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Jair seria levado a Vorcaro após virar réu; Flávio confirma R$ 61 mi

Encontro seria articulado por Mário Frias e Flávio Bolsonaro um dia após o STF tornar Jair réu por golpe — enquanto o banqueiro, hoje preso, era cortejado para repassar R$ 134 milhões ao filme Dark Horse.

Jair seria levado a Vorcaro após virar réu; Flávio confirma R$ 61 mi
📷 Reprodução Intercept
📋 Em resumo
  • - Nova reportagem do Intercept revela que Jair Bolsonaro seria levado à mansão de Daniel Vorcaro em Brasília para "assistirem juntos" a um documentário — articulação ocorreu um dia após o STF torná-lo réu por tentativa de golpe
  • - O encontro era parte do esquema para selar o apoio de Vorcaro ao financiamento do filme "Dark Horse" — Flávio Bolsonaro e Mário Frias sabiam da articulação, segundo as mensagens
  • - Flávio confirmou à GloboNews ter negociado US$ 24 milhões com Vorcaro — US$ 10,6 milhões efetivamente transferidos a fundo no Texas gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro
  • - A Polícia Federal investiga se parte dos recursos custeou a permanência de Eduardo nos EUA, onde vive desde o início de 2025
  • - Por que isso importa: a sequência de revelações transforma o "caso do filme" numa investigação de múltiplas camadas — com um ex-presidente condenado, um banqueiro preso, um senador pré-candidato à Presidência e dinheiro viajando para o Texas
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Em 26 de março de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por unanimidade tornar réu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado em 2022. No dia seguinte, o publicitário Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias e intermediário central nesta história, enviou uma mensagem pelo WhatsApp ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master — sugerindo que o ex-presidente fosse à mansão de Vorcaro em Brasília para "assistirem juntos" a um documentário. A reunião era parte do plano para garantir o apoio financeiro de Vorcaro à produção do filme "Dark Horse", a cinebiografia internacional de Jair Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Mário Frias (PL-SP) sabiam do encontro. É o que revela nova reportagem do Intercept Brasil, publicada nesta quinta-feira (14).

O plano: mansão, documentário e o banqueiro que precisava ser seduzido

Segundo os registros obtidos pelo Intercept, Miranda sugeriu o encontro a Vorcaro por WhatsApp no dia 27 de março de 2025 — um dia após o STF decidir tornar Jair Bolsonaro réu pela trama golpista. A proposta era que o ex-presidente comparecesse pessoalmente à residência de Vorcaro para uma sessão privada de exibição de um documentário sobre sua própria trajetória.

Os registros mostram que Mário Frias enviou mensagem a Miranda — a quem chama de "irmão" — após tentar uma ligação de voz não atendida: "Vamos fazer a exibição do documentário na casa do D com JB." As mensagens indicam que a articulação envolvia diretamente Flávio Bolsonaro, Frias e Miranda.

Os diálogos não permitem confirmar se o encontro de fato ocorreu. O documentário citado nas mensagens é "A Colisão dos Destinos", produção de cerca de 70 minutos sobre a trajetória do ex-presidente, que estreou nos cinemas justamente nesta quinta-feira (14) — embora seja um projeto distinto do "Dark Horse", a cinebiografia internacional com o ator americano Jim Caviezel que estava sendo financiada com o dinheiro de Vorcaro.

O timing é difícil de ignorar: a articulação para levar Jair Bolsonaro à mansão do banqueiro aconteceu no mesmo período em que Flávio negociava os R$ 134 milhões para o filme — e no dia seguinte à decisão judicial mais grave da história recente da família Bolsonaro.

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O que Flávio confirmou — e o que não soube explicar

Na entrevista à GloboNews desta quinta-feira (14), Flávio Bolsonaro admitiu o que havia negado categoricamente poucas horas antes. Confrontado por repórter do Intercept ainda no período da manhã, o senador havia respondido: "É mentira, de onde você tirou isso?" — dando uma gargalhada e se afastando. Chamou o jornalista de "militante". Depois, por nota, defendeu a instauração de uma "CPI do Master" e enquadrou os recursos como "patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet."

À tarde, na GloboNews, o tom mudou. Flávio confirmou que negociou com Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões (R$ 134 milhões), que apenas US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) foram efetivamente transferidos e que Vorcaro "descumpriu o acordo". Confirmou que Paulo Calixto — advogado de Eduardo Bolsonaro e gestor do fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas — é "pessoa de sua confiança". Disse que outros investidores assumiram o aporte após o rompimento com Vorcaro.

O que Flávio não explicou foi o mecanismo central: por que o dinheiro destinado a um filme brasileiro passou por um fundo no Texas administrado pelo advogado do irmão exilado.

"O senador negou de manhã, confirmou à tarde e não explicou à noite. Em 24 horas, o 'é mentira' virou 'era confidencial' — mas a rota do dinheiro continua sem resposta."

A justificativa da confidencialidade — e seus limites

Para explicar ter negado os fatos anteriormente — inclusive quando abordado na frente do STF —, Flávio invocou uma cláusula de confidencialidade no contrato do filme. "Foi só por isso que eu me esquivei lá na frente do Supremo Tribunal Federal, quando fui interrogado. Eu reagi daquela forma porque a pessoa que me abordou eu conheço, é um desses blogs aí, claramente, historicamente, favoráveis ao PT e contra nós", declarou o senador.

A justificativa tem uma fragilidade objetiva: cláusulas de confidencialidade comercial não amparam negações públicas a investigações criminais em curso. O episódio diante do STF não ocorreu num ambiente de negócios — ocorreu no contexto de uma investigação ativa. Desqualificar o repórter como "militante" e "blog favorável ao PT" não altera o conteúdo do que foi perguntado nem o que foi depois confirmado pelo próprio senador.

A PF e a pergunta de R$ 61 milhões

A Polícia Federal investiga uma transferência de US$ 2 milhões realizada em fevereiro de 2025 entre uma empresa ligada ao Banco Master e o fundo Havengate Development Fund LP, no Texas, para apurar se parte dos recursos custeou a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Uma das linhas de apuração é se os recursos foram desviados para o fundo e usados para custear a permanência de Eduardo no país, já que o STF havia bloqueado contas e dificultado o recebimento de recursos nos EUA. Eduardo vive nos Estados Unidos desde o início de 2025, com mandato de deputado federal suspenso.

O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) encaminhou representação à PF pedindo investigação sobre eventual uso dos recursos para financiar lobby, campanhas digitais e ações políticas no exterior. Flávio negou que o dinheiro tenha custeado o irmão, mas não detalhou a estrutura do fundo nem explicou por que o mesmo advogado de Eduardo era o gestor do veículo financeiro destinado ao filme.

A tentativa de contra-narrativa — e a comparação que não se sustenta

Na entrevista, Flávio tentou retomar a ofensiva sobre o Caso Master e resgatou o episódio do desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói na Sapucaí, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com recursos que, segundo ele, incluíam dinheiro público. O argumento central: não há erro em buscar investimentos privados.

A equivalência não se sustenta por uma razão simples: desfiles de carnaval com financiamento misto são práticas regulares, públicas, auditáveis e legais. Uma negociação de R$ 134 milhões com um banqueiro investigado pela maior fraude da história do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — R$ 47 bilhões em rombo —, por meio de um fundo off-shore no Texas administrado pelo advogado do irmão exilado, não pertence à mesma categoria, independentemente do destino final dos recursos.

"Comparar o financiamento do carnaval com a rota Vorcaro-Texas-Eduardo é uma manobra de comunicação, não um argumento jurídico. A defesa precisa explicar o fundo, não o desfile."

O filme estreia — e o enredo real é outro

"A Colisão dos Destinos", o documentário sobre Jair Bolsonaro que seria exibido na mansão de Vorcaro, estreou nos cinemas nesta quinta-feira — ironicamente no mesmo dia em que o Intercept publicou o mapa completo da operação. Daniel Vorcaro está preso desde novembro de 2025, detido ao tentar deixar o país. A investigação da PF acrescenta o caso "Dark Horse" a um histórico de transações financeiras suspeitas envolvendo a família Bolsonaro.

Jair Bolsonaro foi condenado em setembro de 2025 a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado pela tentativa de golpe. Cumpre pena em prisão domiciliar. Seu filho mais velho negocia a candidatura à Presidência. Seu filho do meio vive nos EUA com contas bloqueadas pelo STF. E o dinheiro que deveria financiar a narrativa cinematográfica da família passou por um banqueiro preso, uma empresa que nega vínculos com ele e um fundo no Texas cujo gestor é o advogado do exilado.

Pesquisas, advogados e notas à imprensa podem controlar narrativas por algum tempo. O que não se controla é a sequência: negar, confirmar, não explicar — e ver a próxima reportagem sair antes que a anterior seja digerida.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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