Marabraz: a disputa da família Fares por trás da recuperação judicial
A varejista pediu recuperação judicial com R$ 140 milhões em dívidas e aponta uma antiga disputa familiar como um dos fatores da crise — briga que o TJSP, porém, já decidiu em setembro de 2025
📋 Em resumo ▾
- A Marabraz entrou com pedido de recuperação judicial em agosto de 2026, com dívida de cerca de R$ 140 milhões.
- No pedido, os controladores da varejista atribuem parte da crise a uma disputa societária e familiar que teria dificultado o acesso a garantias e a crédito.
- Essa disputa gira em torno da LP Administradora de Bens, holding que detém imóveis da família Fares, alugados à varejista.
- Ponto central e frequentemente omitido: o TJSP já julgou o mérito dessa disputa, em setembro de 2025, e manteve os netos do fundador no controle da holding, rejeitando a tese de que a transferência das cotas teria sido simulada.
- Por que isso importa: a crise da Marabraz é real, mas a controvérsia societária que a acompanha não está mais em aberto no ponto principal — e tratá-la como pendente distorce o cenário
A rede de móveis Marabraz pediu recuperação judicial em agosto de 2026, com dívidas estimadas em R$ 140 milhões, e apontou, no processo, uma antiga disputa familiar e societária como um dos fatores que agravaram sua dificuldade de acesso a crédito. A controvérsia envolve a LP Administradora de Bens, holding que administra imóveis da família Fares — e cujo controle, ao contrário do que se poderia supor, já foi definido pela Justiça em setembro de 2025.
O que a Marabraz alega no pedido de recuperação judicial
Segundo o pedido apresentado à Justiça, os atuais controladores da varejista — os irmãos Nasser e Jamel Fares, filhos do fundador — afirmam que bancos passaram a exigir novas garantias depois que a empresa deixou de ter acesso aos imóveis administrados pela LP. O cenário, segundo eles, resultou em redução de limites, aumento de custos financeiros e dificuldade para renovar linhas de capital de giro.
A varejista atribui a crise a uma combinação de juros elevados e dos conflitos societários e familiares que teriam comprometido o uso de ativos como garantia. É uma alegação da própria empresa no processo — e é sob essa ótica que a disputa familiar ganha relevância pública, por se conectar, no dizer dos controladores, à recuperação judicial.
A origem do conflito: a holding LP e a transferência de 2011
O núcleo da disputa é a LP Administradora de Bens, holding que concentra imóveis da família e os aluga à Marabraz. Em 2011, as participações na holding foram transferidas, por cessão de quotas, aos descendentes — entre eles Abdul Fares e o primo Nader Fares, que passaram a administrá-la.
Anos depois, integrantes da geração mais velha foram à Justiça para tentar retomar o controle da holding e anular aquela transferência, sustentando que teria sido uma "operação simulada" para blindar o patrimônio diante de eventuais dívidas da varejista. Os netos, por sua vez, defenderam que a cessão foi legítima.
O que o TJSP já decidiu — e o que rejeitou
Aqui está o ponto que muda a leitura de todo o caso, e que precisa ser dito com precisão. Em setembro de 2025, no julgamento da Apelação Cível nº 1003649-15.2024.8.26.0260, cinco desembargadores do TJSP decidiram, por unanimidade, manter os netos do fundador no comando da LP.
Ou seja: a tese da transferência simulada não prevaleceu. O tribunal afastou a pretensão de anular a cessão e reconheceu a validade do negócio firmado em 2011. Como registraram as decisões, os autores não poderiam anular a transferência com base na alegação de que teria sido manobra para afastar credores.
É igualmente importante situar duas expressões que circularam no noticiário. As referências a "retiradas anuais milionárias" e a um padrão de "vida de luxo" dos herdeiros não são conclusões do Judiciário: são alegações formuladas pelos autores — a geração mais velha — no contexto daquela disputa, e que não foram acolhidas para alterar a validade do negócio societário. Tratá-las como fatos reconhecidos seria inverter o resultado do processo.
Os dois lados
De um lado, os controladores da Marabraz (Nasser e Jamel Fares) sustentam que a transferência das cotas teria sido simulada para proteger o patrimônio — tese rejeitada pelo TJSP — e, no pedido de recuperação judicial, relacionam a perda de acesso aos imóveis da família às dificuldades de crédito da varejista.
De outro, a LP Administradora de Bens afirma ser empresa autônoma, com administração, sócios, patrimônio e responsabilidades próprios, sob controle societário distinto desde 2011, e contesta a tentativa de vincular sua situação patrimonial à recuperação judicial da Marabraz. Para a holding, a varejista e a administradora são pessoas jurídicas distintas.
A crise da Marabraz é concreta: R$ 140 milhões em dívidas e um pedido de recuperação judicial em curso. A disputa familiar que a acompanha, porém, tem um capítulo central já encerrado — o TJSP validou, por unanimidade, a estrutura societária da holding e rejeitou a alegação de simulação. O que resta em aberto não é quem controla os imóveis da família, mas se a varejista conseguirá reorganizar suas dívidas e sobreviver. Confundir os dois planos — a briga societária já decidida e a recuperação judicial ainda em andamento — é o atalho mais fácil para contar a história errada.
Versão em áudio disponível no topo do post.