Janja e comunicação, dois pontos que afundam 'Lula 3'
Primeira-dama estaria cerceando reuniões políticas do presidente, enquanto governo desliza ladeira abaixo na comunicação institucional

O terceiro mandato de Lula da Silva tem sido desafiador, principalmente no quesito 'popularidade'. Se nos dois primeiros mandatos Lula obteve índices altíssimos de aprovação, o terceiro está sendo desastroso. E pelo menos dois fatores tem sido determinantes para que isso ocorra, a primeira- dama, Janja e o marketing institucional do governo.
De acordo com Daniela Lima, da Globonews, o presidente não consegue mais fazer reuniões políticas no Planalto sem a presença de Janja, que tem participação ativa nas decisões, se contrapõe a opiniões embasadas e proíbe conversas durante os horários de almoço, jantar e fins de semana ‘para não atrapalhar a rotina do casal'.
A jornalista apontou ainda que essas ‘proibições’ e ‘interferências’ de Janja criaram uma barreira em relação ao presidente.
E nesta segunda-feira, uma carta escrita pelo advogado Antônio de Almeida Castro, o Kakay, amigo pessoal de Lula, com quem sempre manteve estreitas relações, chamou atenção ao que ele classifica como ‘isolamento do presidente', “o Lula do 3º mandato, por circunstâncias diversas, políticas e principalmente pessoais, é outro. Não faz política. Está isolado. Capturado. Não tem ao seu lado pessoas com capacidade de falar o que ele teria que ouvir”.
As críticas de Kakay vem no rastro da pesquisa Datafolha, divulgada na última sexta-feira (14), revelando que a aprovação do presidente caiu para 24% — ante os 35% do último levantamento, de dezembro do ano passado.
Kakay foi além, e já prevê uma derrota em 2026, “com a extrema direita crescendo no mundo e, evidentemente aqui no Brasil, o quadro é muito preocupante. Sem termos o Lula que conhecíamos como presidente e sem ele ter um grupo que ele tinha ao seu redor, corremos o risco do que parecia impossível: perdermos as eleições em 2026. Bolsonaro só perdeu porque era um inepto. Tivesse ouvido o Ciro Nogueira (então ministro da Casa Civil) e vacinado, ou ficado calado sem ofender as pessoas, teria ganho com a quantidade de dinheiro que gastou. Perder uma reeleição é muito difícil, mas o Lula está se esforçando muito para perder. E não duvidem dele, ele vai conseguir”, afirma.
O advogado ainda diz que Lula não criou um grupo ao seu redor de onde poderia sair o seu sucessor. Kakay elogia o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
“Não foi feito um grupo ao redor do presidente, que se identifique com ele e de onde sairia o sucessor político natural, o ‘grupo’ do Lula a gente sabe quem é. E certamente não vai tirá-lo do isolamento. Ele hoje é um político preso à memória do seu passado. E isolado. Quero acreditar na capacidade de se reencontrar. Quem se refez depois de 580 dias preso injustamente, pode quase tudo. E nós temos o Haddad, o mais fenomenal político desta geração em termos de preparo. Um gênio. Preparado е pronto para assumir seu papel”.
O advogado não cita a primeira-dama, mas seu texto deixa claro que o isolamento do presidente tem a ver com seu novo ‘staff’ e nova forma de administrar.
Paralelo a isso, o governo patina na comunicação institucional, cometendo erros primários, sem se ajustar aos novos tempos. Estratégias mal elaboradas, sem nenhum embasamento, não consegue mostrar os pontos positivos do governo, enquanto as redes sociais são inundadas com postagens reclamando dos altos preços praticados em supermercados e postos de combustíveis. Para piorar, o próprio Lula se auto-sabota com falas grotescas, como a ‘se está caro não compre', ou ‘o povo tem que seber quem xingar'.
Lula não entende que a culpa sempre vai ser de quem ocupa o Planalto. Querer explicar que o preço da gasolina é culpa do ICMS aplicado pelos estados, é uma fala infantil, no país onde as pessoas confundem STJ com STF.
Ainda pior foi ter esvaziado Fernando Haddad, experiente e moderado, que segundo Daniella Lima, foi ignorado em uma reunião onde estava sendo debatido exatamente uma forma de melhorar a comunicação.
Sem misoginia, Lula precisa compreender que ele foi eleito, e Janja, por mais articulada que seja, não tem função pública, e chega a ser absurdo o nível de interferência dela em questões de Estado. Lula tem tudo para reverter esse cenário, mas precisa realmente encontrar um ponto de equilíbrio entre o pessoal e o institucional. E não se trata aqui de menosprezar as opiniões de Janja, mas sim ter ponderação e bom senso.
O Brasil precisa de um presidente. E o Lula de antigamente está fazendo falta.
