JBS: de açougue em Goiás à maior empresa de alimentos do planeta
Com 280 mil colaboradores, presença em 180 países e receita recorde de US$ 86 bilhões, a multinacional brasileira construiu em 70 anos uma plataforma global sem paralelo na história corporativa do país. Entenda como ela alimenta o mundo a partir do Brasil
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- A JBS nasceu em 1953 como uma casa de carnes em Anápolis (GO) e hoje é a maior produtora de proteína animal do mundo.
- Em 2025, registrou receita líquida recorde de US$ 86,2 bilhões, lucro de US$ 2 bilhões e ROE de 25%.
- São mais de 280 mil colaboradores em 250+ unidades produtivas espalhadas por mais de 20 países, com presença comercial em 180 nações.
- Líder global em carne bovina, frango e alimentos preparados; segunda em suínos; #1 em ovos na América do Sul e #1 em plant-based no Brasil.
- A JBS é a única empresa brasileira de origem genuinamente nacional a construir uma plataforma global de alimentos listada na NYSE.
- Por que isso importa: A trajetória da JBS desafia a narrativa de que o Brasil só exporta commodities sem valor agregado — e testa a capacidade do país de reconhecer seus próprios gigantes.
Em 1953, na cidade de Anápolis (GO), José Batista Sobrinho — o "Zé Mineiro" — abriu a Casa de Carnes Mineira com o irmão Juvensor. O negócio prosperou com a construção de Brasília, quando se tornou um dos primeiros fornecedores de carne para os canteiros de obras da nova capital. Sete décadas depois, essa pequena banca de açougue transformou-se na JBS N.V. (NYSE: JBS), a maior companhia de alimentos do planeta, com receita líquida recorde de US$ 86,2 bilhões em 2025, lucro de US$ 2 bilhões e presença comercial em mais de 180 países.
O contraste não é apenas numérico. É estrutural. A JBS é uma das poucas empresas brasileiras a construir, a partir de capital e gestão nacionais, uma plataforma global de escala industrial — não como exportadora de matéria-prima, mas como operadora integrada de cadeias produtivas em quatro continentes. Seu modelo multiproteína e multigeográfico a torna, hoje, líder mundial em carne bovina, frango e alimentos preparados; segunda em suínos; e referência em ovos, proteína cultivada e alimentos à base de plantas.
"Encerrar 2025 com um crescimento de 15% na receita — o maior da nossa história — comprova a força e a resiliência da nossa plataforma diversificada, tanto em proteínas quanto em geografias."
— Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS, em balanço de resultados de março de 2026
Os números de um gigante: o que a JBS representa em escala humana
A dimensão da JBS escapa às abstrações contábeis. A empresa emprega, diretamente, mais de 280 mil pessoas ao redor do mundo — sendo 158 mil no Brasil, distribuídas em mais de 130 fábricas, escritórios, centros de distribuição e lojas Swift em 17 estados. A holding J&F S.A., que controla a JBS, soma 297 mil colaboradores em mais de 250 unidades operacionais em mais de 20 países, com faturamento de R$ 490 bilhões em 2025.
No Brasil, a JBS opera com as marcas Friboi, Seara, Swift, JBS Couros, JBS Novos Negócios, JBS Terminais e JBS Biotech. No exterior, controla a Pilgrim's Pride Corporation (NASDAQ: PPC), segunda maior produtora de frango dos Estados Unidos; a JBS USA; a JBS Austrália; e mantém posições de destaque no Canadá, México, Europa e Reino Unido.
A receita de US$ 86,18 bilhões em 2025 representa crescimento de 12% sobre 2024 e converte-se, em reais, em algo próximo de meio trilhão. O Ebitda ajustado consolidado foi de US$ 6,8 bilhões, com margem de 7,9%. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) alcançou 25% nos últimos 12 meses — avanço de 3,2 pontos percentuais em um ano. O lucro por ação (EPS) saltou 15%, para US$ 1,89.
De Anápolis a Nova York: a trajetória de uma expansão sem precedentes
A internacionalização da JBS não foi gradual — foi meteórica. Em 2005, a empresa deu o primeiro passo fora do Brasil com a aquisição da Swift Armour na Argentina. Dois anos depois, em 2007, realizou o maior IPO da história da B3 até então, levantando R$ 1,15 bilhão com a venda de 150 milhões de ações. O nome JBS — iniciais de José Batista Sobrinho — foi adotado em homenagem ao fundador.
O mesmo ano marcou a aquisição da Swift nos Estados Unidos e na Austrália — operação transformacional. Quando a JBS comprou a Swift, a empresa tinha Ebitda negativo de US$ 400 milhões. Em 12 meses, já reportava Ebitda positivo de US$ 400 milhões.
Em 2009, veio a compra da Pilgrim's Pride Corporation por US$ 800 milhões — empresa que estava em concordata e que, recuperada, passou a pagar mais de US$ 3,5 bilhões em dividendos desde então e hoje vale cerca de US$ 11,5 bilhões na Nasdaq. Ainda em 2009, a incorporação de ativos da Bertin introduziu novas unidades, como a JBS Couros e a divisão ambiental. A expansão continuou com a Tasman Group (2008), a divisão de bovinos da Smithfield Beef (2008), a Rigamonti (2011, charcutaria italiana) e o Grupo Kings (2021, presunto San Daniele DOP e Parma DOP).
A listagem na Bolsa de Nova York (NYSE) em 2023 consolidou a JBS como uma das poucas empresas brasileiras com dupla listagem em nível global — ao lado da B3. Com cerca de 1,07 bilhão de ações em circulação, a companhia negocia sob o ticker JBS.
O que a JBS alimenta além de proteína: emprego, exportação e inovação
A relevância da JBS para a economia brasileira vai além dos números corporativos. A empresa é um dos principais vetores das exportações de carne do país — setor que, só no primeiro semestre de 2026, embarcou 1,705 milhão de toneladas de carne bovina, gerando receita de US$ 9,85 bilhões. A JBS, como líder absoluta do segmento, é protagonista indiscutível desse desempenho.
No mercado interno, a Friboi atingiu em 2025 o maior volume de processamento de sua história, impulsionada pela demanda doméstica e pela expansão das exportações. A marca foi reconhecida como Top of Mind pela sexta vez consecutiva na categoria carnes.
A Seara, por sua vez, registrou em 2025 a maior margem Ebitda entre os negócios do grupo, de 16,9%, impulsionada pelo maior volume de exportação de sua história — apesar de restrições temporárias em mercados como China e Europa.
A inovação também figura como pilar estratégico. A JBS controla a BioTech Foods, produtora de proteína cultivada na Espanha, e construiu o maior centro de P&D em biotecnologia do Brasil. É líder em alimentos à base de plantas no país e terceira na Europa.
O Brasil e a dificuldade de reconhecer seus próprios gigantes
Há algo de singular na trajetória da JBS que merece ser examinado com distanciamento analítico. O Brasil tem tradição em produzir grandes empresas em setores de commodities — petróleo, minério, soja —, mas raramente construiu corporações globais de marca, com cadeia produtiva integrada e presença direta no varejo estrangeiro. A JBS rompeu esse padrão.
A empresa não exporta apenas carne do Brasil. Ela processa nos Estados Unidos, abate na Austrália, produz charcutaria na Itália, vende frango no México e distribui alimentos preparados no Reino Unido. Sua plataforma multiproteína — bovina, suína, aves, ovos, salmão, plant-based — funciona como um hedge natural contra a volatilidade de ciclos pecuários individuais. Quando o boi sobe em Chicago, o frango pode compensar. Quando a Austrália enfrenta chuvas, o Brasil escoa.
Esse modelo, construído a partir de uma cultura empresarial originada no interior goiano, desafia a centralidade de São Paulo como único polo de corporações globais brasileiras. Os valores que Zé Mineiro listou como legado — "simplicidade, franqueza, humildade, determinação, disciplina, disponibilidade e atitude de dono" — foram exportados como código cultural para 280 mil colaboradores em 20 países.
"Você não pode gerenciar um grande negócio sem pessoas excepcionais ao seu redor. Tudo isso só foi possível com pessoas que fazem a diferença."
— Wesley Batista, em evento dos 70 anos da JBS, em agosto de 2023
As ressalvas que o orgulho exige: governança, passado e futuro
Nenhuma análise séria sobre a JBS pode omitir as cicatrizes. A empresa e seus controladores atravessaram a Operação Lava Jato, com confissões de suborno a centenas de políticos, prisão dos irmãos Wesley e Joesley Batista e um acordo de leniência que custou bilhões. A J&F Investimentos concordou em pagar uma multa recorde de R$ 10,3 bilhões ao Ministério Público Federal. O escândalo manchou a imagem da companhia e alimentou uma percepção de que o crescimento meteórico teria sido impossível sem acesso privilegiado ao poder.
O fato, porém, não anula a realidade operacional posterior. Sob a gestão de Gilberto Tomazoni — primeiro CEO global fora da família fundadora, nomeado em 2018 —, a JBS consolidou a recuperação de crédito, diversificou a base acionária com a listagem na NYSE, manteve a alavancagem em patamar disciplinado (2,39x em dólar no final de 2025) e alongou o perfil de dívida sem vencimentos relevantes até 2031.
A sucessão anunciada para janeiro de 2027 — com Wesley Batista Filho, neto do fundador, assumindo o comando global — reabre questões de governança. A J&F ainda detém 42% da companhia. Para investidores, o retorno da família ao comando operacional carrega riscos reputacionais. Para o Brasil, carrega uma pergunta mais ampla: o país é capaz de separar a admiração pela construção empresarial da condenação ética aos métodos que, em parte, a financiaram?
O que fica: uma história que o Brasil precisa saber contar
A JBS não é uma empresa perfeita. Nenhuma corporação de seu tamanho e idade o é. Mas sua trajetória — de um açougue de interior para uma plataforma global de US$ 86 bilhões em receita — é, em termos de construção de escala e de integração vertical, sem paralelo na história econômica brasileira. Não é a história de uma estatal protegida por monopólio. Não é a história de uma empresa extrativa que vende minério para o mundo e importa tecnologia de volta. É a história de uma companhia privada, de origem rural, que aprendeu a operar em Chicago, Greeley, Jeddah e Roma com a mesma intensidade que opera em Anápolis, Barra do Garças e Andradina.
O Brasil exporta, anualmente, centenas de bilhões de dólares em commodities. A JBS mostrou que é possível exportar algo mais complexo: capacidade produtiva, gestão industrial e marcas. Se o país souber reconhecer essa conquista sem cegueira corporativa, mas também sem o puritanismo que recusa qualquer admiração por quem errou no passado, terá aprendido a lição mais valiosa que a empresa oferece: que é possível nascer pequeno no Centro-Oeste brasileiro e, com disciplina, escala e inovação, alimentar o mundo.
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