Painel Rondônia

Pacientes choram, e ameaçam chamar polícia para conseguir médico em Porto Velho

Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Via Painel Político

Quarta-feira, 29 de abril de 2022. A equipe de reportagem do PAINEL POLÍTICO testemunhou o caos dos serviços públicos de saúde de Porto Velho (RO). “É um inferno”, foi o que ouvimos de pacientes traduzindo como funciona o Serviço Público de Saúde (SUS) em Rondônia. Afirmam que até nos planos de saúde, a situação dos doentes para conseguir médico é uma novela sem fim.

Passamos um total de 7 horas acompanhando o drama de pacientes que buscavam atendimentos na Policlínica Ana Adelaide, localizada no centro da Capital, no bairro Pedrinhas, que é considerada referência em serviços para a população.

A unidade de saúde é de responsabilidade administrativa da prefeitura de Porto Velho. Hildon Chaves (PSDB), o prefeito recebe recursos federais via Sistema Único de Saúde e tem por obrigação legal investir o dinheiro do cidadão na melhoria dos serviços.

Acontece que a rede de saúde pública, municipal e estadual permanece sufocada. No mesmo dia em que nossa reportagem acompanhava o drama dos pacientes em busca de atendimentos, todas as Unidades de Pronto Atendimento – UPAs, já não apresentavam condições de receber ninguém.

O Hospital Cosme e Damião foi interditado em razão também da falta de investimentos públicos e passou a receber apenas urgências e emergências. O poder público deixou de investir dinheiro na construção de novas unidades de saúde de referência capazes de oferecer saúde de qualidade. E a população no estado cresceu nos últimos anos, aumentando a demanda por especialidades médicas e atendimentos de alta e baixa complexidade.

Na quarta-feira (29), foi um dia quem muita gente procurou médico reclamando, entre outros problemas, sintomas de dengue. Inúmeros absurdos acontecem longe dos olhos de organizações que deveriam fiscalizar o patrimônio, como o Ministério Público.

São horas de esperar para chegar no médico (FOTO DO PAINEL POLÍTICO)

No Ana Adelaide, mulheres com crianças de colo, idosos convalescendo, adultos e jovens, se espremiam na espera por consultas e exames, enquanto havia apenas dois médicos para atender dezenas de pessoas.

Do lado de fora, na recepção da unidade de saúde havia poucas cadeiras para sentar. Quem chegava tinha que procurar lugar no chão sujo e fedido, ou nos corredores para descansar, enquanto aguardava ser chamado. Os mais fortes tinham que ficar em pé. Se chegam em carro próprio, o melhor lugar para ficar é dentro do veículo onde tem conforto, e até em cima das motocicletas ou bicicletas, onde tem lugar para descansar, enquanto espera.

A cada minuto, chegavam mais pessoas em busca de saúde. Ao mesmo tempo um painel de TV emite sons, alertando o público sobre as senhas e qual é a classificação de risco dos pacientes que vão passar pelas equipes de profissionais.

Na classificação de risco, o vermelho indica que o paciente necessita de atendimento imediato, portanto, é emergência; laranja é muito urgente, o paciente necessita de atendimento o mais prontamente possível; amarelo é urgente, o paciente necessita de atendimento priorizado mas pode esperar; verde indica pouco urgente, o paciente necessita de atendimento mas pode ser atendido no consultório pelo médico e a cor azul não é urgente, ou seja, o paciente poderá aguardar atendimento sem risco ou poderá ser encaminhado para ambulatório.

Até para os pacientes chegar na classificação de risco é demorado. O tempo de esperar pode levar um período inteiro do dia, se não houver médicos suficientes e a unidade de saúde tiver lotada.

RELATOS DE SOFRIMENTO – Os nomes que vamos mencionar aqui são fictícios, para preservar as pessoas, a pedido delas. Antônio Manoel do bairro Agenor de Carvalho, buscou atendimento no Ana Adelaide, depois que soube que todas as UPAS e hospitais estavam lotadas. Ele trabalha como segurança numa empresa privada. Sentia fortes dores no intestino e sangramentos. Saiu de lá, cansado de esperar e não consegui médico. Chegou na Políclínica por volta das 18h e só saiu perto das 23h. Ficou quase 7 horas aguardando. Disse que vai procurar ajuda da família para pagar médico e exame particular.

“O que a gente quer é ser atendido, fazer exames, ser curado e voltar pra casa para nossa família e continuar a trabalhar. Só isso. A gente paga por saúde, mas não temos saúde. Pagamos muitos impostos, mas quando precisamos não temos retorno. O que eu vejo aqui é que é mais fácil morrer procurando saúde, do que chegar no médico”, diz ele.

Um dos dois médicos que atendiam entre o fim de tarde e começo de noite daquele dia, apresentou atestado médico no meio do plantão. Os demais funcionários avisaram que só teria um profissional para atender apenas emergências e urgências. E quem quisesse podia esperar para passar pelo acolhimento ou procurar atendimento em outro local.

Ana de Lima, casada, mãe de duas crianças, trabalha como secretária administrativa. Ela viu seu pai passando mal em um leito, esperando por atendimento. Assustada corria de um lado para outro, sem saber o que fazer, chorando e ameaçando chamar polícia.

“Isso aqui é caso de polícia. Quando a gente precisa, não aparecer um político. Mas quando chega a eleição se humilham pela gente por votos”, desabafou.

Os pacientes dizem que não lembram quando ouviram falar que o Ministério Público, o prefeito, ou governador passaram por uma unidade de saúde do estado fiscalizando e conversando de verdade com os pacientes internos ou que aguardam atendimento. Também não recordam de quando houve aumento da estrutura de atendimento para a população como a compra de insumos médicos e hospitalares, ampliação da infraestrutura e contratação de médicos e demais profissionais.

“Isso aqui é um absurdo, um inferno e ninguém se importa com ninguém. E cada um por sí. Cadê o prefeito, os secretários, o governador? Cadê o Ministério Público?”, lembra Ana.

“Eu cheguei aqui com meu filho 1h da tarde. São mais de 6h horas e não fui atendida ainda. Ele tem dores na barriga, febre e vômito. Eu nem almocei. Gastei o que eu tinha com transporte, nem sei como vai ser pra comprar remédio se precisar. Mas vou esperar até ser atendida. Não tenho pra onde ir ou que fazer. E não vou deixar meu filho sofrendo em casa sem fazer nada”.

O relato é de Maria da Silva Nunes, perdeu o marido para Covid-19, no inicio da pandemia. O filho com 6 anos, que levou para Ana Adelaide, ela achava ter infecção intestinal ou dengue. Apresentava febre, dores pelo corpo, moleza, vômito e dores abdominais. A dona de casa é autônoma, sobrevive com ajuda da famílias e auxílios do governo federal. Mora no bairro Planalto 2.

As cenas relatadas nessa reportagem, descrevem a rotina diária da população que procura médico na Capital ou interior do estado. Enquanto a população sofre, políticos e gestores públicos, parecem no mínimo omissos e coniventes.

Sem lugar para sentar, pacientes esperam por atendimento médico, (FOTO DO PAINEL POLÍTICO)

The post Pacientes choram, e ameaçam chamar polícia para conseguir médico em Porto Velho appeared first on Blog do Painel Político.