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Operação Fluxo Oculto: MPSP mira R$ 4 bilhões em fraudes de combustíveis

Investigação do MPSP descortina engenharia financeira que utilizava fintechs e contas-bolsão para ocultar patrimônio da máfia dos combustíveis e lavar ativos de facção criminosa

Operação Fluxo Oculto: MPSP mira R$ 4 bilhões em fraudes de combustíveis
📷 Ministério Público/Flickr
📋 Em resumo
  • Operação Fluxo Oculto ataca rede criminosa de adulteração de nafta e sonegação fiscal de R$ 200 milhões.
  • Fintechs eram utilizadas como "bancos paralelos" por meio de contas-bolsão para cegar o Coaf e o Banco Central.
  • Investigação aponta "convergência criminal" com compartilhamento de estruturas financeiras ligadas ao PCC.
  • Promotores rejeitaram delação dos líderes foragidos por omissão de dados sobre lavagem e corrupção policial.
  • Por que isso importa: A ação revela a sofisticação do crime organizado ao colonizar o mercado de pagamentos eletrônicos e fundos de investimento para blindar bilhões de origem ilícita.
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O Ministério Público de São Paulo (MPSP) deflagrou nesta quinta-feira (28) a Operação Fluxo Oculto, nova fase que asfixia um esquema de R$ 3,86 bilhões no mercado de combustíveis. A ofensiva mira fintechs estruturadas como "bancos paralelos" para ocultar lucros da adulteração de nafta e viabilizar a lavagem de dinheiro, com ramificações que alcançam o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Engenharia financeira e o ponto cego das contas-bolsão

O avanço das investigações identificou seis novas instituições de pagamento que operavam como o verdadeiro duto financeiro da organização liderada por Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo", e Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco". O modelo baseava-se em "contas-bolsão" sob o CNPJ de fintechs, onde recursos de dezenas de postos eram unificados, ocultando os reais titulares em sistemas internos conhecidos como "contas gráficas".

"O uso de fintechs e plataformas de pagamento funcionaram como 'dutos financeiros' do grupo", apontam os relatórios de inteligência financeira do MPSP.

Essa fragmentação contábil criava uma cortina de fumaça que impedia o rastreamento por órgãos reguladores. Empresas como o Smart Solutions Group movimentaram mais de R$ 1,2 bilhão — metade direcionada à GGX Global, holding de postos do grupo criminoso. Já a Ceopag, ligada a Kawel Rodrigo Lotti, registrou fluxos atípicos de R$ 359 milhões em créditos em curtíssimo prazo.

A convergência criminal com a facção paulista

A investigação detalha o que os promotores classificam como "convergência criminal": o compartilhamento de infraestrutura ilegal entre diferentes organizações criminosas. O PCC surge como beneficiário indireto e usuário desse ecossistema financeiro para escoar capital ilícito.

Plataformas como a Sispay — gerida por Marcelo Artur Motta Ramos Marques e Vera Lucia Teixeira — e a Vpay possuem histórico de fraudes e vínculos com a facção. A Sispay revelou conexões com Luiz Sérgio Ferreira da Mota, alvo de operações contra a máfia dos ônibus associada ao grupo paulista. Outra interligação ocorria pela Yaw, via Shelby Holdings, empresa atrelada a Ricardo Romano, apontado como o elo do PCC no setor financeiro.

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Máfia do nafta e o rastro de laranjas

No campo operacional, a fraude física consistia no desvio de nafta petroquímica importada, que goza de tributação inferior, para simular vendas a indústrias químicas de fachada. O esquema contava com o comando de Raffaele Vestenius Masi e Aldo Antônio Masi, gestores da produtora Petrodansk, que emitiu mais de 10 mil notas fiscais falsas totalizando R$ 1,49 bilhão.

O produto físico nunca chegava aos destinos declarados. Coordenados por Ítalo Giovanni Bergamo, caminhões desviavam as rotas para descarregar o solvente em terminais como o Tercom (Paulínia) e Arujá Terminais, além das distribuidoras Saara e Petroriente Distribuidora. A nafta era misturada à Gasolina Tipo A e vendida ao consumidor, gerando um rombo de R$ 200 milhões em sonegação fiscal. Para abrir as empresas-fantasma, operadores como Michele Gomes Vieira Silva e Simone Alves de Oliveira recrutavam laranjas, vulneráveis sociais e até detentos.

Blindagem no mercado formal e delação rejeitada

Para fechar o ciclo de lavagem, a organização recorria a Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP), como o Zeus, Gran Capital e DB Crédito Global. Empresas de fachada emitiam boletos liquidados por esses fundos fechados em prazos de apenas um dia e sem deságio, contrariando a lógica de mercado e confirmando o caráter fictício das transações para beneficiar operadores como Gledson Pacheco e Antônio Correa de Freitas Junior.

"Primo" e "Beto Louco" encontram-se foragidos desde agosto do ano passado, após a Operação Tank da Polícia Federal (PF). Ambos tentaram firmar um acordo de delação premiada com o MPSP, contudo, a proposta foi sumariamente rejeitada. Os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) constataram que os empresários omitiram dados cruciais sobre a lavagem de bilhões, as conexões estruturais com o PCC e episódios de corrupção policial.

Procurada para se manifestar sobre a operação desta quinta-feira, a defesa dos empresários informou que não vai se pronunciar por ainda não ter tomado conhecimento integral dos autos da investigação.

Cenários e perspectivas

A Operação Fluxo Oculto redesenha o mapa do combate ao crime econômico ao demonstrar que a adulteração de combustíveis deixou de ser uma fraude meramente fiscal para se tornar uma operação de alta finança subterrânea. O confisco preventivo de R$ 204 milhões em patrimônio líquido dos fundos envolvidos ataca o oxigênio financeiro do grupo, mas impõe um desafio severo ao Banco Central e à CVM na fiscalização de fundos fechados e contas-bolsão.

Até que ponto o cerco às fintechs será capaz de frear a simbiose entre grandes setores econômicos e as facções criminosas, ou estamos assistindo apenas à migração veloz desse capital para novas plataformas digitais ainda não mapeadas?

Versão em áudio disponível no topo do post.

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