Eleições 2026

Patrimônio de Mosquini salta 70% em oito anos e chega a R$ 7,1 milhões

Análise das declarações ao TSE revela que terras adquiridas em 2021 em Vale do Anari foram revalorizadas em até 74% em quatro anos, enquanto ativos empresariais e rebanho desapareceram das contas

Patrimônio de Mosquini salta 70% em oito anos e chega a R$ 7,1 milhões
📷 Billy Boss/Câmara dos Deputados
📋 Em resumo
  • Patrimônio de Lúcio Mosquini (MDB-RO) cresceu de R$ 4,1 milhões (2018) para R$ 7,1 milhões (2026), alta de 70,6% em oito anos
  • Três lotes rurais na Gleba 15, em Vale do Anari/RO, comprados em 2021 por R$ 2,4 milhões, foram revalorizados para R$ 3,8 milhões em 2026
  • Ativos empresariais (quotas e créditos de posto de combustíveis), rebanho bovino de 651 cabeças e depósitos bancários significativos deixaram de constar nas declarações
  • Imóveis urbanos em Jaru e fazendas Majaru em Theobroma e Ariquemes têm valores congelados desde a aquisição, há mais de uma década
  • Por que isso importa: A evolução patrimonial de parlamentares da bancada ruralista em região de fronteira agrícola e pressão fundiária levanta questões sobre critérios de valoração e movimentação de ativos entre mandatos
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Lúcio Mosquini (MDB-RO), deputado federal em seu terceiro mandato, declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um patrimônio de R$ 7.107.368,05 em 2026 — valor 70,6% superior aos R$ 4.167.059,89 declarados em 2018. A análise comparativa das três últimas declarações de bens revela um padrão de concentração em terras rurais, desaparecimento de ativos empresariais e revalorizações expressivas em glebas da região de Vale do Anari, no interior de Rondônia.

Como o patrimônio cresceu R$ 2,9 milhões em dois mandatos

A trajetória patrimonial de Mosquini mostra crescimento contínuo e acelerado ao longo de suas campanhas eleitorais. Em 2014, quando se elegeu pela primeira vez, declarou R$ 2.627.711,20 ao TSE. Quatro anos depois, já em 2018, o valor havia saltado para R$ 4.167.059,89 — alta de 58,8%. Em 2022, atingiu R$ 5.872.726,98. Agora, em 2026, chega a R$ 7.107.368,05.

O crescimento entre 2018 e 2022 foi de 40,9%. Nos últimos quatro anos, a curva desacelerou para 21%, mas o incremento absoluto ainda foi expressivo: R$ 1.234.641,07.

A aposta em Vale do Anari: três lotes que mais que dobraram de valor

O motor do crescimento patrimonial mais recente está concentrado em três lotes rurais localizados na Gleba 15, no município de Vale do Anari/RO, na região do Vale do Jamari. Os imóveis foram adquiridos em abril de 2021 e pela primeira vez declarados na prestação de contas de 2022:

Tabela comparativaTabela comparativa

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Juntos, os três lotes passaram de R$ 2.445.454,54 em 2022 para R$ 3.800.000,00 em 2026. Essa revalorização de R$ 1.354.545,46 — equivalente a 55,4% do ganho patrimonial total do período — ocorreu em apenas quatro anos, sem registro de novas aquisições ou benfeitorias declaradas.

O que desapareceu das declarações: rebanho, empresa e poupança

Enquanto terras em Vale do Anari ganhavam valor, outros ativos deixaram de figurar nas declarações de Mosquini. Em 2018, o deputado declarava 651 cabeças de bovinos avaliadas em R$ 400.000,00. Em 2022, o rebanho já não constava mais.

Também sumiram da relação as participações societárias na E.M. Comércio de Combustíveis Ltda (CNPJ 11.601.349/0001-03), que em 2018 somavam R$ 348.500,00 entre quotas de capital (R$ 148.500,00) e créditos a receber (R$ 200.000,00). A cooperativa de crédito SICOOB Centro (CNPJ 08.044.854/0001-81), com saldo de R$ 8.702,39, também deixou de ser declarada.

Os depósitos bancários sofreram redução drástica. Em 2018, Mosquini mantinha R$ 150.000,00 no Banco da Amazônia S/A (BASA) e R$ 18.000,00 na Caixa Econômica Federal. Em 2022, o saldo no BASA caiu para R$ 91.542,56 e novas contas foram abertas no Bradesco (R$ 4.798,96) e na CEF (R$ 2.660,39). Em 2026, os únicos registros bancários são residuais: R$ 902,48 na CEF. O dinheiro em espécie, que era de R$ 20.000,00 em 2018 e R$ 25.000,00 em 2022, também deixou de constar.

Fazendas Majaru e imóveis em Jaru: valores congelados há mais de uma década

Ao contrário da Gleba 15, outros ativos mantêm os mesmos valores declarados há anos — em alguns casos, desde a aquisição. A Fazenda Majaru, em Theobroma/RO, com 254,8174 hectares, é declarada por R$ 1.256.040,00 desde 2013. O lote complementar da mesma fazenda, em Ariquemes/RO, com 54,6727 alqueires, vale R$ 1.366.817,50 desde 2016.

Os lotes urbanos em Jaru/RO — município-base do deputado — também não tiveram reajuste. O lote 01 da quadra 08, setor 03, comprado em março de 2007 por R$ 56.000,00, mantém o mesmo valor em 2026. O lote 02 da mesma quadra, adquirido em outubro de 2007, idem. A residência no lote 12, quadra 08, setor 03 — na rua Rio de Janeiro, 2688 —, comprada em dezembro de 2007, segue avaliada em R$ 250.000,00. Lotes no Jardim Cidade Alta (R$ 25.000,00, 2012) e Jardim COOAJA (R$ 10.000,00, 2010) também estão congelados.

"A disparidade entre a revalorização de 74% em terras de Vale do Anari e o congelamento de valores em Jaru e Theobroma por mais de uma década chama atenção para os critérios adotados pelo declarador."

Ruralista, vice-líder do governo e autor do PL da Grilagem

Mosquini não é um parlamentar qualquer na pauta fundiária. É coordenador da Comissão de Direito de Propriedade da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e autor do PL 1730/2021, que retomou pontos do chamado "PL da Grilagem" — anistiando invasores de terras públicas e facilitando a titulação de grandes imóveis.

A carreira política do deputado começou no DER/RO e no Devop/RO, órgãos estaduais de infraestrutura, durante o governo de Confúcio Moura (MDB). Em 2014, foi preso na Operação Lundus sob acusação de envolvimento em licitação de R$ 22 milhões vencida por consórcio que incluía empresa onde trabalhava.

Em 2021, o jornal Estadão identificou um caso de superfaturamento no orçamento paralelo do governo federal: um trator avaliado em R$ 100 mil foi pago por R$ 359 mil a partir de emenda de Mosquini.

Frota e padrão de consumo: do rebanho aos utilitários

A frota do deputado também mudou de perfil. Em 2018, além do Chevrolet Cruze (R$ 80.000,00) e do Jeep Renegade (R$ 87.000,00), Mosquini declarava o rebanho bovino como ativo produtivo. Em 2022, o Renegade e o gado saíram; entraram um Toyota Yaris (R$ 85.000,00) e um Chevrolet Onix (R$ 82.510,55). Em 2026, o Yaris deixou a relação e foi incluído um Honda HR-V (R$ 170.000,00) — o veículo mais valioso já declarado pelo parlamentar.

O que os dados não explicam

A declaração de bens ao TSE é um instrumento de transparência, não de auditoria. Os valores são informados pelo próprio candidato e não passam por perícia contábil independente. A concentração de R$ 1,35 milhão de revalorização em três glebas de Vale do Anari — enquanto dezenas de outros ativos permanecem com valores de aquisição de 2007 a 2016 — levanta questões metodológicas, mas não configura, por si só, irregularidade.

O desaparecimento de ativos empresariais e do rebanho, por outro lado, pode refletir vendas, transferências ou simplesmente a não declaração de bens que deixaram de ser considerados relevantes pelo candidato. O TSE exige a declaração de bens acima de determinado limite, mas a omissão de itens previamente declarados não é automaticamente notificada.

O leitor deve prestar atenção em três sinais

Primeiro: a revalorização de terras em Vale do Anari ocorre em região de intensa pressão fundiária e desmatamento na Amazônia, área de interesse direto da FPA e do PL da Grilagem defendido por Mosquini. Segundo: a saída de ativos empresariais e bancários coincide com a entrada de terras, sugerindo uma reconfiguração do portfólio em direção à concentração em imóveis rurais. Terceiro: o crescimento de 70,6% em oito anos ocorre em um período em que a renda média dos brasileiros estagnou e a inflação corroeu poder aquisitivo.

"A evolução patrimonial de parlamentares da bancada ruralista em região de fronteira agrícola levanta questões sobre critérios de valoração e movimentação de ativos entre mandatos."

Se o critério for a valorização de mercado, por que apenas as terras de Vale do Anari foram atualizadas? Se o critério for o valor de aquisição, por que glebas compradas em 2021 já aparecem com valor 74% maior em 2026, enquanto lotes de Jaru comprados em 2007 seguem inalterados? O Painel Político seguirá acompanhando.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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