Eleições 2026

Novo repasse de Vorcaro ao Dark Horse contraria versão de Flávio Bolsonaro

Relatório do Coaf mostra envio de US$ 1,6 milhão em setembro de 2025, quatro meses após a data em que o senador dizia ter encerrado a relação financeira com o banqueiro.

Novo repasse de Vorcaro ao Dark Horse contraria versão de Flávio Bolsonaro
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Coaf identificou repasse de US$ 1,6 milhão (R$ 8,5 milhões à época) feito por Daniel Vorcaro ao fundo Havengate Development em 16 de setembro de 2025.
  • Flávio Bolsonaro havia dito que o último pagamento de Vorcaro ao filme ocorrera em maio de 2025; o novo dado, revelado pela Piauí, contradiz essa versão.
  • Com a transferência, o total pago por Vorcaro à produção sobe de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 65 milhões).
  • O repasse ocorreu oito dias depois de o senador cobrar do banqueiro parcelas atrasadas, e já com as suspeitas sobre o Banco Master em evidência.
  • Por que isso importa: o caso alimenta a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro às vésperas da eleição de 2026 e reforça dúvidas sobre a origem e o destino de recursos ligados a um fundo americano controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
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Um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) revelou que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro enviou US$ 1,6 milhão — cerca de R$ 8,5 milhões na cotação da época — ao fundo Havengate Development Fund em 16 de setembro de 2025. O documento, obtido pela revista Piauí e divulgado nesta terça-feira (1º), contradiz a versão do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, de que o financiamento do filme "Dark Horse" já estava totalmente esclarecido.

Segundo a reportagem, em entrevista, o candidato à Presidência havia dito que o último pagamento feito por Vorcaro ao filme tinha sido realizado em maio de 2025. O novo dado do Coaf mostra o contrário: um relatório do órgão registra um novo envio de US$ 1,66 milhão feito pelo banqueiro em setembro do mesmo ano — quatro meses depois da data indicada pelo senador.

Cobrança de parcelas atrasadas antecedeu o repasse

O momento da transferência chama atenção dos investigadores. O repasse foi feito 8 dias depois de o senador Flávio Bolsonaro cobrar do fundador do Master pagamentos atrasados. Ou seja, o dinheiro saiu do banqueiro logo após pressão direta do parlamentar — mesmo com o Banco Master já sob escrutínio público.

Reforçando esse ponto, outra reportagem observa que o repasse foi feito ao Havengate Development Fund em 16 de setembro de 2025, quando já eram conhecidas as suspeitas sobre o Master —menos de duas semanas antes, o Banco Central havia negado a venda da instituição financeira para o BRB. O calendário é relevante: a instituição estava no epicentro de uma crise que terminaria em liquidação extrajudicial dois meses depois, em novembro de 2025.

Mensagens revelam pressão por novas parcelas

A Piauí teve acesso a uma troca de mensagens que sugere que o fluxo de recursos para o filme não havia se encerrado em maio, como alegou o senador. A revista teve acesso a uma troca de mensagens entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que ajudou a captar recursos para o filme. Na conversa de 22 de outubro de 2025, Miranda diz: "Consegue liberar as parcelas do filme?"

"Consegue liberar as parcelas do filme?" — publicitário Thiago Miranda a Daniel Vorcaro, em mensagem de 22 de outubro de 2025.

Segundo apuração da Revista Fórum sobre a mesma troca de mensagens, a Piauí teve acesso a mensagens de WhatsApp trocadas em 22 de outubro de 2025 entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que ajudou na captação de recursos para o projeto. Na conversa, Miranda pergunta se Vorcaro conseguiria "liberar as parcelas do filme" e afirma que, caso contrário, "vai parar tudo por lá". Segundo o diálogo, Vorcaro responde: "Sim."

Total pago à produção já soma R$ 65 milhões

Com a transferência de setembro, o valor global movimentado para o filme voltou a subir. Com a transferência de setembro de 2025, o total repassado ao fundo teria passado de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões. Considerando valores atuais, o montante equivale a aproximadamente R$ 63,7 milhões. O pagamento de setembro, no entanto, foi de US$ 1,666 milhão, valor que correspondia a cerca de R$ 8,5 milhões na época da transferência.

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Outra apuração detalha a origem prévia dos valores: Flávio Bolsonaro teria negociado, no início de 2025, o pagamento de US$ 24 milhões (R$ 134 milhões) em 14 parcelas com Vorcaro. Entre fevereiro e maio daquele ano, haviam sido transferidos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões). Ou seja, o repasse de setembro representa a sétima parcela de um cronograma que previa 14 desembolsos — e as mensagens de outubro indicam que uma oitava estaria em negociação.

Rota do dinheiro passa por doleiro e fundo no Texas

O caminho percorrido pelos recursos até chegar aos Estados Unidos envolve intermediários que já apareciam em reportagens anteriores sobre o caso. De acordo com a Revista Fórum, segundo os documentos citados na apuração, o dinheiro não saía diretamente das empresas de Vorcaro nem chegava diretamente à Go Up Entertainment LLC, produtora oficial do filme nos Estados Unidos. O trajeto passava pelo doleiro Antonio Freixo Junior, conhecido como Mineiro, e seguia para o Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas e administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto.

O Havengate já havia sido tema de investigação do Intercept Brasil sobre sua origem. Documentos indicam que parte do dinheiro negociado com Vorcaro para o filme foi transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas do banqueiro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos EUA, e controlado por aliados de Eduardo. Documentos societários mostram que o fundo foi registrado no Texas e tem como agente legal o escritório "Law Offices of Paulo Calixto PLLC". Levantamento posterior do mesmo veículo mostrou que o fundo recebeu ao menos 10,6 milhões de dólares de empresas ligadas a Daniel Vorcaro para financiar o filme "Dark Horse", mas foi criado originalmente para vender a investidores, inclusive brasileiros, um projeto imobiliário no Texas que nunca saiu do papel, embora o fundo, mesmo sem objeto, tenha continuado a existir.

PF investiga uso dos recursos por Eduardo Bolsonaro

A Polícia Federal apura uma hipótese que pode ampliar o alcance político do caso. O fundo é ligado a Paulo Calixto, advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL). A PF apura se parte dos recursos foi utilizada para custear despesas de Eduardo durante sua permanência nos EUA. O ex-deputado negou ter recebido dinheiro de Vorcaro via fundo de investimento.

Questionada pela Piauí, a defesa do senador evitou o mérito. A revista procurou a assessoria de Flávio Bolsonaro, que disse que as perguntas deveriam ser feitas à produtora do filme — "Isso não é com a gente", afirmou. A produtora Go Up também foi questionada, mas não deu resposta objetiva. Segundo o senador, os valores foram usados "integralmente" no filme.

Contrato assinado após dinheiro já ter chegado ao fundo

Documentos periciais apresentados à Justiça paulista, revelados no fim de agosto, agravam a controvérsia sobre a cronologia dos repasses. O contrato entre o fundo Havengate, ligado a Eduardo Bolsonaro, e a produtora Go Up Entertainment para o filme "Dark Horse" foi assinado em 24 de fevereiro de 2025. Onze dias antes, em 13 de fevereiro de 2025, Daniel Vorcaro transferiu US$ 2 milhões da Entre Investimentos para o Havengate. A sequência indica que os recursos chegaram ao fundo antes de qualquer acordo formal com a produção — justamente o documento que a família Bolsonaro tentava usar como prova de regularidade da operação.

Escândalo já corrói popularidade do pré-candidato

O episódio Dark Horse deixou de ser só controvérsia sobre financiamento cultural e passou a pesar diretamente nas pesquisas eleitorais. Um levantamento Genial/Quaest mostrou que quando apresentados às informações sobre a busca de financiamento para o filme, 65% consideram que Flávio Bolsonaro errou ao solicitar apoio financeiro ao então banqueiro, e que 62% dos entrevistados têm dúvidas sobre a versão apresentada pelo senador e acreditam que ele poderia ter mais informações sobre o caso do que afirma publicamente.

Rodada mais recente do Datafolha aprofundou o sinal de alerta. O levantamento mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nove pontos à frente do senador, a maior vantagem registrada sobre o pré-candidato do PL desde o início do ano. A pesquisa também indicou que 36% dos entrevistados ainda não tomaram conhecimento do caso, o que significa que o potencial de desgaste político de Flávio Bolsonaro ainda pode crescer à medida que o episódio se torne mais conhecido pelo eleitorado.

Vorcaro segue preso na Operação Compliance Zero

O contexto em que os novos repasses foram feitos é o de uma crise bancária que já resultou em prisões e bloqueio bilionário de ativos. Vorcaro foi preso em 4 de março de 2026 pela Polícia Federal em São Paulo, na terceira fase da Operação Compliance Zero, que apura crimes como ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos atribuídos a uma organização criminosa que teria comercializado títulos de crédito falsos por meio do Banco Master. O STF autorizou o sequestro e bloqueio de bens que podem chegar a R$ 22 bilhões, e a segunda turma da Corte, por maioria, manteve a prisão preventiva de Vorcaro em votação de 13 de março.

A crise já havia levado à liquidação extrajudicial do banco em novembro de 2025, com o FGC acionado para ressarcir os investidores da instituição, no limite de R$ 250 mil por CPF. Novas fases da operação prenderam outros nomes ligados ao caso, incluindo o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, em 16 de abril, e o primo de Vorcaro, Felipe Cançado Vorcaro, em 7 de maio, apontado como peça central do núcleo financeiro-operacional investigado.

O novo dado do Coaf reabre a pergunta que já persegue a pré-campanha de Flávio Bolsonaro há meses: quanto dinheiro do banco liquidado ainda circula por trás de um filme sobre seu pai, e por que as versões oficiais sobre o fim desse fluxo seguem sendo desmentidas por documentos oficiais.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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