PF mira gestoras que lucraram com colapso do Banco Master
Após oito fases da Operação Compliance Zero, Polícia Federal prepara avanço sobre administradoras de fundos que venderam ativos do Master antes da liquidação. Mercado já sabia da insustentabilidade há um ano e meio
📋 Em resumo ▾
- PF planeja avançar sobre gestoras e administradoras que venderam ativos do Banco Master antes da liquidação
- Mercado financeiro já sabia há um ano e meio que a situação do Master era insustentável
- Suspeita de que assessores orientaram aplicações até R$ 250 mil para garantir cobertura do FGC via CPFs fraudulentos
- PF apreendeu documentos de Nelson Tanure, Maurício Quadrado e João Carlos Mansur (Reag Trust) na segunda fase
- Por que isso importa: investigação pode expor rede de cumplicidade no mercado financeiro que lucrou com o colapso de uma instituição sob intervenção
A Polícia Federal prevê avançar sobre gestoras e administradoras de fundos e outros operadores do mercado financeiro que venderam papéis e outros ativos do Banco Master na véspera da liquidação da instituição financeira de Daniel Vorcaro. A expectativa é que a corporação se debruce sobre essa frente depois de concluir as investigações sobre a liquidação do Master e as relações políticas do ex-banqueiro com autoridades dos três Poderes.
O mercado sabia: um ano e meio de silêncio cúmplice
Na avaliação da PF, o mercado financeiro já sabia, cerca de um ano e meio antes da liquidação, que a situação do Master estava insustentável, e várias pessoas e empresas podem ter tirado proveito dessa situação. Nesse contexto, alguns episódios já entraram no radar da corporação, como vendas de grandes ativos que acabaram se desvalorizando, e os casos de menores de idade que a PF já identificou na lista do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de credores do Master com aplicações inferiores a R$ 250 mil.
Uma das suspeitas é que assessores de investimento teriam orientado pessoas a fazerem aplicações até o limite de R$ 250 mil em papéis do Master justamente para terem a garantia do FGC, por meio do uso de CPFs fraudulentos ou de laranjas.
"A PF rejeitou formalmente a proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro em 20 de maio de 2026."
Operação Compliance Zero: oito fases e contando
No momento, os investigadores se debruçam sobre os materiais e documentos já apreendidos nas oito fases da Operação Compliance Zero, que completa seis meses em maio de 2026. A avaliação é que já há um grande volume de informações, para além das encontradas no celular de Vorcaro, que podem levar a corporação a avançar sobre mais fraudes financeiras.
Além do ex-banqueiro, a PF apreendeu documentos e aparelhos celulares de outros elos do mercado financeiro, como os empresários Nelson Tanure, Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro, e João Carlos Mansur, fundador da Reag Trust. Eles foram alvos da segunda fase da operação, que mira fraudes financeiras cometidas por Vorcaro desde antes da compra do Master, e que teriam favorecido o ex-banqueiro e seus familiares.
A Reag Trust, administradora de fundos fundada por Mansur, teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em janeiro de 2026. Segundo as investigações, fundos administrados pela Reag estruturaram operações fraudulentas com o Banco Master entre julho de 2023 e julho de 2024. A gestora é apontada como suspeita de usar seus fundos para praticar fraudes financeiras em benefício do grupo Master.
Prioridade política: as relações com os três Poderes
As operações deflagradas até o momento têm se baseado, principalmente, nas mensagens encontradas no celular de Vorcaro e que expõem relações dele com políticos e outros personagens, como Paulo Henrique Costa, que presidiu o Banco de Brasília (BRB). A tentativa do BRB de "salvar" o Master também está sob escrutínio da PF.
A avaliação na corporação é que não tem condições, no momento, de avançar sobre todas as frentes, sob o risco de não conseguir concluir de forma adequada as várias investigações. Por isso, agora, a prioridade é se aprofundar nas suspeitas envolvendo a liquidação do Master em si e a tentativa do BRB de "salvar" o banco, além das relações de Vorcaro com autoridades.
Passada essa primeira fase, a corporação deve avançar também sobre quem tentou lucrar sabendo da derrocada do Master.
O rastro bilionário: Rioprevidência e fundos de pensão
A PF também investiga desvios na Rioprevidência envolvendo o Banco Master. A corporação apura aplicações de R$ 2,01 bilhões a partir de 2024 em fundos do Banco Master, instituição suspeita de fraudes financeiras e que foi liquidada pelo BC. Fundos de previdência de estados e municípios também estão sob investigação por aportes bilionários no Master.
"Fundos administrados pela Reag Trust estruturaram operações fraudulentas com o Banco Master entre julho de 2023 e julho de 2024."
As defesas e o silêncio
Os três empresários negam envolvimento em irregularidades. Procurada, a defesa de Tanure enviou a mesma nota divulgada quando ele foi alvo de buscas, afirmando que ele não tem "qualquer relação societária" com o Banco Master, de quem foi cliente. O texto afirma ainda que o empresário "tem certeza" de que no decorrer das apurações promovidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), "restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação" com o Master.
Os advogados dos outros executivos citados não retornaram os contatos. A defesa de Vorcaro também não se manifestou.
O que a próxima fase pode revelar
A próxima fase da Operação Compliance Zero tem potencial para expor uma rede de cumplicidade no mercado financeiro que vai muito além de Daniel Vorcaro. Se confirmado que gestores e administradores sabiam da insustentabilidade do Master e mesmo assim operaram ativamente com seus papéis até a véspera da liquidação, a investigação pode redesenhar completamente o mapa de responsabilidades.
A pergunta que fica não é apenas sobre quem lucrou com o colapso do Master, mas sobre quantos outros operadores do mercado financeiro brasileiro têm acesso a informações privilegiadas sobre a saúde de instituições sob intervenção — e usam esse conhecimento para se proteger enquanto pequenos investidores, incluindo menores de idade com CPFs possivelmente fraudulentos, ficam expostos ao risco.
Enquanto a PF analisa terabytes de dados apreendidos nas oito fases da operação, o mercado financeiro observa em silêncio. A próxima fase pode quebrar esse silêncio — ou confirmar que ele sempre foi cúmplice.
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