JBS tem prejuízo de US$ 102 mi no 2º trimestre, mas receita bate recorde
Receita líquida atinge US$ 23,9 bilhões, mas fatores não recorrentes, pressão nos EUA e litígios revertem lucro de US$ 528 milhões do ano passado. Tomazoni minimiza impacto e projeta normalização; sucessão na presidência global ganha data
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- Ponto-chave 1: JBS registra prejuízo líquido de US$ 102 milhões no 2ºT2026, revertendo 11 trimestres consecutivos de lucro.
- Ponto-chave 2: Receita líquida bate recorde de US$ 23,9 bilhões (+14% no ano), impulsionada por demanda firme nos EUA e Brasil.
- Ponto-chave 3: Fatores não recorrentes somam US$ 425 milhões, incluindo recompra de títulos, litígios de frango e ajuste na aquisição da Mantiqueira.
- Ponto-chave 4: Operação bovina nos EUA segue no vermelho operacional; Pilgrim's Pride vê Ebitda cair quase pela metade.
- Por que isso importa: O resultado testa a resiliência da maior produtora de proteínas do mundo em momento de transição de comando, tensão comercial com a UE e ciclo adverso no mercado norte-americano de gado.
A JBS N.V. (NYSE: JBS), maior processadora de carnes do planeta, encerrou o segundo trimestre de 2026 com um prejuízo líquido de US$ 102,1 milhões, revertendo uma sequência de 11 trimestres no azul. O resultado, divulgado na noite de segunda-feira (10/08) após o fechamento do mercado em Nova York, contrasta com o lucro de US$ 528,1 milhões apurado no mesmo intervalo de 2025. A receita líquida, porém, atingiu US$ 23,9 bilhões — recorte trimestral inédito para a companhia, com alta de 14% na comparação anual.
O último prejuízo da empresa havia sido registrado no segundo trimestre de 2023, ainda antes da estreia na Bolsa de Nova York. Desde então, a companhia acumulou quase três anos de resultados positivos, período que coincidiu com a consolidação da dupla listagem (B3 e NYSE) e com a gestão de Gilberto Tomazoni (CEO global), que entregará o cargo em janeiro de 2027 para Wesley Batista Filho (atual CEO da JBS USA).
"O consumo de proteína continua crescendo, no mundo todo. Mesmo no Oriente Médio (onde há uma guerra em curso), não há retração, e no Brasil a demanda por frango para exportação segue robusta."
— Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, em entrevista ao Valor/Globo Rural
Como fatores não recorrentes de US$ 425 milhões explicam o vermelho no papel
O prejuízo aparente esconde um desempenho operacional mais estável do que os números contábeis sugerem. Segundo o diretor financeiro Guilherme Cavalcanti, o trimestre foi impactado por eventos pontuais que, segundo a diretoria, não devem se repetir.
O maior deles foi o pagamento de prêmios, juros e custos associados à recompra de um bond (título de dívida americano) e a um Certificado de Recebível do Agronegócio (CRA), que somou US$ 172,1 milhões. Somaram-se ainda acordos no valor de US$ 132,7 milhões relacionados a litígios na cadeia de frango nos Estados Unidos — herança judicial que a subsidiária Pilgrim's Pride Corporation (NASDAQ: PPC) vem carregando há anos. Por fim, a reavaliação final da produtora de ovos Mantiqueira, adquirida em 2025, exigiu pagamento adicional de US$ 80,5 milhões. Outros itens de menor peso, como gastos extras derivados do conflito no Oriente Médio, somaram US$ 39,8 milhões.
Descontados esses fatores, o lucro líquido ajustado foi de US$ 218,3 milhões — queda de 62,3% frente ao ano anterior, mas ainda positivo. O Ebitda ajustado atingiu US$ 1,257 bilhão, recuo de 8,2% na comparação anual.
A mensagem da diretoria é clara: o vermelho no resultado final é contábil, não operacional. O mercado, porém, precisará ver se a promessa de "não recorrência" se confirma nos próximos trimestres.
Carne bovina nos EUA: receita recorde, margem negativa
A divisão de carne bovina da América do Norte — responsável por cerca de um terço do faturamento global — ilustra o paradoxo do trimestre. A receita líquida atingiu US$ 7,8 bilhões, alta de 14,2% em relação ao 2ºT2025, sustentada por preços elevados de carne e demanda firme do consumidor norte-americano.
O problema está do outro lado da equação: o preço do boi subiu mais do que a carne. O ciclo pecuário nos EUA mantém custos recordes para os processadores, enquanto a valorização da proteína no varejo não consegue repassar integralmente o aumento. O resultado foi um Ebitda operacional negativo de US$ 100 milhões na unidade bovina norte-americana — ainda uma melhora de 62,1% frente ao prejuízo operacional de US$ 264 milhões do mesmo período do ano passado, mas longe da rentabilidade esperada.
A pressão já havia se manifestado no primeiro trimestre, quando o segmento registrou Ebitda ajustado negativo de US$ 267 milhões e margens de -3,7%. Em junho, a JBS anunciou o fechamento de duas unidades nos EUA — uma planta de carne bovina em Souderton, Pensilvânia, e uma unidade de valor agregado em Memphis, Tennessee — como resposta à escassez de gado e à necessidade de redesenhar a rede produtiva.
Pilgrim's Pride e o "tsunami" de frango americano
Outro peso no resultado veio da Pilgrim's Pride Corporation (PPC), subsidiária de aves da JBS nos Estados Unidos. O Ebitda ajustado da PPC caiu 47,6% no segundo trimestre, para US$ 360 milhões — dado divulgado no fim de julho.
A queda reflete, em parte, a comparação com trimestres excepcionais do ano passado, mas também uma condição de mercado particular: a oferta de frango nos EUA disparou em 2026 devido a menores índices de mortalidade dos animais e melhora na eclosão, fenômeno que a própria PPC classifica como desvio temporário do ciclo padrão de produção. A oferta cresceu cerca de 4,5% acima da demanda, comprimindo as cotações do peito e das asas — cortes que tradicionalmente sustentam as margens.
A PPC também arcou com US$ 136 milhões em despesas de acordos judiciais relacionados a litígios de frango (broiler litigation) e registrou US$ 26 milhões em impairment pela decisão de fechar a unidade de abate em Chattanooga.
Brasil e Austrália: os contrapontos que sustentam o balanço
Enquanto as operações norte-americanas sofriam, o hemisfério sul mostrou robustez. A JBS Brasil, divisão de carne bovina e segunda maior receita da empresa, registrou Ebitda ajustado de US$ 273 milhões — alta de 22,1% na comparação anual, impulsionada pela demanda global firme por proteína bovina.
A Seara, unidade de alimentos processados, aves e suínos, manteve a maior margem de lucro entre os negócios do grupo, de 12,3%, com Ebitda ajustado de US$ 315 milhões — queda de 5,8% frente a 2025, mas ainda resiliente. A unidade ampliou exportações e vendas de itens de marca e valor agregado para o Oriente Médio.
A JBS Austrália teve Ebitda ajustado de US$ 218 milhões, queda de 12,8%, com chuvas que dificultaram o escoamento de animais para as plantas de processamento, conforme explicou Tomazoni. Já a divisão de suínos dos EUA avançou 38% no Ebitda ajustado, para US$ 184 milhões.
União Europeia: embargo às portas e incerteza para bovinos
O horizonte regulatório adiciona camadas de complexidade ao cenário. A União Europeia oficializou em junho a exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar carne para o bloco, medida que entra em vigor em 3 de setembro de 2026. A decisão, baseada na não comprovação do cumprimento de regras europeias sobre uso de antimicrobianos na cadeia produtiva, atinge carne bovina, frango, suína, tripas, peixe e mel.
Tomazoni se mostrou otimista quanto ao frango: uma comitiva europeia deve vir ao Brasil no fim de agosto para verificar protocolos, e o ciclo curto de vida das aves (cerca de 40 dias) permite uma readequação mais ágil. "Pode haver uma pequena interrupção de fornecimento do frango, mas eu acredito que não seja demorado", afirmou.
Para a carne bovina, porém, o cenário é mais grave. O ciclo de vida do boi, de dois a três anos, exige comprovação de não uso de antimicrobianos como promotores de crescimento — e de não uso de medicamentos destinados a humanos — em toda a cadeia, o que o CEO avalia como inviável a curto prazo. "O país não terá condições de voltar a exportar rapidamente" para a UE no segmento bovino, disse.
A medida não está vinculada ao acordo comercial Mercosul-UE, mas sim a regulamentações sanitárias autônomas do bloco. Outros países do Mercosul — Argentina, Paraguai e Uruguai — permanecem autorizados.
Transição de comando: a volta dos Batista ao topo global
O resultado do segundo trimestre chega em momento de transição institucional. Tomazoni, que assumiu em 2018 como o primeiro CEO global fora da família fundadora após o escândalo da Operação Lava Jato, passará o bastão em janeiro de 2027 para Wesley Batista Filho, de 31 anos, atual CEO da JBS USA.
A sucessão representa o retorno da família Batista ao comando operacional após cinco anos. Wesley Filho, neto do fundador José Batista Sobrinho e filho do ex-CEO Wesley Batista, começou na empresa aos 19 anos no turno da noite de um abatedouro em Greeley, Colorado, e passou por posições de liderança em vários países antes de assumir a unidade americana.
A nomeação carrega peso simbólico: os irmãos Wesley e Joesley Batista confessaram em 2017 suborno a centenas de políticos e passaram seis meses presos. Embora livres para retornar a cargos executivos, mantêm perfil discreto. A J&F Investimentos, veículo da família, ainda detém 42% da JBS.
Para investidores, a transição levanta questões de governança. Como disse o analista Leonardo Alencar, da XP Investimentos, em 2023: "Para quem lê apenas que Wesley Filho pertence à família do fundador, nomeá-lo como CEO pode trazer um peso extra de governança para as ações da JBS".
O que o mercado precisa observar
A JBS sai do segundo trimestre com uma narrativa bifurcada: receita recorde e diversificação geográfica robusta, mas margens pressionadas nos EUA e fatores não recorrentes que mancham o resultado contábil. O Ebitda ajustado consolidado de US$ 1,257 bilhão mostra que a operação continua gerando caixa — mas a velocidade de recuperação da unidade bovina norte-americana e a normalização do mercado de frango serão determinantes para os próximos trimestres.
O fechamento de unidades nos EUA, a recomposição da rede produtiva sob o comando de Wesley Batista Filho e a resposta às novas barreiras da União Europeia formam um triângulo de incertezas que a nova gestão precisará navegar. A pergunta que fica no ar: se o consumo global de proteína continua crescendo, a JBS está bem posicionada para capturar esse aumento — mas a que preço, e com que margem?
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