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Notas fiscais de Flávio Bolsonaro ligam escritório a empresas do Banco Master

Emissão e cancelamento de notas de R$ 1 milhão expõem vínculos com contador investigado e empresa que recebeu R$ 58 milhões do grupo Vorcaro

Notas fiscais de Flávio Bolsonaro ligam escritório a empresas do Banco Master
📷 Cristiano Mariz/Agência O Globo
📋 Em resumo
  • Escritório de Flávio Bolsonaro emitiu e cancelou notas de R$ 1 milhão para empresas ligadas a Daniel Vorcaro.
  • Copenhagen Consultoria, sem sede própria, recebeu R$ 58 milhões do Banco Master e é gerida por contador com histórico na PF.
  • Presidenciável nega recebimento de valores e acusa vazamento de dados fiscais por motivos eleitorais.
  • Por que isso importa: A contradição entre a negação formal e o rastro documental amplia o escrutínio sobre a blindagem financeira de figuras políticas
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O escritório de advocacia do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) emitiu e cancelou notas fiscais no valor total de R$ 1 milhão em favor de empresas ligadas a Daniel Vorcaro, do Banco Master. A movimentação, ocorrida em abril de 2025, amplia o escrutínio sobre as conexões financeiras do parlamentar com o grupo investigado por ocultação de patrimônio.

O rastro das notas e a teia societária

Em 7 de abril de 2025, o escritório, que tem Flávio Bolsonaro como único sócio, emitiu duas notas de R$ 500 mil cada para a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A. Ambas foram canceladas na mesma data. Dois dias depois, em 9 de abril, uma terceira nota, também de R$ 500 mil, foi faturada em favor da Contábil Correa. Neste caso, não há registro de cancelamento.

As duas firmas compartilham um elo central: o contador Rogério Lourenço Novo. Ele figura na Receita Federal como único diretor da Copenhagen e único sócio da Contábil Correa.

A Copenhagen apresenta características atípicas para uma empresa que movimentou volumes expressivos. Criada em novembro de 2024 com capital social de apenas R$ 40, a empresa não possui sede própria nem site. Seu endereço registrado é o da Contábil Correa, em um prédio comercial em São Caetano do Sul.

Apesar da estrutura mínima, a Copenhagen se tornou uma das dez empresas que mais receberam recursos do Master. Daniel Vorcaro depositou R$ 58 milhões na conta da consultoria, sendo R$ 11,2 milhões injetados logo após a abertura do CNPJ.

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"A Copenhagen se tornou uma das 10 empresas que mais receberam dinheiro do Master, totalizando R$ 58 milhões, apesar de ter capital social de apenas R$ 40."

No papel, a empresa pertence ao fundo de investimentos Estônia, administrado pela Trustee DTVM. A gestora é investigada pela Polícia Federal (PF) por supostamente movimentar e ocultar patrimônio do grupo de Vorcaro.

A defesa do presidenciável e a acusação de vazamento

Diante das revelações, a assessoria de Flávio Bolsonaro emitiu nota negando qualquer vínculo com o Banco Master. O presidenciável afirma que firmou contrato com a BR Global (nome fantasia da Contábil Correa) e que foi apenas consultado sobre prestar serviços à Copenhagen.

Segundo a nota, a contratação não avançou e o escritório não recebeu qualquer valor, razão pela qual as notas foram canceladas. "Ou seja, estou sendo ‘acusado’ de NÃO receber alguma coisa", argumenta o texto.

Flávio Bolsonaro também acusa órgãos governamentais de vazar dados protegidos por sigilo fiscal com fins eleitoreiros, prometendo medidas judiciais nas esferas cível e criminal contra os responsáveis.

Rogério Lourenço Novo, diretor da CopenhagenRogério Lourenço Novo, diretor da Copenhagen

A contradição do "não lembro"

A narrativa de que os serviços não foram prestados colide com a versão do próprio contador Rogério Lourenço Novo. Em declarações ao portal Metrópoles, que revelou o episódio, ele admitiu ser o dono da Copenhagen desde setembro de 2025.

Rogério afirmou ter contratado o escritório de Flávio Bolsonaro para prestar serviços de "quarteirização" aos clientes de sua contabilidade. No entanto, quando questionado sobre quais clientes específicos receberam esses serviços, o contador alegou ter mais de 200 clientes e não se lembrar "nem para quem nem o que foi feito".

Vale registrar que Rogério Lourenço Novo já foi investigado pela Polícia Federal por supostamente operar um esquema de notas fiscais falsas de empresas de fachada para evadir impostos entre 2013 e 2015, com fraude estimada em mais de R$ 100 milhões.

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O peso da simulação documental

A emissão de notas fiscais para empresas sem estrutura operacional, seguida de cancelamento seletivo, é um padrão frequentemente observado em investigações de simulação de serviços. O fato de a terceira nota, emitida para a Contábil Correa, não ter sido cancelada, mantém a porta aberta para questionamentos sobre a efetiva prestação de serviços e a origem dos recursos.

A defesa de Flávio Bolsonaro tenta inverter a lógica da investigação, focando na acusação de vazamento de dados fiscais. No entanto, o cerne da questão documental permanece: por que um escritório de advocacia emite notas milionárias para empresas de fachada ligadas a um grupo sob investigação federal?

Resta saber se as explicações baseadas no esquecimento seletivo de um contador com histórico na PF serão suficientes para dissipar as dúvidas levantadas pelo rastro financeiro. A política pode se alimentar de narrativas, mas a contabilidade, eventualmente, exige fatos.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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