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Áudio Mario Frias e Vorcaro: contradições sobre financiamento do filme

Gravações revelam proximidade entre deputado e banqueiro investigado, enquanto produtora nega repasses e relatórios do Coaf apontam movimentações de R$ 159 milhões em esquema de intermediação

Áudio Mario Frias e Vorcaro: contradições sobre financiamento do filme
📷 Roberto Castro/ Mtur
📋 Em resumo
  • Áudio e mensagens entre Mario Frias e Daniel Vorcaro revelam articulação direta para o filme "Dark Horse"
  • Produtora GOUP e Frias negam "um único centavo" do Banco Master;
  • Flávio Bolsonaro afirma ter cedido apenas direitos de imagem
  • Relatórios do Coaf indicam que empresa intermediária recebeu R$ 159,2 milhões de fundos ligados à fraude do Master
  • Valor total do acordo seria R$ 124 milhões, com R$ 61 milhões pagos, segundo apuração do Intercept
  • Por que isso importa: o caso expõe opacidade no financiamento cultural, tensões entre versões públicas e dados financeiros em ano pré-eleitoral
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Menos de uma hora após o horário previsto para um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em 11 de dezembro de 2024, em Brasília, o deputado federal Mario Frias (PL-SP) enviou um áudio ao empresário agradecendo pelo apoio ao filme "Dark Horse". O registro, obtido com exclusividade pelo Intercept, é a peça central que conecta articulações políticas, financiamento cultural e uma das maiores investigações de fraude bancária do país — e agora ganha novas camadas com declarações públicas e dados de inteligência financeira.

Áudio revela intimidade que versão pública tenta esconder

Na gravação enviada por WhatsApp às 18h24, Frias afirma que o longa sobre Jair Bolsonaro "vai mexer com o coração de muita gente", será "muito importante para o nosso país" e pede autorização para informar Vorcaro sobre o andamento da produção. "Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?", diz o deputado. Vorcaro responde imediatamente: "Eu to numa ligação te chamo em seguida". Minutos depois, os dois conversam por ligação de voz por cerca de 2 minutos.

"Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?"

A proximidade registrada no áudio contrasta com a postura pública adotada por Frias após as primeiras revelações. Na semana passada, ao ser questionado sobre a negociação de R$ 134 milhões entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para financiar o filme, o deputado afirmou que o banqueiro não havia dado "um único centavo" para o longa. Cerca de 20 horas depois, emitiu nova nota alegando "diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento", destacando apenas que Vorcaro ou o Banco Master não apareciam como investidores formais.


Produtora e Frias negam repasses; Flávio diz que cedeu apenas imagem

Em comunicado divulgado nas redes sociais, a GOUP Entertainment, produtora responsável por "Dark Horse", afirmou "categoricamente" que não há "um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário" entre os investidores do longa-metragem.

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Mario Frias reiterou a informação: "Assim como já esclareceu a produtora GOUP Entertainment, não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse". Ele acrescentou que Flávio Bolsonaro "não tem qualquer sociedade no filme ou na produtora". Segundo o deputado, o senador apenas cedeu os direitos de imagem da família Bolsonaro.

"O senador Flávio Bolsonaro não tem qualquer sociedade no filme ou na produtora. Seu papel limitou-se à cessão dos direitos de imagem da família e, naturalmente, ao peso que seu sobrenome agrega na hora de atrair investidores interessados em financiar um projeto desse porte", declarou Frias.

As declarações, contudo, não esclarecem a origem dos recursos efetivamente aplicados na produção nem respondem a questionamentos sobre eventuais repasses indiretos ou intermediados por terceiros.

Coaf aponta R$ 159 milhões em empresa intermediária; quanto foi ao filme?

Dados de relatórios de inteligência financeira (RIFs) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que a empresa Entre Investimentos, que teria intermediado repasses entre Vorcaro e a produção do filme "Dark Horse", recebeu R$ 159,2 milhões de fundos investigados pela Polícia Federal por participarem da fraude do Banco Master.

Ainda não há informações oficiais sobre quanto desse total foi efetivamente destinado ao financiamento do filme ou à empresa responsável pela produção. A apuração do Intercept aponta que o acordo total previa o pagamento de R$ 124 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido pagos pelo dono do Master.

"JB precisa ter sua verdadeira história revelada"

A divergência entre os valores mencionados — R$ 134 milhões nas negociações iniciais, R$ 124 milhões no acordo final, R$ 61 milhões pagos segundo o Intercept, e R$ 159,2 milhões movimentados via Entre Investimentos segundo o Coaf — reforça a necessidade de transparência sobre fluxos financeiros em produções culturais de alto orçamento e relevância política.

Mensagens mostram articulação direta e linguagem religiosa

Os registros obtidos pelo Intercept indicam que Frias, além de produtor-executivo de "Dark Horse", atuava diretamente na articulação da obra com o banqueiro investigado pela maior fraude bancária da história do país. Em 15 de dezembro de 2024, o deputado enviou a Vorcaro uma captura de tela de troca de mensagens com o diretor Cyrus Nowrasteh, revelando negociações preliminares para uma obra sobre "um homem comum que se tornou presidente por um milagre".

No diálogo, o diretor se compromete a conversar com o ator Jim Caviezel, alertando que o astro fará duas perguntas: "1) Posso ler o roteiro? 2) Eles vão me pagar bem?". Frias respondeu que o ator "será imortalizado por esse papel". Abaixo do print, escreveu ao banqueiro: "Milagres só são possíveis quando a fé", "Esse é um desses milagres" e "Vai ser a maior super produção de uma história brasileira".

Em 22 de dezembro, nova conversa: Vorcaro informa estar na igreja e promete retornar. Frias, impaciente, escreve uma hora e 16 minutos depois — antes mesmo de ser chamado — que o filme seria "o grande milagre", capaz de tocar "milhões de pessoas em todo mundo", com "papel histórico imprescindível para as futuras gerações". Disse ainda que o longa era uma "questão de justiça divina". Vorcaro respondeu: "Tenho certeza disso". "JB precisa ter sua verdadeira história revelada", acrescentou Frias, encerrando com "2026 é do Brasil" e "Deus te abençoe meu Brother".

Rede de desinformação tenta descredibilizar apuração

Frias, peça-chave na articulação do filme financiado pelo banqueiro investigado, passou a propagar narrativas falsas nas redes sociais para descredibilizar as reportagens do Intercept. Em 14 de maio, compartilhou publicações alegando, sem fundamento, que o veículo teria recuado sobre as cifras do filme.

O rastreamento da autoria dos conteúdos compartilhados por Frias expõe uma rede de desinformação estruturalmente ligada ao PL, partido do deputado. O site diario360, por exemplo, pertence a Fagner Leandro de Lima, secretário parlamentar do deputado federal André Fernandes (PL-CE), tesoureiro da sigla no estado. Já a página Hora Brasília é registrada em nome de empresa de Hugo Alves dos Santos, aliado próximo do bolsonarista Oswaldo Eustáquio. A firma atuou nas eleições de 2024 como fornecedora de duas campanhas do PL, recebendo R$ 55 mil de candidatos a vereador em Atibaia (SP) — cidade onde Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi preso em 2020, na casa do advogado Frederik Wassef, em desdobramento da investigação sobre rachadinhas na Alerj.

Contexto: financiamento cultural, poder e ano eleitoral

O caso "Dark Horse" se insere em um debate mais amplo sobre os limites entre financiamento privado de obras culturais, transparência e uso político de narrativas audiovisuais. Com orçamento negociado em patamares superiores a R$ 100 milhões, o filme sobre Jair Bolsonaro mobiliza recursos vultosos em um setor historicamente dependente de incentivos fiscais e editais públicos. A conexão com um banqueiro investigado por fraude bancária adiciona camadas de complexidade jurídica e ética à operação.

Para o leitor nacional, o episódio importa porque revela mecanismos de articulação entre poder legislativo, financiamento opaco e estratégias de comunicação em ano pré-eleitoral. A linguagem religiosa utilizada nas mensagens — "milagre", "justiça divina", "fé" — não é mero detalhe estilístico: é um sinal de como narrativas morais e simbólicas são instrumentalizadas para legitimar projetos políticos e culturais.

O que dizem as defesas

Procurada após a publicação da primeira reportagem da série, a defesa de Mario Frias confirmou que o deputado manteve contato com Vorcaro, mas afirmou que as mensagens "refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa". Segundo os advogados, Frias não exerceu papel de articulador político ou financeiro em nome do banqueiro. A defesa acrescentou que o entusiasmo manifestado nas conversas privadas decorria da "dimensão artística e cultural do projeto".

O PL e a defesa de Daniel Vorcaro foram procurados, mas não se manifestaram até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

Encerramento: o que fica além do áudio e das negativas

Mais do que confirmar ou negar repasses financeiros, o áudio e as mensagens entre Mario Frias e Daniel Vorcaro expõem uma dinâmica recorrente na política brasileira: a construção de narrativas em ambientes privados, com linguagem afetiva e simbólica, que depois são projetadas publicamente como fatos consumados. Em um contexto de polarização e disputa por memória, obras audiovisuais deixam de ser apenas produtos culturais para se tornarem armas de guerra narrativa.

As negativas formais da produtora e do deputado, somadas aos dados do Coaf e às gravações obtidas pela imprensa, criam um cenário de versões em disputa — típico de investigações complexas que envolvem poder, dinheiro e comunicação. A pergunta que resta não é apenas sobre a origem dos recursos ou a veracidade das declarações públicas. É sobre como a opacidade nas articulações entre poder, dinheiro e cultura molda o debate democrático — e quem paga a conta quando essas fronteiras se dissolvem.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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