"Nunca desperdice uma boa crise": como a Cisco transformou a guerra em Gaza em oportunidade de negócio
Documentos internos obtidos por jornalistas americanos mostram que a Cisco Systems forneceu redes, sistemas de IA e infraestrutura de dados diretamente ao Ministério da Defesa de Israel — e tratou a guerra em Gaza como oportunidade comercial. Funcionários que questionaram os contratos foram demitidos
📋 Em resumo ▾
- — Documentos internos da Cisco revelam contratos crescentes com o Ministério da Defesa de Israel desde 2021
- — Receita militar quase dobrou entre 2023 e 2024: de US$ 52 mi para US$ 98 mi no primeiro semestre
- — Apresentação interna usou frase "nunca desperdice uma boa crise" para justificar expansão dos contratos
- — Funcionários que questionaram os contratos foram demitidos; debate foi proibido em reuniões corporativas
- — Por que isso importa: o caso expõe como empresas de tecnologia ocidentais integram — e lucram com — a infraestrutura de guerras modernas
A Cisco Systems, gigante americana de tecnologia de redes avaliada em mais de US$ 270 bilhões, forneceu infraestrutura crítica de comunicações, cibersegurança e inteligência artificial diretamente ao exército israelense durante a guerra em Gaza — e tratou a escalada do conflito como oportunidade de negócio. É o que revelam documentos internos vazados por whistleblowers ao site jornalístico americano Drop Site News e divulgados nesta semana.
A empresa que conecta o mundo — e os alvos de drone
A Cisco não fabrica armas. Fabrica algo potencialmente mais valioso em guerras modernas: a infraestrutura que faz tudo funcionar. Roteadores, switches, firewalls e plataformas de comunicação da empresa estão presentes em redes corporativas, governamentais e militares em dezenas de países.
Em 2025, um oficial anônimo da Força Aérea israelense — identificado como chefe do braço operacional da instituição — confirmou publicamente, em conferência de tecnologia em Israel, que a FAI realizou "dezenas de milhares de ataques" no último ano. E descreveu como operadores de drones e forças terrestres usaram ferramentas de rede da Cisco para armazenar vídeos, analisar dados e compartilhar coordenadas de ataques.
Não se trata de uso indireto ou acidental. Os próprios documentos internos da empresa descrevem os serviços prestados ao Ministério da Defesa de Israel (MOD) como tão essenciais para o exército quanto "aviões, tanques e qualquer outra ferramenta militar essencial".
Os números que o discurso de responsabilidade social não mostra
A receita da Cisco Israel com o MOD cresceu de forma acelerada após 7 de outubro de 2023. No primeiro semestre daquele ano, os contratos militares renderam US$ 52 milhões. No mesmo período de 2024, o valor havia quase dobrado: US$ 98 milhões.
No longo prazo, o crescimento é ainda mais expressivo: a receita total da Cisco em Israel saltou de US$ 122 milhões em 2015 para US$ 283 milhões em 2024. Em um detalhamento interno do ano de 2024, US$ 111 milhões foram classificados como "impacto do conflito" — ou seja, receita diretamente atribuída à guerra.
Uma apresentação estratégica da empresa listava dois grandes projetos em curso para o MOD: um contrato de computação com inteligência artificial avaliado em US$ 50 milhões e um acordo de rede óptica de US$ 15 milhões. O mesmo documento trazia, como título de slide, uma frase atribuída erroneamente a Winston Churchill: "Nunca desperdice uma boa crise."
"Nunca desperdice uma boa crise." Frase usada em apresentação interna da Cisco para justificar expansão de contratos com o exército israelense durante a guerra em Gaza.
Uma parceria construída ao longo de uma década
A relação entre a Cisco e o aparato de segurança israelense não começou com a guerra. Em 2013, a empresa venceu um contrato de US$ 150 milhões para fornecer tecnologia de comunicações ao exército. Em 2017, assinou um novo acordo de US$ 250 milhões para servidores do MOD — pago pelo governo americano por meio do programa de assistência militar Foreign Military Sales.
A empresa também ajudou a montar o data center militar conhecido como "Cidadela de Davi", voltado a expandir a capacidade de vigilância e processamento de dados de unidades de inteligência israelenses. A partir de 2018, passou a instalar "hubs digitais" em parceria com o governo israelense — alguns deles em assentamentos na Cisjordânia ocupada, segundo o centro de pesquisa Who Profits?.
Os clientes listados nos documentos vazados incluem a Força Aérea israelense, a Marinha, a unidade de sistemas de informação das Forças de Defesa de Israel (MAMRAM), o Mossad, o Shin Bet, o Serviço Prisional israelense (SHABAS) e a unidade de reconhecimento de elite Sayeret Maglan — além de bancos israelenses com operações na Cisjordânia.
O discurso humanitário e a realidade dos documentos
Após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, o CEO da Cisco, Chuck Robbins, enviou um e-mail corporativo destacando os "esforços humanitários" da empresa. Dias depois, em reunião interna, afirmou que a Cisco estava "trabalhando dia e noite para enviar tecnologia a Israel".
Os documentos internos mostram que a empresa agiu rapidamente para capitalizar o momento. Uma série de apresentações intituladas "Israel Iron Swords Update" — nome adotado pelo exército israelense para a campanha em Gaza — listava ações para reforçar o fornecimento de equipamentos ao país, com "prioridade para cibersegurança".
Outra apresentação detalhou um plano de expansão da plataforma Security Service Edge (SSE) em Israel, descrita explicitamente como resposta ao conflito.
Funcionários demitidos, debate proibido
A escalada dos contratos militares gerou dissidência interna. Funcionários que questionaram a relação da empresa com o exército israelense foram demitidos. Em março de 2025, um executivo comunicou em reunião geral que o conflito no Oriente Médio "não pode ser discutido, não pode ser debatido em reuniões da empresa".
O caso contrasta com o da Microsoft, que esta semana demitiu o diretor-geral de sua subsidiária israelense após investigação interna sobre o uso dos serviços Azure pelo MOD — incluindo vigilância em massa de palestinos. A Cisco, por sua vez, segue defendendo sua parceria com Israel.
"A Cisco fornece a espinha dorsal de rede da máquina de guerra com IA de Israel." Vicky Wyatt, diretora de campanha da organização de investidores éticos Ekō.
O que este caso revela sobre tecnologia e guerra
Para Noam Perry, coordenador de pesquisa estratégica do American Friends Service Committee, a Cisco "serve ao governo israelense e à sua economia de forma ampla" — não apenas ao aparato militar, mas a instituições ligadas às políticas de ocupação.
O caso Cisco é um espelho ampliado de um fenômeno crescente: a infraestrutura tecnológica civil tornou-se componente essencial das guerras do século XXI. Redes de dados, sistemas de IA e plataformas de comunicação não estão apenas nos bastidores — estão no centro das decisões sobre quem será alvo de um ataque.
A empresa não respondeu aos pedidos de comentário. Mas os documentos respondem por ela. A questão que fica — e que o setor de tecnologia ainda não enfrentou de forma adequada — é até onde vai a responsabilidade de quem fornece a infraestrutura quando essa infraestrutura é usada para matar.
Versão em áudio disponível no topo do post.