Dark Horse custou mais que "Ainda Estou Aqui" — e o dinheiro era de Vorcaro
Publicitário confirma intermediação, senador admite os contatos e novo dado dimensiona o escândalo: o valor supera o custo de dois dos maiores filmes brasileiros recentes juntos
📋 Em resumo ▾
- R$ 62 milhões de Vorcaro para o Dark Horse superam o orçamento de "Ainda Estou Aqui" (R$ 45 mi) e de "O Agente Secreto" (R$ 28 mi)
- Flávio Bolsonaro admitiu em nota os contatos com Vorcaro, negou irregularidades e classificou como "patrocínio privado"
- Publicitário Thiago Miranda confirmou à CNN ter intermediado os repasses a pedido do deputado Mario Frias
- Boulos pediu cassação do mandato de Flávio; Zema disse que "não adianta criticar o Lula e fazer a mesma coisa"
- Por que isso importa: o caso transforma a maior aposta eleitoral da extrema-direita para 2026 em evidência de sua ligação com o maior escândalo bancário do ano
O dinheiro que o banqueiro Daniel Vorcaro repassou para a produção do filme "Dark Horse" — a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro — supera o orçamento de dois dos maiores sucessos recentes do cinema brasileiro. São R$ 62 milhões transferidos entre fevereiro e maio de 2025, conforme apurado pelo Intercept Brasil e confirmado pelo O Globo nesta quarta-feira (13/5): valor acima dos R$ 45 milhões gastos em "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar de melhor filme internacional, e dos R$ 28 milhões de "O Agente Secreto", premiado em Cannes. No fim da tarde, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitiu em nota os contatos com Vorcaro — mas negou ter recebido dinheiro pessoalmente e classificou o aporte como "financiamento privado" para um projeto cultural sobre seu pai.
O que Flávio admitiu — e o que continua sem explicação
A nota divulgada pelo senador no fim da tarde desta quarta foi uma virada de posição em relação à manhã do mesmo dia, quando, questionado pessoalmente pelo Intercept nas proximidades do STF, Flávio havia dado uma gargalhada, dito "é mentira" e se retirado sem responder.
Em nota, Flávio negou ter recebido dinheiro de Vorcaro, mas mencionou o atraso nas parcelas da doação que acertou com o banqueiro para a realização do filme. "Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet", afirma o documento.
O senador disse ter conhecido Vorcaro em dezembro de 2024 e que "o contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme". "Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem", afirmou.
O que a nota não explica: o áudio de setembro de 2025, quando Flávio cobrou Vorcaro enquanto as investigações ao Master já eram amplamente conhecidas; e a mensagem de 16 de novembro de 2025 — um dia antes da prisão do banqueiro —, quando escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz."
O publicitário que confirmou tudo
A versão de Flávio ganhou um complicador externo ainda no mesmo dia. O publicitário Thiago Miranda, dono da Agência Mithi, confirmou à CNN ter intermediado os repasses de Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro.
Segundo Miranda, o projeto chegou até ele por meio do deputado Mario Frias (PL-SP) — roteirista do filme e ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro —, que relatou dificuldades para captar recursos para a produção. O publicitário chegou a agendar uma reunião entre Flávio e Vorcaro no final de 2024, mas afirmou ao Metrópoles que o senador não compareceu ao encontro e disse "não se lembrar" se outro encontro foi agendado.
Miranda é uma figura com camadas. Na véspera da publicação da reportagem, ele havia prestado depoimento à Polícia Federal na investigação sobre a contratação de influenciadores para atacar o Banco Central e defender o Master — o chamado "Projeto DV", em referência às iniciais de Daniel Vorcaro. À PF, confirmou ser o responsável pelas contratações, classificando o serviço como "gestão de crise".
Um orçamento de Oscar — pago por um banqueiro preso por fraude
A dimensão financeira do Dark Horse é o dado que mais contextualiza a gravidade política do caso. Para o cinema brasileiro, R$ 62 milhões já transferidos — de um total previsto de R$ 134 milhões — representam um investimento sem precedente em produção nacional recente.
"Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, que levou o Oscar de melhor filme internacional e o Globo de Ouro de melhor atriz para Fernanda Torres, custou R$ 45 milhões. "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, que conquistou melhor direção e melhor ator para Wagner Moura no Festival de Cannes, custou R$ 28 milhões totais — sendo apenas R$ 13,5 milhões a fatia brasileira, dividida entre recursos públicos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e iniciativa privada.
A disparidade fica ainda mais nítida em perspectiva internacional. Produções concorrentes ao Oscar na última temporada custaram menos do que o valor repassado por Vorcaro: o filme norueguês "Valor Sentimental", de Joachim Trier, foi produzido por US$ 7,8 milhões; e "Sonhos de Trem", da Netflix, por US$ 10 milhões.
"Um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet." — Flávio Bolsonaro, em nota divulgada no fim da tarde de 13/05/2026
A reação que Flávio não esperava: até aliados o criticaram
O campo político governista reagiu com dureza previsível. O ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) defendeu a cassação do mandato de Flávio. "A não ser que seja adulterada, que ele diga que alguém imitou a voz dele, ele não tem condição de permanecer como senador da República", afirmou. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) anunciou que pedirá à PF a prisão preventiva do senador.
Mas o golpe mais simbólico veio de dentro do próprio campo da oposição. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) — que chegou a ser cogitado como vice de Flávio e afirmou ter convidado o senador para sua chapa — disse que "não adianta criticar as práticas do Lula e fazer a mesma coisa".
A frase de Zema é politicamente mais destrutiva do que qualquer declaração governista. Vinda de um aliado potencial, ela sinaliza que o escândalo já atravessou a fronteira da oposição e começa a contaminar as relações dentro do próprio campo bolsonarista.
"Uma semana após Flávio dizer que o Banco Master está ligado ao PT, vaza áudio dele cobrando R$ 134 milhões de Vorcaro. A terra plana não gira, capota." — Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, via X
O que o Dark Horse revela além do filme
O projeto cinematográfico tinha uma lógica eleitoral clara: lançar uma superprodução heroica sobre Jair Bolsonaro semanas antes do primeiro turno de outubro de 2026 — a estreia está prevista para 11 de setembro, data carregada de simbolismo nos Estados Unidos. Para isso, precisava de dinheiro em escala hollywoodiana. E o dinheiro foi buscado onde estava disponível: em Daniel Vorcaro, homem que construiu um banco com um rombo de R$ 47 bilhões no sistema financeiro.
A tese da defesa — "patrocínio privado, sem dinheiro público" — tem coerência formal mas ignora o contexto. Vorcaro não era um empresário qualquer buscando associar sua marca a um projeto cultural. Era, no período das negociações, um banqueiro já sob suspeita, com seu banco enfrentando crescentes pressões regulatórias e tentando se vender ao BRB — processo que o Banco Central reprovou em setembro de 2025. Quando o dinheiro para o filme foi sendo transferido, em parcelas ao longo de 2025, a crise do Master já era um fato político.
A pergunta que o escândalo coloca não é apenas jurídica — se houve ou não contrapartida ilícita. É política: quem financia a narrativa eleitoral de um candidato à presidência também financia o candidato. E quando esse financiador é um homem preso por fraude sistêmica, a pergunta sobre o que ele esperava em troca não desaparece com uma nota de três parágrafos.
Versão em áudio disponível no topo do post.