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Naskar fintech: nova versão aponta saques indevidos de R$ 67 milhões

Após duas semanas de silêncio, Naskar abandona versão de "perda de dados" e culpa investidores por saques extras. Entenda as contradições, o rombo e os próximos passos da investigação

Naskar fintech: nova versão aponta saques indevidos de R$ 67 milhões
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Naskar muda narrativa: de "perda de dados" para supostos saques indevidos de R$ 67 milhões por investidores
  • Estimativas judiciais apontam rombo entre R$ 850 milhões e R$ 1 bilhão; empresa contesta com valor inferior a R$ 400 milhões
  • Alterações societárias nos 60 dias anteriores ao colapso incluem retirada de CNAEs financeiros e abertura de duas novas empresas
  • Polícia Civil do DF apura o caso; quatro tutelas cautelares foram distribuídas em três tribunais distintos
  • Por que isso importa: o caso expõe lacunas regulatórias na fiscalização de fintechs e riscos para investidores em operações sem registro no Bacen ou CVM.
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Após duas semanas de silêncio absoluto, a Naskar Gestão de Ativos (fintech de gestão de recursos) respondeu pela primeira vez a questionamentos jornalísticos e abandonou a versão inicial de "perda na base de dados". Agora, a empresa atribui a paralisação dos pagamentos a uma auditoria interna que identificou saques supostamente indevidos por parte de investidores. O caso, investigado pela Polícia Civil do Distrito Federal, envolve cerca de 3.000 clientes e valores que podem ultrapassar R$ 1 bilhão.

A nova narrativa da Naskar e o que muda na investigação

Na tarde do sábado (17), a fintech respondeu a 16 perguntas enviadas por veículo de imprensa nacional. Nas respostas assinadas pela empresa, a Naskar apresenta uma mudança substancial de discurso: o problema não teria sido uma falha técnica, mas inconsistências nos saques realizados por clientes.

"Uma auditoria interna identificou que clientes sacaram aproximadamente R$ 67 milhões além do que tinham direito, incluindo investidores que já haviam quitado suas posições", afirmou a empresa, sem apresentar documentação complementar.

A Naskar não detalhou o período em que os supostos saques ocorreram, o mecanismo utilizado, quem conduz a auditoria ou se há previsão de representação criminal. Quando questionada sobre esses pontos, limitou-se a informar que "não responderia".

A mudança de narrativa ocorre em um contexto de pressão jurídica crescente. Desde o dia 4 de maio, quando deixou de honrar os rendimentos contratados, a empresa não emitiu comunicados oficiais além de uma nota inicial sobre "perda de dados", enviada em 7 de maio e jamais complementada.

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Rombo: estimativas judiciais versus versão da empresa

Há uma divergência significativa entre os números apresentados pela Naskar e as estimativas que circulam em ações judiciais e na imprensa. Enquanto a empresa afirma que a auditoria interna aponta valor inferior a R$ 400 milhões — ressalvando que "os números ainda não se encontram totalmente fechados" —, processos em tramitação e reportagens indicam um montante entre R$ 850 milhões e R$ 1 bilhão.

A Naskar operava mediante contrato de mútuo, prometendo rendimento mensal fixo entre 1,5% e 2%, equivalente a até 175% do CDI. A empresa não possuía registro no Banco Central nem na Comissão de Valores Mobiliários para captação de recursos junto ao público.

"A retirada de CNAEs financeiros do objeto social não afasta a caracterização de captação irregular de recursos", afirma Vinícius Barboza (doutor em Direito pela USP e sócio do BMS Advocacia), lembrando que a responsabilidade criminal dos controladores "remanescerá e deverá ser apurada em investigação policial".

Cronologia do desmonte societário antes do colapso

Registros públicos revelam uma sequência de alterações societárias nos 60 dias anteriores ao colapso público da Naskar. Em 17 de março, a empresa mudou a razão social de Naskar Instituição de Pagamento para Naskar Gestão de Ativos. Em 7 de abril, uma empresa do grupo retirou CNAEs financeiros de seu objeto social. Em 14 de abril, foi a vez da própria Naskar fazer o mesmo movimento.

No dia 7 de maio — mesma data em que a empresa enviou a nota sobre "perda de dados" —, dois dos três controladores constituíram novas empresas: Voga Apoio Administrativos Ltda e Spy Apoio Administrativos Ltda, ambas com capital social de R$ 10.000,00.

Questionada sobre essas alterações, a Naskar afirmou que decorreram de "reorganizações societárias e administrativas" e que a abertura de Voga e Spy ocorreu "em função da possível venda do grupo", com o objetivo de atuar como consultores após a transação.

Estrutura operacional: 7Trust, CelCoin e a questão da custódia

Outro ponto nevrálgico diz respeito ao paradeiro dos recursos dos investidores. A Naskar afirmou que os valores "estão em uma corretora de valores, custodiados em ações", sem identificar qual corretora nem apresentar extratos ou comprovantes.

Essa versão contrasta com a estrutura operacional documentada publicamente: toda a captação de clientes era processada pela 7Trust Finance Instituição de Pagamento S.A., com custódia realizada pela CelCoin Instituição de Pagamento S.A. Sobre a 7Trust, a Naskar limitou-se a afirmar que a instituição "estava tramitando as licenças necessárias junto ao Banco Central".

O Banco Central, em comunicado de março de 2026, reconheceu três controladores finais da estrutura que inclui Naskar, 7Trust e Next Holding.

A Carta de Circularização e seus riscos jurídicos

No sábado (9) de maio, a Naskar enviou uma Carta de Circularização solicitando seis documentos pessoais a cada cliente, com prazo de dez dias para envio. O documento incluía cláusula expressa de não reconhecimento automático de saldo, novação ou quitação.

Nas respostas à imprensa, a empresa confirmou que a cláusula foi inserida "justamente por causa dos supostos saques indevidos". Para o advogado Vinícius Barboza, o documento configura um mecanismo de gestão processual: investidores que enviarem os documentos sem as devidas cautelas correm o risco de experimentar prejuízos adicionais à sua posição jurídica.

"A confusão patrimonial ou o desvio de finalidade da empresa podem originar a responsabilização dos sócios", pondera Barboza, lembrando que qualquer medida depende de intervenção do Poder Judiciário.

Hagar confirmada; Daytona negada; Azara em análise

A Naskar confirmou vínculo com a Hagar Gestão Financeira, que opera fisicamente na antiga sede da empresa na Vila Olímpia, em São Paulo. Segundo a resposta enviada à reportagem, a Hagar "representa comercialmente a Naskar" e se instalou no endereço "em função de políticas de planejamento comercial".

Já sobre a Family Office Daytona — empresa registrada com e-mail pessoal de um dos controladores, mas tendo como sócia formal terceira pessoa —, a Naskar afirmou que a sociedade "não possui nenhum vínculo com o Grupo Naskar".

Quanto ao anúncio de aquisição por uma gestora apresentada como norte-americana, a Naskar não detalhou a transação. Especialistas ouvidos pela reportagem ponderam que anúncios desse tipo, sem documentação verificável, podem funcionar como instrumento para amenizar efeitos de ações judiciais e inibir novos processos.

O que esperar dos próximos capítulos

A Polícia Civil do Distrito Federal mantém apuração formal sobre o caso. Até o fechamento desta reportagem, os três controladores da Naskar permaneciam incomunicáveis, o aplicativo inacessível e as empresas do grupo sem manifestação oficial substantiva além das respostas pontuais à imprensa.

Enquanto a auditoria interna da Naskar segue sem prazo definido para conclusão, investidores aguardam definições que podem levar meses — ou anos — no Judiciário. A pergunta que permanece: em um mercado de fintechs em expansão, como equilibrar inovação, atratividade de retornos e proteção ao investidor quando a regulação não acompanha a velocidade dos modelos de negócio?


Versão em áudio disponível no topo do post.

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