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Operação Carbono Oculto: 3ª fase mira Banco Genial e Terrana

A terceira fase da operação alcança executivos do mercado financeiro e um delator do caso Banco Master, expondo como uma distribuidora de combustíveis teria sido comprada com fundos e holdings criados às pressas

Operação Carbono Oculto: 3ª fase mira Banco Genial e Terrana
📷 Divulgação PF
📋 Em resumo
  • O GAECO do Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal deflagraram nesta quinta (24) a terceira fase da Operação Carbono Oculto, com buscas em sete estados.
  • O foco é a compra da distribuidora Terrana (Tobras) por meio de fundos de investimento e empresas de fachada usados, segundo o MP, para ocultar os verdadeiros donos.
  • Pela primeira vez, a operação mira nominalmente executivos do mercado financeiro — um diretor do Banco Genial e um empresário delator do caso Banco Master.
  • Mais de R$ 120 milhões teriam circulado por "contas de passagem" antes de chegar à estrutura que assumiu a distribuidora.
  • Por que isso importa: cada fase da Carbono Oculto empurra a fronteira do esquema do PCC mais para dentro da economia formal — e esta chegou à Faria Lima "de terno".
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O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público de São Paulo, e a Receita Federal deflagraram na manhã desta quinta-feira (24) a terceira fase da Operação Carbono Oculto, com buscas em sete estados. O alvo da etapa é a suspeita de lavagem de dinheiro na compra da distribuidora de combustíveis Terrana — e, pela primeira vez, a mira recai sobre executivos do mercado financeiro, incluindo um diretor do Banco Genial.

O salto da 3ª fase: da fintech ao balcão de um banco de investimento

As duas primeiras fases da Carbono Oculto miraram a base e o meio da cadeia: os postos e as fintechs. A terceira sobe mais um degrau. Segundo o GAECO, o objeto agora é a arquitetura financeira montada para assumir o controle da Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., que opera sob a marca Terrana.

Os agentes cumprem, segundo o Ministério Público, cerca de 27 mandados de busca e apreensão em 29 endereços, ligados a 13 pessoas físicas e 24 empresas. As diligências foram autorizadas pelo juiz Sandro Nogueira de Barros Leite, da 2ª Vara Criminal de Catanduva, e ocorrem em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo.

Participam ainda a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), a Secretaria Estadual da Fazenda de São Paulo e as polícias Civil e Militar.

Quem são os alvos — e a diferença entre buscar, delatar e chefiar

Entre os alvos de busca estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, executivo do Banco Genial, e seus irmãos, André e Bruno Tupinambá. Atenção à distinção que costuma se perder: o Banco Genial, como instituição, aparece na investigação como quem forneceu informações aos investigadores; quem é alvo de busca é o executivo. Instituição que colabora e pessoa investigada não são a mesma coisa.

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Também é alvo o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, o "Mineiro", dono da Entre Investimentos. Freixo ocupa uma posição peculiar: ele firmou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) no âmbito do escândalo do Banco Master — ou seja, é colaborador em uma investigação e, ao mesmo tempo, alvo nesta. Freixo é apontado como ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", e Mohamad Hussein Mourad, o "Primo", são apontados pelo GAECO como os chefes da organização investigada — mas não figuram entre os alvos de busca desta fase.

Ser alvo de busca, ter delatado em outro caso e ser apontado como chefe são três situações jurídicas diferentes. A investigação está no começo — não há condenados.

A engenharia da compra da Terrana: holdings e fundos criados às pressas

A tese do Ministério Público é que a aquisição da Terrana não foi uma compra comum, mas uma operação desenhada para esconder quem, de fato, ficaria com a distribuidora.

Para isso, segundo o GAECO, foram usados veículos financeiros e societários constituídos poucos meses antes do negócio, especificamente para viabilizá-lo. Entre as estruturas analisadas estão os fundos Radford, Derby 44 e Los Angeles 01, além das empresas Berna Holdings e Branson Holdings.

O dinheiro, por sua vez, teria andado em ziguezague. Mais de R$ 120 milhões, segundo o MP, transitaram por "contas de passagem" — empresas usadas apenas para o recurso circular e perder o rastro — passando por companhias como Aster Petróleo, SM Serviços Empresariais, Duvale Distribuidora e Usina Itajobi antes de chegar à estrutura que assumiu a Terrana.

As suspeitas se apoiam em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), quebras de sigilo bancário, dados fornecidos pelo Banco Genial e mensagens extraídas de celulares apreendidos em fases anteriores. Segundo os investigadores, as conversas indicariam o uso de "laranjas" — pessoas interpostas — para ocultar os controladores reais dos ativos.

De onde vem a Carbono Oculto: o PCC que saiu da bomba e chegou à Faria Lima

Para entender por que uma distribuidora de combustíveis mobiliza o combate ao crime organizado, é preciso voltar a agosto de 2025.

A primeira fase da Carbono Oculto, deflagrada em 28 de agosto daquele ano, foi descrita como a maior ofensiva já feita no país contra a estrutura econômica do Primeiro Comando da Capital (PCC) — cerca de 1.400 agentes e mais de 350 alvos. A investigação revelou que a facção deixara de ser apenas um cartel do tráfico para operar como um conglomerado empresarial, infiltrado no setor de combustíveis (com adulteração por metanol e nafta) e no mercado financeiro paulista.

A segunda fase, batizada de Fluxo Oculto e realizada em maio de 2026, mostrou que o esquema sobreviveu à primeira: a Receita identificou fintechs que funcionavam como "bancos paralelos" da organização, movimentando dezenas de bilhões de reais. E há um detalhe que costura as etapas — os operadores apontados naquela fase, "Primo" e "Beto Louco", são os mesmos agora indicados como chefes da compra da Terrana.

A Carbono Oculto conta uma história em degraus: do posto de gasolina da periferia aos escritórios climatizados da Faria Lima. A terceira fase é onde a escada encosta num banco de investimento.

Por que isso importa além de São Paulo

O caso não é local nem restrito ao setor de combustíveis. Ele expõe uma tese que órgãos de controle vêm sustentando: a de que o dinheiro do crime organizado não corre por fora do sistema financeiro — corre por dentro dele, usando fundos, holdings e instituições formais para se tornar patrimônio limpo.

A chegada da investigação à órbita do Banco Master — via o delator Freixo e sua ligação apontada com Daniel Vorcaro — conecta duas das maiores frentes de apuração do momento: a do PCC nos combustíveis e a da crise no sistema financeiro. Se essa costura se confirmar, a Carbono Oculto deixa de ser uma operação sobre gasolina adulterada e passa a ser um retrato de como o crime se financia na economia formal brasileira.

Cada fase da Carbono Oculto responde a uma pergunta e abre outra maior. A primeira mostrou o PCC nos postos; a segunda, nas fintechs; a terceira encosta em um banco de investimento e em um delator do caso Master. A dúvida que fica não é se a facção lava dinheiro — é quantos intermediários "de terno" toparam operar a lavanderia sem perguntar de onde vinha o recurso.

Se a investigação provar que executivos do mercado de capitais desenharam a estrutura sabendo o que estavam blindando, o Brasil terá de encarar uma verdade incômoda: a fronteira entre o crime organizado e a alta finança pode ser mais fina do que a Faria Lima gostaria de admitir.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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