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Música armorial: livro inédito resgata origens do movimento de Suassuna

Carlos Eduardo Amaral lança ensaio que mapeia repertório da Orquestra Armorial e do Quinteto Armorial, analisa o conflito entre Suassuna e Cussy de Almeida e constitui o primeiro inventário catalográfico da música armorial

Música armorial: livro inédito resgata origens do movimento de Suassuna
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Carlos Eduardo Amaral lança "À guisa de arcadas de rabeca e ponteados de viola", primeiro ensaio dedicado exclusivamente à música armorial, em 15 de agosto de 2026
  • A obra mapeia o repertório da Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco e do Quinteto Armorial, formados nos anos 1970 sob a orientação de Ariano Suassuna
  • O livro analisa o conflito estético entre Suassuna e o maestro Cussy de Almeida sobre o uso de instrumentos populares — divergência que levou à criação do Quinteto Armorial
  • A pesquisa parte dos antecedentes do Manifesto Regionalista de 1926 (Gilberto Freyre) e do "Ensaio sobre a música brasileira" (Mário de Andrade, 1928)
  • Por que isso importa: apesar da influência do movimento na cultura nordestina, quase não existem livros sobre a música armorial; a obra preenche uma lacuna bibliográfica e oferece instrumento de pesquisa para músicos e estudiosos
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No próximo sábado, 15 de agosto de 2026, às 15h, a Academia Pernambucana de Letras recebe o lançamento de "À guisa de arcadas de rabeca e ponteados de viola: ensaio sobre a música armorial", do jornalista e crítico musical Carlos Eduardo Amaral. O evento, com entrada gratuita, contará com a distribuição de 200 exemplares ao público, mediante reserva pelo perfil @musicaarmorial no Instagram. A obra, produzida com incentivo do Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura), empreende uma análise estética e crítica a partir do repertório estabelecido pela Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco e pelo Quinteto Armorial nos anos 1970.

Como o movimento nasceu — e por que a música quase sumiu da bibliografia

O Movimento Armorial foi lançado oficialmente em 18 de setembro de 1970, em concerto na Igreja de São Pedro dos Clérigos, no centro do Recife. Na ocasião, o escritor e teatrólogo Ariano Suassuna — mentor do movimento — definiu os diversos campos da arte armorial, que englobavam música, artes plásticas, gravura, literatura e, posteriormente, dança.

A música ocupava lugar central desde o início. O concerto de lançamento foi realizado pela Orquestra de Câmara Armorial, com obras de compositores como Capiba, César Guerra-Peixe, Jarbas Maciel, Clóvis Pereira e Cussy de Almeida. A ambição era criar uma arte erudita autenticamente brasileira a partir das raízes populares do Nordeste — uma síntese entre o barroco ibérico e a cultura sertaneja.

Para Amaral, porém, há uma lacuna injustificável: embora o repertório armorial seja tocado até hoje com certa regularidade em Pernambuco, quase não existem livros que abordem a música armorial. "Após eu ter concluído a primeira versão do ensaio, tive de escrever um e-book introdutório e traduzi-lo para o inglês e o espanhol", observa o autor. Uma bibliografia de artigos, teses e dissertações digna de menção surgiu ao longo deste século e lhe serviu de subsídio, mas a ausência de uma obra de referência permanece.

O conflito que dividiu a música armorial em duas vertentes

Um dos méritos do ensaio de Amaral é trazer à tona o conflito estético que dividiu os músicos armoriais logo no início do movimento. A Orquestra Armorial de Câmara, idealizada pelo maestro Cussy de Almeida, adotava uma formação de cordas que excluía instrumentos populares como a rabeca e o pífano, optando pelo violino e pela viola para representar as rabecas. A sonoridade era marcadamente barroca e menos intimista.

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Ariano Suassuna discordava publicamente. Para o escritor paraibano, o movimento deveria incorporar os instrumentos populares na sua aspereza original — a rabeca, o pífano, a viola sertaneja. "Pessoalmente, eu achava, como ainda acho, que se poderia tirar excelente partido da aspereza do som da rabeca ou do pífano", escreveu Suassuna em 1974.

A discordância pública entre Suassuna e Cussy de Almeida levou o escritor a arregimentar músicos mais jovens e a formatar o Quinteto Armorial, que estreou em 26 de novembro de 1971, na Igreja do Rosário dos Pretos, no Recife. Com a formação de Antônio José Madureira (viola sertaneja), Edilson Eulálio (violão), Antônio Carlos Nóbrega de Almeida (violino/rabeca), Fernando Torres Barbosa (flauta/marimbau) e Egildo Vieira (pífano), o grupo finalmente atendeu aos anseios estéticos de Suassuna.

"A ideia inicial minha, do Suassuna, do Clóvis Pereira, do Guerra Peixe, era a utilização de certos instrumentos mais característicos da cultura popular, como a rabeca, através de instrumentos clássicos da cultura europeia. Até hoje, nenhum luthier conseguiu explicar por que duas rabecas populares, feitas da mesma madeira, nunca têm o mesmo som e a mesma tonalidade."

— Cussy de Almeida, em entrevista de 1972

De Freyre a Guerra-Peixe: os antecedentes que o livro recupera

O ensaio de Amaral não se limita aos anos 1970. O autor traça os antecedentes conceituais do Movimento Armorial até duas obras fundadoras: o "Manifesto Regionalista de 1926", de Gilberto Freyre, e o "Ensaio sobre a música brasileira", publicado por Mário de Andrade em 1928. São esses textos que estabelecem a base intelectual para a busca de uma arte nacional que funda o erudito no popular — a mesma busca que Suassuna radicalizou meio século depois.

A influência do compositor fluminense César Guerra-Peixe é outro eixo do livro. Guerra-Peixe residiu no Recife entre 1949 e 1952 e teve suas convicções musicais radicalmente modificadas pelo contato com a cultura popular nordestina. Ele foi professor de Clóvis Pereira e de Jarbas Maciel — dois dos pilares da música armorial — e sua obra, como o Concertino para violino e orquestra de câmara, tornou-se referência para o movimento.

O primeiro inventário catalográfico da música armorial

A contribuição mais original do livro de Amaral pode estar no seu terceiro movimento: a constituição de um inventário catalográfico das obras armoriais, algo nunca empreendido até então. O autor oferece uma "considerável lista de obras" que visa mapear o repertório desde os primeiros trabalhos dos anos 1970 até composições contemporâneas que dialogam com a estética armorial.

Essa virada do século — quando ocorre uma "verdadeira transformação conceitual" — põe em dúvida se os parâmetros musicais armoriais estariam se ampliando ou sendo utilizados dentro de outras matrizes. Compositores e grupos instrumentais posteriores ora buscaram se apoiar, ora se distanciar, ora conciliar os paradigmas da Orquestra e do Quinteto, oferecendo contribuições singulares.

"Embora muito associado à construção de imaginário despertada pelas idealizações de Ariano Suassuna, o Movimento Armorial agregou ou influenciou não poucos artistas, boa parte deles ainda em atividade."

— Carlos Eduardo Amaral

Quem é Carlos Eduardo Amaral

Carlos Eduardo Amaral é jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pesquisador, crítico musical, escritor, compositor e arranjador. Colabora com a revista Continente desde julho de 2006 e atualmente coordena o projeto Música na APL, na Academia Pernambucana de Letras. Foi agraciado com a Medalha Biblioteca Nacional — Ordem do Mérito do Livro em 2022, pelas contribuições à cultura brasileira.

Como pesquisador, teve trabalhos premiados pela Funarte, pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Joaquim Nabuco. Como compositor, tem mais de 30 obras escritas para orquestra sinfônica e formações de câmara. Como escritor, publicou pela Cepe Editora as biografias dos compositores Clóvis Pereira, Maestro Formiga, Maestro Duda, Getúlio Cavalcanti e Jota Michiles. Recentemente lançou "SaGrama: um álbum por escrito", livro comemorativo dos 30 anos de trajetória do grupo.

Contracapa do livroContracapa do livro

O legado que o livro tenta salvar

O Movimento Armorial completou 55 anos em 2025. Apesar da influência duradoura — que se estende da música às artes plásticas, da literatura ao teatro —, a música armorial permanece relativamente invisível fora de Pernambuco. O ensaio de Amaral não é apenas um ato de memória: é uma ferramenta de pesquisa para músicos, musicólogos e estudiosos que precisam de um ponto de partida para estudar um dos movimentos artísticos mais originais do Brasil.

A pergunta que o livro deixa no ar é se a estética armorial ainda vive como tradição viva — ou se já se transformou em patrimônio museológico. Se compositores contemporâneos ainda conseguem fazer música que soa "armorial" sem soar retrógrada, o movimento de Suassuna terá provado que uma arte fundada nas raízes populares pode, de fato, transcender seu tempo. Se não, Amaral terá pelo menos garantido que essa música não se perca no silêncio dos arquivos.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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