Por que a federação de Rueda e Ciro abandonou Flávio Bolsonaro?
Desgaste com Ciro Nogueira, prisão de Canella e pressão de deputados do Nordeste levam federação a optar pela neutralidade; PP-SP, porém, mantém apoio para fortalecer Derrite ao Senado
📋 Em resumo ▾
- A federação União Progressista (União Brasil + Progressistas) não deve apoiar nacionalmente a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
- A decisão foi influenciada por desgastes pessoais entre Flávio e dirigentes das legendas, além de pressão de lideranças estaduais pela neutralidade.
- O PP-SP, no entanto, manterá apoio a Flávio para fortalecer a candidatura de Guilherme Derrite ao Senado.
- Em 2026, estarão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado, e a fragmentação do bolsonarismo pode impactar chapas estaduais.
- Por que isso importa: A decisão escancara a dificuldade de Flávio Bolsonaro em construir uma coalizão nacional coesa, revelando tensões entre ambições presidenciais e interesses regionais.
A federação formada por União Brasil e Progressistas — batizada de União Progressista — caminha para não apoiar a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. A decisão, ainda não formalizada, reflete um cálculo político complexo onde desgastes pessoais, pressão de lideranças estaduais e interesses regionais se sobrepõem à ambição de construir uma chapa nacional coesa em torno do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Sem aliança nacional, a tendência é que os diretórios estaduais das legendas tenham liberdade para apoiar o candidato que considerarem mais conveniente em cada estado. A fragmentação, nesse caso, não é exceção — é a regra.
O desgaste com Ciro Nogueira e o silêncio de Flávio
O primeiro vetor de ruptura veio do Progressistas. O presidente da legenda, senador Ciro Nogueira (PI), passou a demonstrar insatisfação com a postura de Flávio Bolsonaro desde maio deste ano, quando foi alvo da Polícia Federal na investigação envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro.
Ciro esperava uma manifestação pública de Flávio em sua defesa. O silêncio não passou despercebido. Antes do desgaste, a hipótese de Ciro Nogueira compor como vice em uma chapa encabeçada por Flávio chegou a ser considerada. Agora, não apenas o vice foi descartado, como o próprio apoio nacional está em risco.
"Quando um pré-candidato à Presidência não se manifesta publicamente em defesa do presidente de um partido que integra sua base, ele envia um sinal claro: a lealdade é unilateral."
A prisão de Canella e o incômodo de Rueda
O segundo vetor de ruptura veio do União Brasil. Nesta semana, o presidente da legenda, Antonio Rueda, passou a demonstrar incômodo após a prisão do ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União), pré-candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro e aliado de Flávio.
Canella foi preso na quarta-feira (8), após um fuzil ser encontrado no porta-malas de seu carro durante a 6ª fase da Operação Unha e Carne. Em depoimento à Polícia Federal, ele afirmou que o fuzil era utilizado por um policial militar que integra sua equipe de segurança. Segundo a investigação, no entanto, o ex-prefeito não apresentou provas que comprovassem essa versão.
Integrantes do União Brasil afirmam que esperavam uma manifestação pública de apoio de Flávio Bolsonaro sobre o episódio. O silêncio, novamente, foi a resposta.
A pressão regional e o cálculo eleitoral
Além dos desgastes pessoais, os presidentes dos partidos receberam, desde o início do ano, pedidos de filiados para que a federação mantivesse neutralidade na disputa presidencial. O principal argumento é regional: deputados, especialmente do Nordeste, avaliam que um apoio formal a Flávio poderia prejudicar candidaturas locais em estados onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém forte apoio eleitoral.
A lógica é implacável: em política, o mandato de deputado federal vale mais que a ambição presidencial de um aliado. Quando o custo de apoiar Flávio é perder cadeiras no Congresso, a federação opta pela neutralidade.
"A federação não abandonou Flávio por ideologia. Abandonou porque o cálculo eleitoral mostrou que o custo de apoiá-lo é maior que o benefício."
A exceção paulista: Derrite e o Senado
Apesar da decisão de não embarcar nacionalmente na campanha de Flávio Bolsonaro, o Progressistas de São Paulo vai apoiar o pré-candidato. Integrantes do PP avaliam que o apoio ao bolsonarista é importante para fortalecer a pré-candidatura do secretário estadual da Segurança Pública, Guilherme Derrite (PP), ao Senado.
Na avaliação de dirigentes da legenda, enquanto o pré-candidato do PL ao Senado em São Paulo, André do Prado, conta com o apoio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), caberia a Flávio concentrar esforços para impulsionar a candidatura de Derrite.
A manobra é um exemplo de como interesses estaduais podem se sobrepor à estratégia nacional. Em São Paulo, o PP calcula que apoiar Flávio é a melhor forma de garantir uma cadeira no Senado. Em outros estados, o cálculo é oposto.
O cenário do Senado e a fragmentação bolsonarista
Em 2026, estarão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado — o equivalente a dois terços da Casa. Cada um dos 26 estados e o Distrito Federal elegerá dois senadores para mandatos de oito anos. A magnitude da renovação torna a disputa particularmente competitiva.
Uma pesquisa Datafolha divulgada na segunda-feira (6) mostra Simone Tebet (MDB) e Marina Silva (PSB) tecnicamente empatadas na disputa pelas duas vagas ao Senado por São Paulo, com 18% e 16% das intenções de voto, respectivamente. Marina também aparece em empate técnico com Ricardo Salles (Novo), que tem 13%.
Na sequência aparecem André do Prado (PL), com 11% das intenções de voto, e Guilherme Derrite (PP), com 10%. A proximidade entre os números mostra que a disputa está aberta, e o apoio de Flávio pode ser decisivo para Derrite ultrapassar o concorrente do próprio aliado.
O que vem pela frente
A decisão da federação União Progressista é um sintoma de um problema maior: a dificuldade de Flávio Bolsonaro em construir uma coalizão nacional coesa. Os desgastes pessoais com Ciro Nogueira e Antonio Rueda, somados à pressão regional pela neutralidade, revelam que a ambição presidencial esbarra na realidade fragmentada do sistema partidário brasileiro.
A liberdade concedida aos diretórios estaduais para definir apoios locais é, na prática, uma confissão de derrota da estratégia nacional. Flávio Bolsonaro terá que construir sua campanha estado por estado, sem o guarda-chuva de uma federação partidária.
O preço dessa fragmentação pode ser alto. Em 2026, a disputa ao Senado será particularmente competitiva, e a ausência de uma estratégia nacional coesa pode resultar em chapas descoordenadas, candidaturas conflitantes e perda de vagas no Congresso.
A pergunta que fica não é se Flávio Bolsonaro vai conseguir se eleger sem o apoio da federação. A pergunta é se ele vai conseguir construir uma coalizão alternativa que não dependa da boa vontade de dirigentes que ele não soube cultivar. A política, afinal, é feita de relações. E relações, quando negligenciadas, cobram seu preço nas urnas.
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