido usado

Intercept: Flávio pagou R$ 600 mil a empresa que oferece IA para manipular eleições nos EUA
📷 Reprodução Intercept
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  • O Intercept Brasil revelou que a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, pagou R$ 600 mil à empresa de cibersegurança Elytron; o PL declarou outros R$ 131,9 mil pagos à mesma empresa.
  • Segundo documentos obtidos pela reportagem, a Elytron oferece, nos Estados Unidos, um sistema que combina big data e inteligência artificial para operações de manipulação política — como criação de contas falsas, disseminação de desinformação e até publicação de reportagens em veículos internacionais por meio de "relacionamentos excepcionais".
  • A fonte das provas é Vincent Edward Reed, ex-consultor americano da Elytron, que entregou notas fiscais, uma apresentação confidencial e prints de slides — mas que admite que a tecnologia foi apenas demonstrada, sem confirmar que tenha sido efetivamente contratada para esse fim.
  • A própria reportagem do Intercept afirma não haver evidência de que o sistema tenha sido usado por Flávio Bolsonaro ou pelo PL na eleição de 2026; a campanha e a Elytron negam qualquer contratação de serviço ilegal.
  • Por que isso importa: a denúncia chega a 9 dias do 2º turno e descreve uma tecnologia potencialmente grave para a integridade eleitoral, mas repousa sobre fonte única e documentos que a reportagem não classifica como prova de uso — distinção que o leitor precisa ter clara antes de tirar conclusões.
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O Intercept Brasil publicou, nesta sexta-feira (16/10), reportagem segundo a qual a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República no 2º turno, pagou R$ 600 mil à empresa de cibersegurança Elytron — que, segundo documentos obtidos pela publicação, oferece nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial para operações de manipulação política. O PL, partido de Flávio, declarou ainda R$ 131,9 mil pagos à mesma empresa.

É importante destacar, desde já, o que a própria reportagem afirma e o que não afirma: o Intercept não aponta evidência de que o sistema tenha sido efetivamente usado pela campanha de Flávio Bolsonaro ou pelo PL na eleição de 2026. O que a reportagem documenta é o pagamento à empresa e a existência de um material comercial em que a Elytron descreve as capacidades do sistema — a ligação entre as duas coisas é uma inferência da reportagem, não um fato comprovado por ela.

Os pagamentos

Segundo o sistema DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral, a campanha de Flávio registra R$ 600 mil em três notas fiscais emitidas pela Elytron: duas de 16 de setembro, de R$ 500 mil cada — sendo uma delas cancelada —, e uma terceira, de 2 de outubro, de R$ 100 mil. Na prestação de contas parcial, a campanha declarou despesa total de R$ 1 milhão com a empresa. O PL, por sua vez, registra pagamento de R$ 131,9 mil em 20 de julho, descrito como "serviços técnico-profissionais".

As notas fiscais descrevem os serviços prestados como "consultoria em tecnologia da informação", com itens genéricos como "apoio forense", "investigação phishing", "teste de segurança" e "monitoramento de infraestrutura" — descrição compatível, em tese, com serviços regulares de segurança da informação, categoria em que a própria campanha de Flávio enquadra a contratação.

O que o material da Elytron descreve

Segundo documentos apresentados pela fonte da reportagem, o sistema oferecido pela Elytron combinaria big data e IA para realizar campanhas de comunicação massivas e direcionadas, com geolocalização e testes de eficácia de mensagens; rastreamento de robôs e notícias falsas; criação de "comportamentos inautênticos" — contas falsas, plantio de rumores, avatares de IA e deepfakes; uma "operação especial" descrita como envolvendo "técnicas de guerra psicológica e métodos de infiltração" contra adversários políticos; e publicação de reportagens em veículos de imprensa internacionais — a lista cita The New York Times, Bloomberg, The Washington Post, Reuters e CNN — por meio do que o material chama de "relacionamentos excepcionais".

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A reportagem ressalta que monitorar redes sociais e usar ferramentas comerciais de inteligência de dados, como Meltwater ou Brandwatch, não é, por si só, ilegal. O que tornaria o sistema descrito mais grave, segundo a reportagem, seria a oferta de operação ativa de comportamentos inautênticos — ou seja, não apenas monitorar, mas fabricar e disseminar conteúdo falso de forma coordenada. A analista Beatriz Farrugia, da Lupa/Debunk, ouvida pela reportagem, descreveu o material como uma definição completa de operação de influência.

A fonte da denúncia e suas limitações

Toda a base documental da reportagem vem de Vincent Edward Reed, empreendedor americano que atuou como consultor da Elytron entre 2024 e 2025 e que, segundo ele mesmo, serviu de intermediário com pessoas ligadas à campanha de Donald Trump em 2024. Reed entregou ao Intercept notas fiscais, uma apresentação confidencial em inglês e prints de slides com fluxogramas de objetivos e métodos.

Um ponto central, que o leitor deve ter em conta: Reed afirma que a tecnologia foi demonstrada, mas não confirma que tenha sido efetivamente contratada para os fins descritos — nem pela campanha de Trump, nem pela de Flávio Bolsonaro. Segundo a reportagem, ele diz ter denunciado o caso ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, sem que isso tenha gerado avanços até agora, e afirma ter rompido com a empresa por considerar o sistema antiético e ilegal — ou seja, é uma fonte com histórico de desavença com a própria Elytron, o que não invalida o material entregue, mas é um dado relevante para avaliar o contexto da denúncia.

As negativas de todos os citados

A campanha de Flávio Bolsonaro nega ter contratado qualquer serviço ilegal, afirma que a Elytron presta serviço exclusivo de segurança da informação, com contratação regular, e classifica a associação feita pela reportagem como tendenciosa.

A Elytron repudia publicamente deepfakes e operações de manipulação, afirma oferecer apenas serviços "exclusivamente defensivos", nega ter prestado serviço à campanha de Trump e nega ter autorizado as apresentações comerciais atribuídas a ela, dizendo que apurará o uso indevido de seu nome. A empresa confirma ter pessoa jurídica em Portugal, mas diz que isso atende a fins "organizacionais e tributários". O CEO da empresa no Brasil, João Lucas Melo Brasio, não respondeu à reportagem até a publicação.

Dois outros nomes citados como contatos de Reed — Jorge Remígio e Ludgero de Sousa — confirmam o contato, mas negam reuniões com equipes de Trump e negam oferecer manipulação política ou deepfakes; a Elytron, após a publicação, descreveu-os como parceiros comerciais independentes, remunerados por comissão. Eric Leandri, apontado como ligado a uma empresa dos Emirados Árabes (Aleria) com suposta conexão à Elytron, não respondeu. O lutador Renzo Gracie, citado por ser sócio de Leandri e Sousa em outra empresa (Lerco Consulting), diz ser apenas amigo pessoal deles e nega qualquer relação com a Aleria ou a Elytron.

Outros nomes mencionados, sem acusação direta

A reportagem cita ainda, no contexto mais amplo da matéria, nomes como Pablo Marçal — descrito como tendo ligações com o entorno da Elytron e como integrante da equipe de Flávio desde o fim de setembro, embora inelegível — e Eduardo Bolsonaro, mencionado no contexto da matéria. Nenhum desses nomes é apontado pela reportagem como tendo participação direta na contratação ou no uso do sistema descrito; a menção é contextual, e assim deve ser tratada.

A reportagem também relata, sem comprovação operacional estabelecida, supostos vínculos entre a Elytron e a empresa emiradense Aleria, presidida por Eric Leandri, e a holding International Holding Company, cujos executivos seriam ligados ao xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, descrito por outras publicações internacionais como figura ligada a atividades de inteligência nos Emirados Árabes Unidos. Esses vínculos são relatados pela fonte da reportagem e não aparecem, no material consultado, como comprovados de forma independente.


🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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