Os traumas deixados pela pandemia nos profissionais de saúde em Rondônia
Via Painel Político

Com uma média de 90% de ocupação de leitos críticos, o cenário da pandemia ainda preocupa autoridades de saúde em Rondônia, e chama atenção do país e do mundo. O estado é liderado pelo governador Marcos Rocha e uma bancada na Assembleia Legislativa que apoia o presidente Jair Bolsonaro, que é negacionista, assim como os parlamentares e Rocha. O governador e os deputados já tomaram iniciativas contra as medidas de prevenção da Covid, como proibir o passaporte vacinal, documento que comprova imunização completa do cidadão.
A segunda onda da pandemia acontece em um momento onde há vacinas e desenvolvimento de medicamentos para antes, durante e após o contágio. Os insumos também são diferentes do ano anterior, quando, por exemplo, muita gente foi a óbito sem oxigênio e outras estruturas médicas e hospitalares. Mesmo assim, jovens, adultos e idosos continuam morrendo por não terem completado o ciclo vacinal, ou, simplesmente não terem se vacinado.
Essa nova onda de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva – UTI – e morrendo, tem causado uma nova pressão sobre os profissionais de saúde. Se antes alguns desses médicos, enfermeiros e diretores de unidades de saúde já se sentiam em choque com tudo que testemunharam durante a guerra da pandemia, agora a sensação de medo permanece.
O PAINEL POLÍTICO passou os últimos dias ouvindo profissionais de saúde, alguns deles preferiram falar em anonimato com medo de retaliações do governo. Mas grande parte deles dizem que estão passando por traumas relacionados à pandemia.
Parte de quem atua na linha de frente da covid, ainda tem dificuldade de assumir que a saúde mental ficou abalada e enfrenta o medo de procurar apoio psicológico.

SEQUELAS DA PANDEMIA – Daniel da Silva (fictício), atua como enfermeiro na linha de frente. Aos 35 anos e com dois filhos, casado, ele diz que teve dias de profunda tristeza, vontade de não sair de casa, desejo de não falar com as pessoas, chorou sozinho e só trabalhava porque sabia que os pacientes precisavam de sua mão de obra.
“Eu estava acostumado com urgência e emergência de hospitais grandes. Mas tinha dias que eu via, 5 e até mais mortes que isso, seguidas. As pessoas não fazem ideia do que é isso. Era literalmente um cenário de guerra contra algo que a gente não sabia, não via, não tinha como combater se não fosse com as medidas de segurança. Eu tive dias bem ruins, mas não podia parar”.
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Outra preocupação dele era com a família. “A gente via colegas que um dia estava trabalhando com a gente e no outro estava internado, entubado e até morrendo. Eu ficava com medo de levar a doença para dentro de casa ou até não sobreviver, pensava nos meus filhos e minha esposa”. Daniel contraiu Covid, junto com a esposa, mas em estágio leve, não precisaram de cuidados hospitalares.
No fim deste ano ele planeja sair de Rondônia. Diz que vai voltar para terra dos pais dele, Minas Gerais, e se dedicar aos negócios da família: uma vinícola e produção de queijos artesanais. “Preciso de um tempo pra minha mente e decidi com minha esposa que é o último ano nosso por aqui”.
Lucas Ribeiro (fictício), 42 anos, é médico intensivista, atua desde o começo da pandemia na linha de frente. Cuidar de pacientes com Covid deixou nele sequelas: terror noturno, ansiedade, depressão.
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“Eu tenho sonhos com pessoas morrendo. Tenho crise de ansiedades mas tento controlar com remédios, respiro, vou lá fora do apartamento, ouço músicas, filmes, faço algo que possa ocupar a mente se não fico pensando coisas ruins”.
Lucas toma remédios controlados para insônia, mas as declarações dele causam preocupação. Com os olhos marejados ele afirma que, “eu pensei em desistir de tudo. Pensei em coisas ruins. Teve que dias que me isolei de tudo e todos, até faltei aos plantões e fiquei no quarto totalmente no escuro. Hoje é diferente, mas eu tinha medo de voltar para casa ou ir para o trabalho”.
Alguns profissionais como Lucas e Daniel, pediram para a reportagem preservar seus nomes não apenas com medo de sofrerem pressões externas, mas para evitar afastamento de suas funções em virtude dos traumas.
Caliope Barofaldi (nome verdadeiro) é médica no Hospital de Campanha de Rondônia em Porto Velho, desde que a unidade abriu. Ela diz que o apoio psicológico e emocional da família foi essencial para suportar muita coisa, inclusive ajudar a entender por que continuava na linha de frente.
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“A pandemia de uma forma geral mudou minha visão sobre a vida e sobre a morte. Mostrou pra mim como a vida é frágil e como as coisas podem simplesmente mudar de uma hora para outra. Mas eu me vi sim, muito triste e algumas vezes até desesperada por está vendo aquele cenário de muita gente morrendo. A minha rotina ficou muito extenuante, trabalhei mais horas do que eu imaginava trabalhar em um dia. Então, eu precisei muito contar com a compreensão e apoio da minha família. Acho que eles foram essenciais para eu conseguir até hoje continuar trabalhando no Covid”.
As dores de quem viu muita gente morrendo na primeira onda da Covid, se repetem em um segundo momento.
“Essa segunda onda acho que foi menos impactante, acho que a vacinação ajudou muita gente, mas continuamos recebendo muitos pacientes graves e que morrem, mesmo a gente fazendo todo o protocolo, fazendo todas as medidas necessárias, ainda perdemos muitas vidas e emocionalmente ficamos mais fragilizados. Não é fácil ter que consolar um familiar que perdeu alguém. Eu gravei vários nomes e a gente sempre fica triste com os pacientes que perde”.
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A médica diz que o sistema de saúde não entrou em colapso no retorno dos casos de covid, mas para continuar diminuindo as hospitalizações “precisa continuar imunização. A gente tem visto que muitos pacientes graves não têm se vacinado. A própria pessoa optou por não vacinar. Tem que esclarecer que a vacina previne as formas graves da doença para ter uma boa cobertura vacinal e diminuir os casos”.
O doutor Maxwendell Gomes Batista (nome verdadeiro), 37 anos, é clínico geral há sete anos, atua no hospital municipal Ana Adelaide, no Hospital de Campanha e trabalha como fisioterapeuta há 18 anos.
“Trabalho em UTI há 15 anos, então não me abalei emocionalmente, mas fiquei desgastado. Trabalhei no período mais crítico no ano passado por mais de 100 horas semanais. Isso desgasta muito”.
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Agora a situação é diferente. “A vacinação teve um impacto muito grande. Dos pacientes que entubei nessa nova onda, somente pacientes sem vacina evoluíram com piora ou com comorbidades importantes”, diz.
ESTUDO – Uma pesquisa divulgada nesta semana pela Fiocruz analisou o impacto da covid-19 nos mais de dois milhões de trabalhadores de nível técnico e auxiliares de saúde.
A conclusão é que 80% desses profissionais que atuam no enfrentamento à covid-19 sofrem estresse psicológico, ansiedade e esgotamento mental.
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Um outro estudo da Fiocruz mostra que nove pontos do país estão na zona de alerta crítico de ocupação de leitos de UTI.
Ou seja, com mais de 80% de ocupação. São eles: Tocantins, Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e o Distrito Federal. O DF, por sinal, vive a situação mais preocupante, com 99% de lotação.
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