Painel Rondônia

Mais de 100 tiros contra fazendeiro: Como a inércia estatal alimenta a guerra silenciosa pela terra em Rondônia

Em meio a invasões, despejos e mortes recentes, atentado destaca como atrasos na regularização fundiária transformam disputas por terra em tragédias evitáveis – urge ação para romper o ciclo

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Na noite de 26 de novembro de 2025, o que poderia ser mais um dia rotineiro na zona rural de Rondônia transformou-se em um pesadelo de balas e sobrevivência para João Martins, agricultor e influenciador digital local. Proprietário da Fazenda Norbrasil, localizada no distrito de Nova Mutum Paraná, Martins foi vítima de um ataque armado atribuído a membros da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), movimento que defende a reforma agrária radical no estado. A emboscada, executada com fuzis de calibre 7.62, resultou em mais de 100 disparos contra sua caminhonete blindada, que foi perfurada em vários pontos. O projétil roçou o pé da vítima, que se escondeu na mata para escapar da perseguição, sendo resgatada pela polícia apenas na manhã seguinte.

Graças a Deus, sã e salvo, nunca passei um perrengue desse. Entocado dentro do mato, tomei um tiro de fuzil. A caminhonete foi embora, tomou mais de 100 tiros de fuzil, varou a blindagem e pegou no meu pé. Os caras estavam quase me encontrando, se me pega tortura”, relatou Martins em vídeo divulgado nas redes sociais, ecoando o terror vivido e o trauma psicológico que agora acompanha sua rotina. Equipes da Polícia Militar de Rondônia intensificaram buscas na região para prender os responsáveis, mas até o momento, não há prisões confirmadas.

O incidente não é isolado, mas parte de uma escalada de violência ligada à Fazenda Norbrasil, alvo de invasões e confrontos recorrentes. Em 1º de outubro de 2025, a LCP já havia reivindicado um “ataque armado” contra o latifúndio, que pertence ao avô da vítima, o empresário Antônio Martins – conhecido localmente como “Galo Velho”.

Invasores da LCP devastaram a reserva legal da propriedade, impedindo o acesso dos donos e causando prejuízos ambientais e econômicos estimados em milhões, incluindo perda de produtividade agrícola e investimentos em infraestrutura rural. Esses atos não só destroem bens materiais – como cercas, plantações e equipamentos –, mas geram perdas irreparáveis: famílias de trabalhadores rurais desalojadas, gado abatido ou roubado, e um clima de medo que paralisa a operação da fazenda há meses. Para os proprietários, como João e Antônio Martins, o custo vai além do financeiro; é uma erosão da segurança pessoal e da viabilidade do negócio, com investimentos paralisados e safras perdidas que ameaçam a sustentabilidade da propriedade

Camionete blindada foi alvo de dezenas de disparos

Essa tragédia pessoal reflete um problema sistêmico em Rondônia, o estado com o maior número de assassinatos por conflitos agrários na Amazônia Legal em 2023 – tendência que persiste em 2025, com pelo menos duas mortes registradas em 20 de novembro na desocupação forçada de quatro fazendas do grupo Nelore Di Genio, em Machadinho do Oeste. Ali, policiais militares mataram Alex dos Santos Santana e Alessandro dos Santos Santana durante uma reintegração de posse. A LCP, fundada em 1999 como principal força pela “revolução agrária” em RO, tem intensificado ocupações, como a recente em Abunã, gerando tensão constante e 30% das queimadas no estado ligadas a esses embates.

A raiz desses conflitos reside na inércia estatal, particularmente nos atrasos crônicos da regularização fundiária. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) de 2014 – atualizados em relatórios recentes –, 42% das glebas públicas federais em Rondônia (6,8 milhões de hectares) permanecem pendentes de georreferenciamento, etapa essencial para evitar sobreposições e grilagens que alimentam disputas.

Essa demora, agravada por ineficiências no Programa Terra Legal Amazônia e no Titula Brasil, perpetua a indefinição territorial, estimulando invasões e desmatamento. O Zoneamento Socioeconômico-Ecológico de Rondônia (ZSEE-RO), atualizado em 2020 como ferramenta de planejamento para uso sustentável da terra, ainda enfrenta implementação lenta, com sobreposições entre áreas indígenas, unidades de conservação e propriedades privadas – como visto na recente diligência da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado em Alvorada d’Oeste, em 14 de novembro de 2025, que ouviu agricultores sobre expulsões injustas de terras tituladas há décadas.

Despejos realizados, como os de Machadinho e da Fazenda Norbrasil, expõem falhas: famílias sem-terra alegam grilagem em propriedades como as do grupo Di Genio, enquanto proprietários denunciam invasões sem mediação prévia do Incra, que tem sido criticado por omissão. Pendentes, restam 69% das parcelas rurais (2,5 milhões de hectares) sem georreferenciamento, além de interferências políticas em órgãos públicos.

A CDH, por meio do senador Marcos Rogério (PL-RO), presidente da Comissão de Infraestrutura, tem cobrado correções: “Vamos levar as provas ao Senado e cobrar providências da ministra dos Povos Indígenas e da presidência da Funai”, afirmou ele após audiências que revelaram famílias com títulos definitivos tratadas como invasoras devido a erros estatais.

O que deveria ser feito? Especialistas e debatedores em audiências públicas, como a de Buritis em 2021 (atualizada em discussões de 2025), defendem desburocratização via projetos de lei como o PL 2.633/2020 e PL 510/2021, aceleração do Titula Brasil e acordos como o IntegrAção Fundiária, assinado pelo TCE-RO em 12 de novembro de 2025 para suporte técnico a municípios.

Medidas incluem georreferenciamento prioritário de glebas, mediação obrigatória pelo Incra antes de despejos, fortalecimento do ZSEE-RO para delimitar usos sustentáveis e investimentos em infraestrutura, como recuperação da BR-364, para escoamento produtivo sem conflitos. Sem isso, a inércia do Estado – federal, estadual e municipal – continuará a transformar terras em campos de batalha, com prejuízos irreparáveis para todos os envolvidos: de fazendeiros como os Martins a sem-terra em busca de dignidade.

CDH em Rondônia

Presidida pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), com participação dos senadores Jaime Bagattoli (PL-RO), que liderou a diligência, e Marcos Rogério (PL-RO), autor do requerimento, a comitiva – que incluiu representantes da Funai, Incra, Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Ministério dos Povos Indígenas, Secretaria de Estado da Agricultura de Rondônia e Defensoria Pública da União (DPU) – ouviu agricultores sobre expulsões injustas de terras tituladas há décadas, na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau.

A agenda começou com reunião no distrito de Terra Boa (linha 106, km 10), seguida de visitas a propriedades afetadas por operações de desintrusão, e prosseguiu no distrito de Jaru-Uaru, onde famílias relataram destruição de bens como barracões, currais e maquinários, apesar de títulos reconhecidos pelo Incra e ocupação há mais de 40 anos.

As violações apontadas incluem destruição arbitrária de patrimônio e ameaças de novas expulsões sem devido processo, decorrentes de sobreposições territoriais entre a reserva indígena homologada em 1991 e projetos de assentamento do Incra dos anos 1970 – erro admitido por Funai e Incra, agravado pela Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709, determinada pelo ministro do STF Luís Roberto Barroso. “A coisa mais injusta que pode acontecer com um produtor é ele ter o documento da terra e, ainda assim, ter que presenciar a destruição dos seus bens, como barracões, curral e maquinários. A maioria aqui são pequenos produtores que vivem aqui há mais de 40 anos com reconhecimento do próprio Incra. É uma injustiça que não pode mais continuar acontecendo”, afirmou o senador Jaime Bagattoli.

Definido na diligência, a CDH elaborará um relatório com recomendações urgentes aos órgãos competentes para suspender novas operações de desintrusão até revisão dos títulos fundiários e providências em favor das famílias afetadas; o senador Marcos Rogério anunciou que levará as provas ao plenário do Senado para cobrar ações da ministra dos Povos Indígenas e da presidência da Funai.

Linha do tempo dos conflitos agrários em Rondônia – Do massacre de Corumbiara até novembro de 2025

1995 – Massacre de Corumbiara

Na madrugada de 9 de agosto, cerca de 600 famílias sem-terra que ocupavam a Fazenda Santa Elina, em Corumbiara, foram atacadas por policiais militares e pistoleiros. O confronto deixou oficialmente 11 mortos (9 sem-terra, 1 policial e 1 menina de 7 anos), mais de 350 feridos e dezenas de desaparecidos. O caso chocou o Brasil, levou à intervenção federal no estado e é considerado o marco zero da violência agrária contemporânea em Rondônia.

1999 – Surgimento da Liga dos Camponeses Pobres (LCP)

A LCP é fundada em Rondônia como um movimento radical de luta pela terra. A partir daí, ocupações armadas em latifúndios e glebas públicas se intensificam, especialmente no Cone Sul (Machadinho, Corumbiara, Chupinguaia) e na região de Porto Velho.

2003 – Recorde de despejos e prisões

Rondônia vive um dos anos mais violentos desde Corumbiara. A Comissão Pastoral da Terra registra dezenas de ordens judiciais de reintegração de posse, prisões em massa e 30 das 59 tentativas de assassinato ocorridas no Norte do país naquele ano.

2009–2014 – “Guerra fria” nas glebas públicas

Período de ocupações constantes, mas com menos mortes diretas. Acampamentos como União Bandeirantes (Porto Velho) e áreas em Ariquemes e Jaru crescem. A grilagem de terras públicas via CAR fraudulento se consolida, enquanto o Incra praticamente paralisa a titulação.

2015–2016 – Nova onda de assassinatos

Rondônia volta ao topo do ranking nacional de violência no campo. Entre 2015 e 2016 são registrados 37 assassinatos relacionados a conflitos agrários. Líderes sem-terra são executados em Nova Mutum Paraná, Vilhena e Buritis. Em 2016, o estado concentra 21 dos 61 homicídios do Brasil por disputa de terra.

2017–2021 – Massacres na Amazônia e pandemia

Quatro grandes massacres ocorrem na região amazônica nesse período, com Rondônia diretamente envolvida em vários episódios. A pandemia agrava a situação nos acampamentos, sem assistência do poder público. Em 2020, o Brasil registra 1.042 conflitos agrários; Rondônia responde por uma parcela significativa da violência na Amazônia Legal.

2022 – Conflitos se misturam com disputas indígenas

Sobreposições entre assentamentos antigos do Incra e terras indígenas (especialmente Uru-Eu-Wau-Wau e Karipuna) geram novas expulsões e ameaças. Fazendeiros e posseiros com títulos de décadas são retirados à força por operações da Funai e Ibama.

2023 – Rondônia lidera assassinatos no país

O estado registra o maior número de mortes por conflitos de terra do Brasil (cerca de 16% dos 31 assassinatos nacionais). Fazendas do grupo Di Genio, em Machadinho do Oeste, tornam-se palco de confrontos constantes entre sem-terra e seguranças privados.

2024 – Recorde de famílias atingidas

São 123 conflitos documentados, afetando quase 9.400 famílias. Ocorrem três grandes ocupações simultâneas em Nova Brasilândia d’Oeste, Porto Velho e Vilhena. A CPT aponta o crescimento de milícias rurais e a completa paralisia do Incra como fatores centrais.

2025 (até novembro) – Escalada sem precedentes

Trinta anos após Corumbiara, o ciclo permanece: grilagem, ocupação, judicialização lenta, despejo violento e vingança.

A diferença é que hoje os dois lados estão mais armados e a regularização fundiária continua praticamente parada – 42% das glebas públicas federais ainda sem georreferenciamento definitivo.

O que você acha dessa escalada de violência no campo rondoniense? Compartilhe sua opinião nos comentários abaixo e ajude a amplificar essa discussão – marque amigos e reposte para pressionar por mudanças reais na regularização fundiária. Juntos, podemos cobrar ação do poder público!

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