Investigação contra chefe de gabinete de Milei acelera queda de popularidade do presidente argentino
Manuel Adorni, principal auxiliar de Javier Milei, é alvo de apuração por enriquecimento ilícito; pesquisa AtlasIntel aponta 62% de rejeição ao governo — pior índice da América Latina
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- Justiça federal argentina investiga Manuel Adorni, chefe de Gabinete de Javier Milei, por inconsistências patrimoniais e gastos incompatíveis com renda declarada
- Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de março de 2026 registra 62% de rejeição a Milei, maior índice entre presidentes latino-americanos
- Caso LIBRA, criptomoeda promovida pelo presidente, e escândalos de corrupção em seu círculo próximo corroem narrativa de renovação ética
- Por que isso importa: a erosão da imagem de Milei pode reconfigurar alianças regionais e servir de alerta sobre os limites de governos moralistas sem lastro institucional
A popularidade do presidente da Argentina, Javier Milei, atingiu o pior patamar desde sua posse, com 62% de rejeição segundo pesquisa AtlasIntel divulgada em março de 2026. O desgaste se intensifica com a investigação federal contra Manuel Adorni, chefe de Gabinete e principal auxiliar do presidente, acusado de enriquecimento ilícito, malversação e tráfico de influências. A combinação de escândalos de corrupção no núcleo do poder e deterioração econômica coloca em xeque a narrativa de renovação ética que sustentou a ascensão do governo libertário.
Quem é Manuel Adorni e por que sua investigação importa
Manuel Adorni não é um nome conhecido do grande público — mas sua função, sim. Como chefe de Gabinete da Presidência da Argentina, ele é o principal operador político do governo Javier Milei, responsável por articular a agenda legislativa, coordenar ministérios e blindar o presidente de crises. Até outubro de 2025, Adorni atuava como porta-voz oficial, sendo a voz diária do governo nas coletivas de imprensa.
A investigação conduzida pelo juiz Ariel Lijo apura como Adorni acumulou propriedades de alto valor — incluindo um semipiso no bairro nobre de Miró e uma residência no country Indio Cua, ambas com reformas avaliadas em centenas de milhares de dólares — sem compatibilidade com sua renda declarada de 3,5 milhões de pesos até janeiro de 2026. A Justiça determinou a quebra de sigilos bancário, fiscal e financeiro para cruzar dados de contratos públicos, viagens internacionais e movimentações atípicas.
Analistas políticos destacam que a distinção entre ilegalidade e imoralidade é central para compreender o impacto político do caso. Enquanto a Justiça apura eventuais crimes, a opinião pública argentina questiona a coerência de um governo que se elegeu combatendo privilégios da "casta", mas cujos auxiliares reproduzem padrões de consumo e acesso a recursos que o discurso oficial repudiava.
O elo LIBRA: quando a criptoeconomia encontra a política
Paralelamente à investigação patrimonial de Adorni, a Justiça argentina apura o caso LIBRA, criptomoeda promovida publicamente por Milei em fevereiro de 2025. O ativo digital colapsou horas após o tuíte presidencial, gerando prejuízos estimados em mais de 100 milhões de dólares a investidores.
Perícia forense em dispositivos eletrônicos revelou trocas de mensagens entre Milei, sua irmã Karina Milei, secretária-geral da Presidência, e o lobista Mauricio Novelli, apontado como intermediário entre o governo e operadores do mercado cripto. A hipótese de querelantes é que Adorni, na época ainda porta-voz, atuou como articulador em encontros com empresários interessados em acesso ao presidente, cobrando contrapartidas para viabilizar agendas.
A deputada Marcela Pagano, opositora de La Libertad Avanza, afirmou publicamente que Adorni funcionava como "caixa" informal do núcleo presidencial. Segundo ela, cinco dos maiores empresários argentinos teriam relatado cobranças para conseguir reuniões com o então candidato — e Adorni seria um dos responsáveis por recolher esses recursos.
Pesquisa AtlasIntel: Milei é o presidente mais rejeitado da América Latina
O desgaste político ganha contornos dramáticos nos números. Pesquisa conjunta da AtlasIntel com a Bloomberg, divulgada em março de 2026, registrou 62% de rejeição a Javier Milei — o maior índice entre os 18 presidentes latino-americanos avaliados. Apenas 36% aprovam sua gestão, e 2% não souberam se posicionar.
A trajetória é de queda acentuada: em janeiro de 2024, no início do mandato, Milei tinha 49% de aprovação contra 48% de rejeição. Em pouco mais de dois anos, a diferença se inverteu em 26 pontos percentuais. Entre os fatores citados para o declínio estão:
- Inflação ainda elevada e impacto no poder de compra
- Reforma trabalhista que amplia jornada sem pagamento de horas extras
- Escândalos de corrupção no círculo íntimo do presidente
- Desaceleração do consumo e aumento da informalidade
O desemprego subiu para 7,5% no fim de 2025, segundo dados do INDEC, órgão oficial de estatísticas da Argentina. A combinação de ajuste fiscal rigoroso e ausência de resultados sociais imediatos tem pressionado a percepção pública, especialmente entre as classes média e baixa.
Fundações, pauta digital e a zona cinzenta do financiamento político
Outro vetor de tensão envolve a Fundación Faro, think tank vinculado ao governo Milei e liderado pelo intelectual Agustín Laje. Dados apurados por veículos de verificação indicam que a organização gastou mais de 1,079 bilhão de pesos argentinos em publicidade no Facebook e Instagram entre 2025 e 2026.
O problema: não há registros públicos de apresentação de balanços da fundação perante a Inspeção Geral de Justiça da Argentina, órgão responsável pela fiscalização de entidades sem fins lucrativos. A ausência de transparência sobre a origem dos recursos alimenta suspeitas de que verbas públicas ou doações não declaradas estariam sendo canalizadas para estratégias de comunicação política digital.
A deputada Pagano também apontou conexões entre a Fundación Faro e a produtora IMGROUP S.A.S., constituída em Montevidéu em 2022 por Marcelo Grandio — amigo de Adorni — e sua esposa. Transferências bancárias da IMHOUSE para Adorni coincidiriam temporalmente com contratos de publicidade firmados entre a TV Pública argentina e programas produzidos por Grandio.
Por que o caso argentino interessa ao leitor brasileiro
- Padrões regionais de accountability: investigações como a de Adorni testam a capacidade institucional de países sul-americanos em fiscalizar o uso de recursos públicos e a conduta de agentes políticos.
- Criptomoedas e regulação: o caso LIBRA ilustra riscos da interseção entre influenciadores políticos de alto perfil e ativos digitais voláteis — debate relevante para o Brasil, que discute marco regulatório do setor.
- Narrativa moralista em xeque: governos que se constroem sobre discursos de renovação ética enfrentam desafios amplificados quando escândalos emergem, gerando efeitos de contágio em movimentos similares na região.
- Transparência digital: o gasto massivo de fundações ligadas a governos em publicidade algorítmica, sem prestação de contas clara, levanta questões sobre manipulação de opinião pública via redes sociais.
Cenários possíveis e o que observar nos próximos meses
A investigação conduzida por Ariel Lijo deve avançar com a análise de extratos bancários, registros de chamadas e contratos públicos. Dois cenários se delineiam:
- Cenário de contenção: se as provas não forem robustas o suficiente para indiciamento formal, o governo Milei pode tentar encerrar o caso como "perseguição política", mantendo Adorni no cargo e apostando na polarização para neutralizar o desgaste.
- Cenário de ruptura: caso surjam evidências concretas de enriquecimento ilícito ou desvio de recursos, a pressão interna e externa pode forçar uma recomposição ministerial, com impactos na governabilidade e na agenda legislativa do presidente.
Para observadores brasileiros, o desdobramento mais relevante não é apenas o destino de Adorni, mas a forma como instituições argentinas lidam com a tensão entre poder executivo e controle judicial — um termômetro para a saúde democrática regional.
Analistas políticos resumem o dilema: em contextos de desconfiança institucional, a percepção pública de integridade pode ter peso político maior do que a tipificação penal de condutas. Para governos que se vendem como "diferentes", essa é uma armadilha estratégica.
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