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Operação Lázaro RJ: Como um banco morto há 60 anos virou golpe?

Polícia Civil deflagra operação contra fraude bilionária com reativação irregular do BCM na Jucerja. Cúpula do órgão e falsos acionistas são alvos

Operação Lázaro RJ: Como um banco morto há 60 anos virou golpe?
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Operação Lázaro: Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagra operação contra fraude de R$ 1 bilhão com reativação irregular do Banco de Crédito Móvel (BCM).
  • Banco Fantasma: Instituição extinta em 1964 foi "ressuscitada" em 2024 por falsos acionistas para reivindicar precatório bilionário.
  • Cúpula da Jucerja na Mira: Vice-presidente Affonso D'Anzicourt Silva, secretário-geral Gabriel Voi e ex-presidente Sergio Romay são alvos.
  • O Golpe do Precatório: Grupo tentava se apropriar de crédito relacionado à desapropriação de 153 mil m² no Recreio dos Bandeirantes.
  • Por que isso importa: O caso expõe a fragilidade dos órgãos de registro e a sofisticação de esquemas que sequestram o Estado por dentro.
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A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou, na manhã desta quinta-feira (25), a Operação Lázaro, para investigar um suposto esquema de fraude bilionária envolvendo a reativação irregular de um banco extinto há mais de 60 anos. A ação, coordenada pela Delegacia de Defraudações (DDEF), cumpre 12 mandados de busca e apreensão em condomínios de alto padrão e casas de luxo na Zona Sul e Zona Oeste do Rio.

O alvo central é o Banco de Crédito Móvel (BCM), instituição financeira liquidada em 1964 e que, segundo as investigações, foi "ressuscitada" em 2024 por um grupo de falsos acionistas com um objetivo claro: apropriar-se de um crédito superior a R$ 1 bilhão.

A ressurreição do BCM e o precatório bilionário

O nome da operação não é por acaso. Na Bíblia, Lázaro foi o amigo de Jesus Cristo ressuscitado quatro dias após a morte. No caso carioca, o "milagre" foi muito mais ousado: trazer de volta à vida uma instituição financeira morta há seis décadas.

Segundo a Polícia Civil, em 2024, um grupo de falsos acionistas do BCM conseguiu restabelecer o registro da instituição financeira junto à Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (Jucerja). A manobra ocorreu mesmo diante de decisões judiciais e manifestações técnicas contrárias à reativação da instituição.

O objetivo era criar uma aparência de legitimidade para reivindicar direitos sobre um crédito bilionário. O valor refere-se à desapropriação de uma área de aproximadamente 153 mil metros quadrados, localizada no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio. O processo de desapropriação é antigo: foi iniciado há 60 anos, ainda no tempo do Estado da Guanabara, e gerou um precatório que a Procuradoria Geral do Estado tentou impedir de ser pago já em 2022.

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"Ressuscitar um banco extinto há 60 anos para cobrar um precatório bilionário não é apenas fraude; é uma operação de engenharia jurídica que sequestra o Estado por dentro."

A empresa passou a se apresentar como BCM Ativos Imobiliários, utilizando o CNPJ reativado irregularmente para dar lastro formal à tentativa de apropriação do crédito.

A cumplicidade institucional: a cúpula da Jucerja no esquema

O que torna o caso especialmente grave é a participação de agentes públicos na engrenagem da fraude. Entre os alvos da Operação Lázaro estão integrantes da própria cúpula da Jucerja, o órgão responsável por registrar a reativação do banco fantasma.

São alvos dos mandados:

  1. Affonso D'Anzicourt Silva, vice-presidente da Jucerja;
  2. Gabriel Oliveira de Souza Voi, secretário-geral do órgão;
  3. Sergio Tavares Romay, ex-presidente da Jucerja.


A inclusão de dirigentes de um órgão de registro na operação sinaliza que a Polícia Civil investiga a possibilidade de conivência interna — ou, no mínimo, de negligência grosseira — para viabilizar a reativação do BCM. A pergunta que se impõe é simples: como um banco liquidado há 60 anos, cujas ações deixaram de existir e cujos ativos foram distribuídos entre os então acionistas, pôde ser registrado novamente sem que os órgãos de controle percebessem?

As ações inexistentes e o patrimônio fantasma

As diligências policiais comprovaram que, após a liquidação do BCM na década de 1960, as ações da companhia deixaram de existir. Os ativos remanescentes foram distribuídos entre os acionistas da época, encerrando qualquer vínculo jurídico com a instituição original.

Mesmo assim, décadas depois, pessoas que se apresentavam como representantes ou acionistas articularam a retomada do registro empresarial. A manobra criou uma entidade jurídica fantasma, sem patrimônio real, mas com um precatório bilionário a ser cobrado do Estado.

Além da fraude bancária, a Polícia Civil apura se integrantes do grupo estariam ligados a outras práticas ilícitas, como fraudes imobiliárias, invasões de terrenos e empreendimentos irregulares em áreas da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes. O modus operandi seria o mesmo: utilizar a aparência de legalidade conferida por registros públicos para se apropriar de áreas e valores públicos.

O terreno de 153 mil metros quadrados e a briga histórica

A área em disputa é um dos terrenos mais valiosos do Rio de Janeiro. Localizada no Recreio dos Bandeirantes, a gleba de 153 mil metros quadrados foi objeto de desapropriação iniciada ainda nos anos 1960, quando o Rio era Estado da Guanabara.

O processo de desapropriação gerou um precatório que, ao longo de décadas, foi atualizado monetariamente até atingir a cifra bilionária. A Procuradoria Geral do Estado já havia questionado a legitimidade do crédito em 2022, mas a reativação do BCM em 2024 abriu uma nova frente para que o grupo tentasse receber o valor.

A estratégia era simples na sua audácia: se o banco fosse legalmente reativado, os "novos acionistas" poderiam se apresentar como sucessores dos antigos proprietários da área e cobrar o precatório em nome da instituição. A fraude, portanto, não estava no valor do crédito, mas na legitimidade de quem o reivindicava.

Cenário: O Estado sequestrado pelos seus próprios registros

O que a Operação Lázaro revela não é apenas a ganância de um grupo que tentou se apropriar de R$ 1 bilhão, mas a fragilidade estrutural dos órgãos de registro no Brasil. Se a Jucerja — responsável por validar a existência jurídica de milhares de empresas — teve sua cúpula envolvida na reativação de um banco fantasma, o que impede que esquemas semelhantes se repitam em outros órgãos?

A inclusão de Affonso D'Anzicourt, Gabriel Voi e Sergio Romay entre os alvos demonstra que a Polícia Civil não vê o caso como um erro burocrático, mas como uma participação ativa na engrenagem da fraude. A reativação do BCM não teria sido possível sem a conivência — ou a cegueira deliberada — de quem tinha o dever de impedir.

Resta saber quantos outros "bancos fantasmas" circulam pelos registros públicos do país, aguardando o precatório certo para ressuscitar. A resposta a essa pergunta definirá se a Operação Lázaro foi um caso isolado de audácia criminosa ou o sintoma de um sistema de registro que se tornou, ele próprio, o principal instrumento da fraude.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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