Eleições 2026

Nunes Marques suspende pesquisa AtlasIntel e TSE decide nesta terça

Presidente do TSE acata pedido de Flávio Bolsonaro e determina que instituto não divulgue resultados até plenário analisar caso. Decisão envolve uso de áudio e metodologia questionada pelo PL

Nunes Marques suspende pesquisa AtlasIntel e TSE decide nesta terça
📷 Pedro França/Agência Senado
📋 Em resumo
  • Ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou em 8 de junho de 2026 a suspensão da divulgação da pesquisa presidencial da AtlasIntel (registro BR-06939/2026).
  • Flávio Bolsonaro (PL) e o partido acionaram o TSE alegando que o questionário continha 49 perguntas, sendo oito sobre o Banco Master em sequência, além de reprodução de áudio não autenticado envolvendo o senador e Daniel Vorcaro.
  • Nunes Marques entendeu que a metodologia "pode criar, indevidamente, manchetes e narrativas de campanha baseadas em resultados obtidos após estímulo negativo", desvirtuando a função informativa da pesquisa.
  • Decisão individual será submetida ao plenário do TSE em sessão prevista para 9 de junho. Instituto não poderá manter resultados em canais oficiais até análise colegiada.
  • Por que isso importa: Caso coloca em debate os limites entre pesquisa eleitoral e propaganda negativa, além de testar a capacidade do TSE de regular metodologias heterodoxas em ano eleitoral.
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O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou nesta segunda-feira, 8 de junho de 2026, que o instituto AtlasIntel não divulgue nem impulsione os resultados da pesquisa presidencial que utilizou um áudio atribuído ao senador Flávio Bolsonaro (PL) em conversa com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. A decisão, proferida em caráter liminar, atende a representação do Partido Liberal (PL) e de Flávio Bolsonaro contra o levantamento registrado sob o número BR-06939/2026.

A determinação individual de Nunes Marques deverá ser submetida ao referendo dos demais integrantes do TSE durante sessão prevista para esta terça-feira, 9 de junho. Até lá, o instituto não poderá manter os resultados da pesquisa em seus canais oficiais.

O que diz a decisão de Nunes Marques

Ao fundamentar a liminar, Nunes Marques afirmou que a metodologia utilizada pela AtlasIntel pode ultrapassar a função informativa de uma pesquisa eleitoral. "Essa cadeia produz contexto, não mera medição. A pesquisa, da maneira heterodoxa em que formulada, pode criar, indevidamente, manchetes e narrativas de campanha baseadas em resultados obtidos após estímulo negativo", escreveu o ministro.

O magistrado destacou que a controvérsia não se limita a divergências metodológicas comuns em levantamentos eleitorais. "A controvérsia suscitada nos autos não se limita, portanto, à mera discordância quanto às escolhas metodológicas da representada, mas envolve alegação objetiva de possível utilização do questionário como mecanismo de indução do entrevistado."

Nunes Marques também considerou que o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, em entrevista à CNN em 19 de maio, reconheceu o viés político do conteúdo. Para o ministro, as informações submetidas aos entrevistados representavam desgaste eleitoral para Flávio Bolsonaro.

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"Em exame preliminar, existem elementos minimamente consistentes que indicam possível comprometimento da neutralidade metodológica da pesquisa. Algumas perguntas aparentam extrapolar a simples aferição da opinião pública e introduzir estímulos narrativos capazes de influenciar respostas posteriores sobre intenção de voto, rejeição e imagem do pré-candidato."

Os argumentos do PL e da defesa de Flávio

Na representação apresentada ao TSE, o Partido Liberal argumentou que o questionário foi elaborado de maneira a induzir respostas negativas sobre o senador. Segundo a legenda, das 49 perguntas formuladas, oito tratavam diretamente do Banco Master e foram apresentadas em sequência, o que poderia influenciar a percepção dos participantes antes da aferição da intenção de voto.

O partido sustentou ainda que houve uma progressão temática nas perguntas, passando por tópicos como disputa eleitoral, comparação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro, supostas fraudes financeiras, Banco Master, Daniel Vorcaro, conversas vazadas, possível envolvimento do senador e eventual impacto dessas questões sobre sua candidatura.

Outro ponto questionado pelo PL foi a utilização de um áudio durante a pesquisa. De acordo com a legenda, o material não poderia ter sido empregado por não haver comprovação de sua autenticidade.

Para os advogados de Flávio, o levantamento deixou de observar a isenção necessária, configurando o que chamaram de "precedente manipulativo grave". A defesa pediu suspensão da divulgação da pesquisa e multa para o instituto.

O contexto: o áudio, o Banco Master e o filme Dark Horse

A polêmica tem origem nas revelações sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Em 13 de maio de 2026, foram divulgadas mensagens e áudios em que o senador teria pedido recursos a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo reportagens do Intercept Brasil e de outros veículos, Flávio teria negociado com Vorcaro o repasse de aproximadamente R$ 134 milhões para o financiamento da obra. A Polícia Federal apura se os R$ 61 milhões supostamente enviados pelo dono do Banco Master para bancar os custos do filme estão conectados a esquemas de lavagem de dinheiro.

A pesquisa da AtlasIntel, divulgada em 19 de maio, foi a primeira a captar os efeitos eleitorais dessas revelações. O levantamento mostrou que Flávio Bolsonaro aparecia com uma queda de 6 pontos percentuais em relação ao presidente Lula na corrida presidencial, com rejeição do senador subindo para 52%.

A defesa da AtlasIntel: áudio reproduzido após questionário principal

A AtlasIntel contestou as acusações e defendeu o rigor metodológico da pesquisa. Em entrevista ao CNN 360°, Yuri Sanches, head de análise do instituto, afirmou que a pesquisa é realizada sem qualquer tipo de viés e explicou a separação entre questionário e teste de estímulos.

O CEO Andrei Roman esclareceu, em entrevista ao programa WW, que 100% dos respondentes ouviram o áudio somente após responderem o questionário principal da pesquisa. Segundo Roman, o áudio de Flávio não foi exibido antes da pergunta sobre voto, o que, na avaliação do instituto, preserva a integridade da medição de intenções de voto.

A AtlasIntel registrou a pesquisa eleitoral no TSE em 13 de maio de 2026, antes de sua divulgação. O instituto mantém que a metodologia segue padrões internacionais de pesquisa eleitoral e que a inclusão do áudio como estímulo faz parte de um módulo específico de teste de narrativas, não interferindo na aferição principal de intenções de voto.

O que a pesquisa mostrava: queda de Flávio e vantagem de Lula

A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada em 19 de maio foi a primeira a captar os efeitos eleitorais das revelações sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O levantamento mostrou:

  1. Lula (PT): 44,4% das intenções de voto no primeiro turno
  2. Flávio Bolsonaro (PL): 41,7% (queda de 6 pontos em relação a levantamento anterior)
  3. Jair Bolsonaro (PL): 41,7% (cenário alternativo)


No cenário de segundo turno, Flávio aparecia em desvantagem: Lula liderava com 48,9% contra 41,8% do senador fluminense. A rejeição de Flávio subiu para 52%, superando a do petista.

O levantamento também indicava que 51,7% dos entrevistados consideravam que as conversas entre Flávio e Vorcaro afetavam negativamente a imagem do senador.

O debate sobre pesquisa versus propaganda negativa

A decisão de Nunes Marques coloca em debate um tema sensível: onde termina a pesquisa eleitoral e onde começa a propaganda negativa disfarçada de levantamento de opinião?

A legislação eleitoral permite que pesquisas eleitorais incluam estímulos e testes de narrativas, mas proíbe que o instrumento de medição se converta em meio de propaganda. A questão é se a metodologia da AtlasIntel — com 49 perguntas, oito sobre o Banco Master em sequência, e reprodução de áudio controverso — extrapolou os limites da aferição de opinião e se transformou em mecanismo de indução.

"A pesquisa, da maneira heterodoxa em que formulada, pode criar, indevidamente, manchetes e narrativas de campanha baseadas em resultados obtidos após estímulo negativo. Isso desvirtua a função informativa da pesquisa eleitoral e permite que o instrumento de medição se converta em meio indireto de propaganda negativa."

A defesa de Flávio Bolsonaro argumenta que a sequência de perguntas sobre o Banco Master, seguidas da aferição de intenção de voto, criou um efeito de priming — ou seja, ativou na memória dos entrevistados associações negativas antes que expressassem sua preferência eleitoral. A AtlasIntel, por sua vez, sustenta que o questionário principal foi respondido antes da reprodução do áudio, o que preservaria a integridade da medição.

O que está em jogo no plenário do TSE

A decisão individual de Nunes Marques será analisada pelo plenário do TSE nesta terça-feira, 9 de junho. Os ministros deverão decidir se mantêm a suspensão da pesquisa ou se liberam sua divulgação.

O caso envolve questões técnicas complexas sobre metodologia de pesquisa, mas também tem implicações políticas evidentes. Flávio Bolsonaro é pré-candidato à Presidência pelo PL e principal adversário de Lula nas eleições de 2026. Qualquer decisão do TSE sobre a pesquisa será lida à luz desse contexto eleitoral.

Se o plenário manter a suspensão, o precedente será claro: metodologias consideradas heterodoxas ou potencialmente indutivas poderão ser barradas pela Justiça Eleitoral. Se o plenário derrubar a liminar, a sinalização será outra: os institutos de pesquisa terão ampla liberdade para desenhar questionários, mesmo que incluam estímulos negativos.

A AtlasIntel, por sua vez, enfrenta um dilema reputacional. Se a pesquisa for considerada indutiva, o instituto poderá sofrer sanções e ter sua credibilidade afetada. Se for validada, o instituto terá precedentes para continuar utilizando metodologias semelhantes em futuros levantamentos.

O precedente e suas ramificações

O caso da pesquisa AtlasIntel não é isolado. Ele se insere em um movimento mais amplo de questionamento de metodologias de pesquisa eleitoral no Brasil. Nos últimos anos, institutos têm adotado abordagens cada vez mais complexas, incluindo testes de narrativas, estímulos visuais e sonoros, e questionários longos com múltiplas dimensões.

A questão é se essa sofisticação metodológica serve ao propósito de medir a opinião pública ou se, em alguns casos, transforma-se em mecanismo de manipulação. A decisão do TSE sobre o caso da AtlasIntel poderá estabelecer parâmetros mais claros sobre o que é permitido e o que é vedado em pesquisas eleitorais.

Resta saber se o plenário do TSE terá coragem institucional para enfrentar esse debate — ou se, como tantas vezes antes, preferirá adiar a decisão e deixar a questão para ser resolvida no campo da opinião pública, onde os institutos de pesquisa são tão juzes quanto partes.

A resposta virá nesta terça-feira. E com ela, um precedente que poderá moldar as pesquisas eleitorais nos próximos anos — ou a ausência de um precedente, que deixará o campo aberto para que metodologias cada vez mais criativas (e questionáveis) continuem sendo utilizadas sem maior escrutínio.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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