PF investiga versão falsa sobre R$ 430 mil de Sóstenes Cavalcante em nova fase da Operação Rent a Car
A Polícia Federal cumpre mandados contra advogados ligados ao deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) para apurar se foi construída uma justificativa falsa para o dinheiro vivo encontrado em endereço do parlamentar, em meio a suspeitas de desvio de cota parlamentar
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- PF deflagra nova fase da Operação Rent a Car (Galho Fraco II) e investiga suposta versão falsa sobre origem de R$ 430 mil em espécie
- Advogados ligados a Sóstenes Cavalcante são alvos de buscas no DF, GO e MG; parlamentar não é alvo desta etapa
- Investigação inclui possível fraude processual e ocultação de provas em esquema de desvio via contratos de locação de veículos
- Escritura da venda de imóvel usada na justificativa foi registrada 11 dias após a apreensão
- Por que isso importa: O caso expõe fragilidades na fiscalização de verbas parlamentares e levanta questões sobre transparência na declaração de patrimônio de parlamentares.
A Polícia Federal (PF) apura se o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL na Câmara, e aliados construíram uma versão falsa para justificar a origem de cerca de R$ 430 mil em dinheiro vivo apreendidos em endereço ligado a ele durante investigação sobre suposto desvio de cota parlamentar.
Nesta fase da operação, batizada de Galho Fraco II (terceira da série Rent a Car), advogados ligados ao parlamentar foram alvos de mandados de busca e apreensão autorizados pelo Supremo Tribunal Federal. As diligências ocorreram no Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais. Sóstenes Cavalcante não é alvo direto desta etapa, embora tenha sido alvo de buscas em dezembro de 2025.
“Uma dessas pessoas (alvos da operação) foi o comprador do imóvel. Nenhum dos alvos é meu advogado. Podem fazer operação à vontade, quem não deve não teme”, afirmou o deputado, segundo apuração.
A justificativa do dinheiro e as suspeitas da PF
Em dezembro de 2025, durante a fase anterior (Operação Galho Fraco), agentes encontraram os R$ 430 mil em espécie dentro de um saco de lixo guardado no armário de um flat alugado por Sóstenes em Brasília. O parlamentar justificou a quantia como proveniente da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG).
Ele declarou à época: “O valor encontrado é oriundo de contrato limpo, venda de um imóvel. Quem quer viver de dinheiro de corrupção não mantém dinheiro lacrado. É dinheiro lícito. Eu vendi um imóvel e recebi em dinheiro lacrado, é declarado em meu Imposto de Renda”.
A PF agora investiga se houve construção de narrativa posterior para dar aparência de legalidade ao montante, incluindo possíveis tentativas de ocultação ou alteração de provas — o que pode configurar fraude processual. Os crimes apurados incluem peculato, lavagem de dinheiro, fraude processual e organização criminosa.
Detalhes da transação imobiliária
O GLOBO revelou em janeiro de 2026 que a escritura da venda do imóvel só foi registrada em cartório em 30 de dezembro de 2025, 11 dias após a operação da PF. O imóvel havia sido adquirido por Sóstenes em fevereiro de 2023 por R$ 310 mil e foi vendido por R$ 500 mil a um advogado cujo escritório fica a menos de 500 metros da propriedade.
Na escritura, registrada pela plataforma e-notariado (sem necessidade de presença física em cartório), consta que o pagamento integral em espécie ocorreu em 24 de novembro de 2025 — cerca de um mês antes da apreensão. O deputado e o comprador confirmam que o contrato foi celebrado nessa data, embora o registro formal tenha ocorrido após a ação policial.
Em declaração ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2022, Sóstenes informou patrimônio de apenas R$ 4.926,76.
Contexto da investigação sobre cotas parlamentares
A operação como um todo investiga suposto esquema de desvio de recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap) por meio de contratos simulados de locação de veículos. As fases anteriores identificaram irregularidades envolvendo gabinetes de Sóstenes Cavalcante e do deputado Carlos Jordy (PL-RJ).
A nova etapa aprofunda a análise da movimentação e destinação desses recursos, com foco na versão apresentada sobre o dinheiro em espécie.
Sóstenes Cavalcante nega irregularidades no uso da Ceap e afirma que o caso busca desviar o foco: “Querem pegar um carro alugado e um dinheiro de imóvel para desviar o foco da população. Eu vou até o fim, eu não temo investigações”.
Relevância para o controle de verbas públicas
O caso coloca em evidência os desafios de fiscalização da Ceap — verba pública destinada a despesas parlamentares como passagens, hospedagem e serviços, mas frequentemente alvo de questionamentos sobre transparência e prestação de contas.
A demora no registro da escritura e o baixo patrimônio declarado anteriormente alimentam as dúvidas que a PF busca esclarecer com as novas diligências. O material apreendido passará por perícia, e a investigação continua em curso.
A Operação Galho Fraco II reforça o padrão de ações progressivas da PF em casos de suposto desvio de recursos públicos por parlamentares. Se confirmadas as suspeitas de fraude processual, o episódio pode ter impactos não apenas para o deputado, mas para o debate mais amplo sobre integridade e accountability no Congresso Nacional.
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