Operação Take Over: Como o Banco Master chegou aos cofres de Paulista?
PF cumpre 10 mandados em Pernambuco e no Rio para apurar aplicação de R$ 3 milhões em investimentos de risco sem garantia do FGC
📋 Em resumo ▾
- Operação Take Over: Polícia Federal deflagra operação para investigar irregularidades no fundo previdenciário de Paulista (PE).
- Foco no Master: Apurações indicam que recursos foram alocados no Banco Master em investimentos de risco, sem a garantia do FGC.
- Mandados: Dez ordens de busca e apreensão são cumpridas em Paulista, Recife e Rio de Janeiro.
- Gestão Anterior: Prefeitura afirma que atos investigados ocorreram na administração passada e promete colaboração total.
- Por que isso importa: A operação revela a capilaridade do escândalo do Master, que já deixou um rastro de R$ 1,8 bilhão em letras financeiras sem garantia pelo país.
A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (10) a Operação Take Over, mirando irregularidades na gestão do fundo previdenciário de Paulista, município da Região Metropolitana do Recife. A investigação, que cumpre dez mandados de busca e apreensão em três cidades, expõe a capilaridade do escândalo do Banco Master e coloca em risco a aposentadoria de mais de 5 mil servidores municipais.
A ação atinge diretamente a Secretaria de Administração (Secad) e o Instituto de Previdência Social do Município do Paulista (PreviPaulista). Os agentes federais investigam se a aplicação de recursos previdenciários em produtos da instituição financeira liquidada configurou gestão temerária, fraude ou recebimento de vantagens indevidas por parte dos gestores da época.
O alvo: R$ 3 milhões em risco e a sombra do Banco Master
As apurações indicam que valores que podem passar de R$ 3 milhões foram alocados no Banco Master. Segundo a investigação, o dinheiro foi direcionado a investimentos com alto grau de risco, por meio de decisões em flagrante desacordo com as normas legais e os procedimentos de governança exigidos para a administração de dinheiro público previdenciário.
A PF busca esclarecer se a conduta dos gestores caracteriza gestão temerária ou fraudulenta. As diligências também pretendem verificar o recebimento de vantagens indevidas pelos administradores do fundo.
"A investigação busca esclarecer se a conduta caracteriza gestão temerária ou fraudulenta e apurar eventual prática de crimes contra a administração pública e o sistema financeiro", afirmou a Polícia Federal em nota.
A operação cumpre dez mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal. As diligências são realizadas em Paulista, no Recife e na cidade do Rio de Janeiro. Até a última atualização desta reportagem, a PF em Pernambuco não informou quantos mandados foram efetivamente cumpridos em cada cidade, o que foi apreendido ou se houve prisões.
Esvaziamento do comitê de investimentos e vantagens indevidas
Um dos pontos centrais da investigação é o esvaziamento das funções do comitê de investimentos do PreviPaulista. Esse órgão é responsável pela análise técnica e pela aprovação das aplicações financeiras do fundo previdenciário.
Segundo a PF, há indícios de que o comitê teve suas funções esvaziadas, o que pode ter comprometido os mecanismos de controle e fiscalização dos recursos destinados à aposentadoria dos servidores municipais.
O Ministério da Previdência Social aponta que o fundo de Paulista possui 5.335 assegurados e beneficiários. A suspeita é que a bypassagem do comitê técnico tenha facilitado a entrada de recursos do fundo em produtos de risco do Master, longe do escrutínio que a gestão de verbas públicas exige.
O efeito dominó do caso Master na Previdência
O caso de Paulista não é um evento isolado, mas mais um capítulo do efeito dominó provocado pela intervenção e liquidação do Banco Master.
Órgãos responsáveis pelo pagamento de aposentadorias de servidores públicos em todo o país são acusados de aplicar cerca de R$ 1,8 bilhão em letras financeiras da instituição sem a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A ausência da proteção do FGC significa que, em caso de calote ou liquidação extrajudicial, os cofres públicos municipais e estaduais podem perder integralmente o dinheiro aplicado, comprometendo o pagamento de aposentadorias e pensões por décadas.
A Operação Take Over entra exatamente nesse ponto: verificar se os gestores de Paulista sabiam do risco ao alocar verbas do PreviPaulista no Master.
A defesa da atual gestão e o silêncio sobre prisões
A Prefeitura de Paulista se posicionou sobre a deflagração da operação. A atual gestão, por meio da Secad, esclareceu que os fatos objeto da investigação referem-se a atos praticados na administração anterior.
A nota oficial da prefeitura afirma que, desde o início da diligência, todas as informações e documentos solicitados estão sendo disponibilizados aos órgãos competentes, em total colaboração com o trabalho investigativo.
A defesa da gestão atual tenta blindar o prefeito em exercício, transferindo a responsabilidade política e jurídica para os antecessores.
Cenário: A contabilidade do caos
A Operação Take Over demonstra que a crise do Banco Master ainda está longe de ser contida. Cada nova operação da Polícia Federal em fundos de previdência revela não apenas a agressividade comercial da instituição liquidada, mas a fragilidade da governança de órgãos públicos que deveriam proteger o dinheiro da aposentadoria.
Para os 5.335 servidores de Paulista, a operação traz a certeza do prejuízo e a incerteza do resgate. A pergunta que permanece é quantos outros fundos de previdência, em quantos outros municípios, ainda mantêm dinheiro preso nas letras financeiras do Master, aguardando o próximo mandato da Polícia Federal.
Versão em áudio disponível no topo do post.