Painel Econômico

Petrobras anuncia alta de 19,2% no gás natural a partir de sexta

Reajuste impacta tarifas de gás canalizado e GNV em todo o país; Abegás projeta nova elevação de 35% em agosto e pede intervenção do governo para conter efeitos em cadeia

Petrobras anuncia alta de 19,2% no gás natural a partir de sexta
📷 Arquivo/Agência O Globo
📋 Em resumo
  • Petrobras eleva em 19,2% o preço do gás natural vendido às distribuidoras, com vigência a partir desta sexta-feira
  • - Reajuste afeta residências, comércio e postos de GNV, mas não incide sobre o gás de botijão (GLP)
  • - Abegás projeta possível alta de 35% no próximo ciclo de reajuste, em agosto, e cobra medidas federais de contenção
  • - Por que isso importa: o movimento pressiona custos de transporte, indústria e contas domésticas em um momento de atenção redobrada com inflação e políticas energéticas
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A Petrobras confirmou reajuste de 19,2% no preço do gás natural vendido às distribuidoras, com efeito imediato a partir desta sexta-feira. A medida, atrelada à variação do dólar, do petróleo Brent e do gás nos mercados internacionais, impacta diretamente as tarifas de gás canalizado para residências e comércios, além do gás natural veicular (GNV) comercializado em postos. A alta não alcança o gás liquefeito de petróleo (GLP), o popular botijão, que segue regras próprias de formação de preço.

Como se forma o preço do gás natural no Brasil

O reajuste anunciado segue contrato trimestral entre a Petrobras (Petróleo Brasileiro S.A.) e as empresas distribuidoras de gás. Entre fevereiro e abril, período de referência para o cálculo, o petróleo tipo Brent registrou alta de aproximadamente vinte e quatro vírgula três por cento, enquanto o câmbio teve apreciação de dois vírgula cinco por cento — ou seja, o real se valorizou ligeiramente frente ao dólar. Em contrapartida, o Henry Hub, principal referência de preço do gás natural nos Estados Unidos, recuou cerca de catorze vírgula um por cento.

"A gente não tem margem, não tem lastro para conseguir suportar um aumento dessa magnitude", afirma Marcelo Mendonça, diretor-executivo da Abegás (Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado).

A composição do preço final ao consumidor, contudo, vai além do valor da "molécula" vendida pela estatal. Entram na conta custos de transporte, margens operacionais das distribuidoras e, no caso do GNV, dos postos de revenda, além da incidência de tributos federais e estaduais. Essa estrutura em camadas significa que o impacto real na ponta pode variar significativamente entre regiões e perfis de consumo.

Contexto recente: de queda a alta em três meses

Em fevereiro, o mesmo mecanismo contratual resultou em redução de onze por cento no preço do gás natural repassado às distribuidoras. A oscilação trimestral reflete a exposição da fórmula de reajuste a commodities globais e à taxa de câmbio, tornando o setor sensível a movimentos externos — mesmo quando há queda em algum dos componentes, como ocorreu com o Henry Hub no período atual.

A Petrobras também anunciou, na mesma sexta-feira, elevação de dezoito por cento no preço do querosene de aviação (QAV) para o mês de maio. O movimento simultâneo em dois combustíveis estratégicos reforça a atenção do mercado sobre a política de preços da estatal em um cenário de volatilidade internacional.

Pressão sobre setores produtivos e contas domésticas

A alta do gás natural afeta cadeias produtivas que dependem do insumo como fonte de energia ou matéria-prima. Indústrias cerâmicas, de alimentos, têxteis e de geração termelétrica podem repassar parte do custo aos preços finais. No varejo, o GNV — alternativa econômica para frotas de táxi, aplicativos e transporte leve — tende a ter seu diferencial de custo reduzido frente à gasolina e ao etanol, o que pode alterar escolhas de abastecimento.

Para o consumidor residencial, o impacto varia conforme a participação do gás canalizado na matriz energética local. Em regiões com ampla cobertura de rede, como partes do Sudeste e do Centro-Oeste, a conta de gás pode subir de forma perceptível. Já em áreas onde o GLP ainda predomina, o efeito direto é nulo — embora pressões indiretas, via inflação geral, possam ocorrer.

Projeções para agosto acendem sinal de alerta

A Abegás estima que o próximo ciclo de reajuste, previsto para agosto, possa trazer alta de até trinta e cinco por cento no preço da molécula de gás. A projeção, caso se confirme, colocaria pressão adicional sobre um setor que já opera com margens apertadas e em um contexto macroeconômico de cautela com a trajetória da inflação."Quando você incentiva combustíveis concorrentes e, inclusive, mais poluentes que o gás natural, você acaba incentivando esses combustíveis", alerta Mendonça, em referência a políticas públicas que, na visão da associação, não equilibram adequadamente custos ambientais e econômicos.

A associação cobra do governo federal medidas para atenuar os impactos, nos moldes do que foi feito recentemente com diesel, GLP e QAV. A discussão toca em um ponto sensível da governança energética: como equilibrar a sustentabilidade financeira da Petrobras, a proteção ao consumidor e as metas de transição para fontes menos intensivas em carbono.

O que observar nos próximos meses

Três variáveis serão decisivas para o próximo ciclo de reajustes: a trajetória do petróleo Brent, a evolução do câmbio real-dólar e o comportamento do Henry Hub. Além disso, eventuais mudanças na política de preços da Petrobras ou intervenções regulatórias por parte da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) podem alterar o cenário projetado.

Para o leitor que acompanha os bastidores do poder, o tema merece atenção não apenas pelo impacto econômico imediato, mas como termômetro das tensões entre autonomia empresarial da estatal, pressão política por contenção de preços e compromissos de longo prazo com a descarbonização.

Versão em áudio disponível no topo do post

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