O inferno das chamadas: por que o Brasil ainda não venceu o telemarketing abusivo
Enquanto Anatel prorroga medidas paliativas e Congresso debate projetos lentos, brasileiros seguem reféns de robôs, golpes e cobranças — e a solução exige mais que cadastro em plataforma
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- Brasileiros recebem mais de 1 bilhão de chamadas de telemarketing por mês, sendo cerca de 10 bilhões de robocalls — metade de todas as ligações no país.
- Medidas da Anatel bloquearam 209 bilhões de chamadas curtas desde 2022, mas 15% das ligações indesejadas ainda chegam aos consumidores.
- O cadastro "Não Me Perturbe" tem adesão limitada: apenas grandes bancos e operadoras participam; golpistas e empresas de marketing ignoram a ferramenta.
- Projeto de lei na Câmara prevê multa de até R$ 50 mil por robocall irregular, mas tramitação é lenta e sem urgência aparente.
- Por que isso importa: a inação regulatória e legislativa transforma um direito básico — o silêncio — em privilégio, enquanto a tecnologia é usada para violar, e não proteger, a dignidade do consumidor.
O brasileiro que liga o celular hoje sabe: a tela vai acender com um número desconhecido. Pode ser oferta de empréstimo, cobrança de dívida que não existe, ou simplesmente silêncio após o "alô". Telemarketing abusivo virou rotina nacional — e a resposta do Estado, até agora, é insuficiente. Enquanto a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) prorroga medidas cautelares até maio de 2026, o Congresso analisa projetos que podem levar anos para virar lei. O resultado: cidadãos obrigados a bloquear todas as chamadas fora da agenda, perdendo ligações legítimas no processo."O 'Não Me Perturbe' é eficiente para operadoras tradicionais e call centers sérios, mas há caminhos alternativos que vêm de fora e acabam pulando esses filtros", afirma Luciano Saboia, diretor de telecomunicações da consultoria IDC.
A escala do problema: números que não mentem
De acordo com a Anatel, brasileiros recebem mais de 1 bilhão de chamadas de telemarketing por mês, com média de 743 ligações por habitante no período analisado. Cerca de 10 bilhões de robocalls — chamadas automáticas que desligam após alguns segundos — são realizadas mensalmente no país, representando aproximadamente metade de todas as ligações efetuadas.
Desde junho de 2022, quando medidas mais rigorosas foram adotadas, a Anatel estima que 209 bilhões de chamadas curtas tenham sido bloqueadas. No entanto, 15% das ligações indesejadas ainda chegam aos consumidores. Ou seja: para cada cem tentativas de contato abusivo, quinze conseguem furar o cerco regulatório.
O que a Anatel fez — e o que falta fazer
As regras atuais, prorrogadas até 31 de maio de 2026, determinam o bloqueio da capacidade de originação de chamadas de empresas que gerarem ao menos 100 mil chamadas em um dia, com 85% ou mais do volume composto por chamadas curtas (até seis segundos). No período de vigência, 1.116 empresas foram bloqueadas e R$ 24,7 milhões em multas foram aplicadas contra usuárias; outras R$ 14,6 milhões recaíram sobre operadoras que descumpriram as normas.
Em 2025, a agência lançou duas iniciativas adicionais: o selo de verificação para chamadas de empresas que realizam mais de 500 mil ligações por mês e a obrigatoriedade de adesão de todas as operadoras ao cadastro "Não Me Perturbe". O selo exibe um ícone de confirmação ao lado do número, indicando que a chamada foi autenticada. O problema: a funcionalidade só está disponível em aparelhos com sistemas operacionais recentes e redes 4G ou 5G, excluindo parte significativa da população.
Por que o "Não Me Perturbe" não basta
Criado em 2019, o cadastro permite que consumidores bloqueiem chamadas de empresas participantes. Até agosto de 2022, mais de 5,7 milhões de pessoas haviam se registrado. A limitação é estrutural: apenas grandes bancos e operadoras de telecomunicações aderiram ao programa. Empresas de vendas, marketing e, principalmente, golpistas ignoram o cadastro e utilizam técnicas como o "spoofing" — falsificação do número e do identificador de chamadas — para burlar filtros.
Além disso, o bloqueio não se aplica a ligações para confirmação de dados, prevenção a fraudes, cobranças e retenção de serviços. Na prática, escritórios de cobrança e agências de marketing exploram essas exceções para manter o fluxo de contatos, muitas vezes ultrapassando sessenta tentativas consecutivas contra o mesmo número."A livre iniciativa deve ser temperada pelo respeito à dignidade do consumidor", afirmou o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em evento da Anatel em 2022.
O Congresso e a lentidão legislativa
Enquanto o problema se agrava no dia a dia, a resposta do Legislativo avança em ritmo lento. O Projeto de Lei 7.041/2025, em tramitação na Câmara dos Deputados, estabelece medidas para prevenir, restringir e bloquear chamadas telefônicas realizadas de forma massiva, com previsão de multas de até R$ 50 mil por chamada irregular. A proposta, no entanto, ainda precisa passar por comissões e votações em plenário — sem urgência declarada.
A ausência de pressão política sobre o tema reflete uma desconexão entre a experiência cotidiana dos cidadãos e a agenda parlamentar. Enquanto consumidores recorrem a aplicativos de bloqueio e configuram seus aparelhos para rejeitar números desconhecidos, deputados e senadores não tratam a questão como prioridade.
O custo invisível do silêncio forçado
A solução adotada por milhões de brasileiros — bloquear todas as chamadas de números não salvos na agenda — tem um preço. Profissionais perdem oportunidades de trabalho, idosos deixam de receber ligações de familiares, e serviços essenciais podem ser comprometidos. O que deveria ser uma escolha torna-se uma imposição: para ter paz, é preciso abrir mão de conexões legítimas.
A Anatel reconhece que o combate ao telemarketing abusivo é um desafio global. Nos Estados Unidos, no Canadá e na Coreia do Sul, países enfrentam problemas semelhantes com abordagens distintas. No Brasil, a agência aposta no programa "Origem Verificada" (versão nacional do protocolo Stir Shaken), que exibirá nome, logomarca e motivo da ligação — mas a implementação completa ainda está em fase de maturação.
O que o consumidor pode fazer agora
Enquanto as medidas estruturais não avançam, especialistas recomendam:
- Cadastrar o número no site naomeperturbe.com.br — mesmo com limitações, reduz chamadas de empresas participantes.
- Utilizar recursos nativos do celular para bloquear números desconhecidos, com atenção para não perder ligações importantes.
- Registrar reclamações na Anatel com nome do prestador e número da chamada, para alimentar a base de fiscalização.
- Acionar Procons e Juizados Especiais em casos de cobranças indevidas ou assédio reiterado.
A persistência do telemarketing abusivo no Brasil não é apenas um incômodo técnico. É um sintoma de como a regulação, a inovação e os direitos do consumidor caminham em velocidades diferentes. Enquanto robôs ligam, leis tramitam e cidadãos esperam, uma pergunta fica: até quando o silêncio será um luxo, e não um direito?
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