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Operação Unha e Carne: a lavagem de R$ 7,6 bi em postos do RJ

A 6ª fase mira ex-secretário de Polícia Civil, ex-prefeito e miliciano; esquema usava rede de postos para lavar dinheiro e movimentou bilhões

Operação Unha e Carne: a lavagem de R$ 7,6 bi em postos do RJ
📷 Ana Paula Jaume / CBN
📋 Em resumo
  • A Polícia Federal deflagrou a 6ª fase da Operação Unha e Carne contra esquema de lavagem de R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis.
  • Entre os alvos estão o ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim, o ex-prefeito Márcio Canella e o inspetor Pablo Russo.
  • A investigação aponta que policiais usavam laranjas para controlar mais de 80 empresas e ocultar patrimônio milionário.
  • A ação integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, que também mira a conexão entre a contravenção e o Legislativo fluminense.
  • Por que isso importa: O esquema expõe a simbiose entre o aparato policial, a política partidária e o crime organizado na lavagem de dinheiro no Rio.
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A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta terça-feira a sexta fase da Operação Unha e Carne, mirando um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou R$ 7,6 bilhões em seis anos. A ofensiva atinge a cúpula da segurança pública, políticos e milicianos no Rio de Janeiro, escancarando a fusão entre o Estado e o crime.

A engrenagem dos postos e os R$ 7,6 bilhões do Coaf

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mapeou a movimentação bilionária. A rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio servia como fachada para a lavagem de dinheiro de uma organização criminosa.

A ação criminosa contava com a participação de agentes públicos. Ao todo, a PF cumpre 19 mandados de busca e apreensão, além de determinar o sequestro de bens e a suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo.

Os investigados respondem por organização criminosa, contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro. A PF aponta que o esquema utilizava "laranjas" para ocultar o verdadeiro patrimônio dos operadores.

"Quando um inspetor de polícia ganha R$ 9 mil líquidos, mas controla uma rede de 80 empresas de combustíveis via laranjas, o Estado não está apenas falhando; ele foi sequestrado."

O aparato policial a serviço da lavagem

Entre os alvos está o delegado Marcus Amim (ex-secretário de Polícia Civil do Rio). Ele comandou a pasta entre 2023 e 2024 e, antes disso, presidiu o Detran-RJ, levando consigo uma equipe de confiança.

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Um desses nomes é o inspetor Pablo Jukiá Felix Ferreira (inspetor da Polícia Civil). Conhecido como Pablo Russo, ele ingressou na corporação em 2003 e atualmente ganha cerca de R$ 9,6 mil líquidos mensais.

O contraste salarial é gritante. Levantamentos da PF indicam que o policial é o dono oculto de uma vasta rede de postos. O esquema societário envolve mais de 80 empresas registradas em nome de seus parentes.

A Corregedoria-Geral da Polícia Civil instaurou inquérito disciplinar para apurar os fatos. Em nota, a instituição informou que "acompanha o caso de perto e reafirma que não compactua com eventuais desvios de conduta". A corporação acrescentou que "mantém mecanismos de controle interno" e que seu "compromisso é com a legalidade e a transparência".

A conexão política e a milícia na Baixada

A operação também mira Márcio Canella (ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil). Ele renunciou ao cargo no início do ano para concorrer ao Senado com apoio do PL.

Canella foi levado para depor na Superintendência da PF no Rio. Oito carros foram apreendidos durante a ação. A trajetória política dele inclui mandatos de vereador e deputado estadual.

O quarto alvo de destaque é Juracy Alves Prudêncio (ex-PM), conhecido como Jura. Ele é acusado de chefiar o "Bonde do Jura", uma milícia que atuava na Baixada Fluminense.

Jura já foi condenado a mais de 20 anos por homicídio e associação criminosa. O grupo ameaçava autoridades, incluindo o então deputado Marcelo Freixo, durante a CPI das Milícias.

"A Operação Unha e Carne não investiga apenas crimes financeiros; ela dissecou a metástase do crime organizado que se instalou nos gabinetes, nas delegacias e nas câmaras municipais."

A Missão Redentor e o cerco institucional

A ação desta terça-feira integra a Força-Tarefa Missão Redentor II. A iniciativa é coordenada pela PF para desarticular organizações criminosas no Rio, seguindo diretrizes do Supremo Tribunal Federal (STF) na ADPF 635 (ADPF das Favelas).

O cerco é contínuo. Na quinta-feira passada, a PF realizou a quinta fase da operação. O foco foi a nova cúpula do jogo do bicho e os repasses a integrantes dos poderes Executivo e Legislativo.

Naquela ocasião, foram alvos o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar (ex-presidente da Alerj) e o contraventor Adilsinho (contraventor), ambos já presos. O pastor Márcio Poncio (pastor) também foi alvo.

A quinta fase foi motivada por listas apreendidas na cabeceira da cama de Adilsinho. Os documentos apontavam repasses diretos a pelo menos 20 políticos fluminenses, configurando uma suposta compra de favores.

O abismo da normalização

A Missão Redentor avança e o cerco institucional se fecha sobre as estruturas que sustentam o crime organizado no Rio de Janeiro. A conexão entre a lavagem de dinheiro em postos de gasolina, a contravenção e a política partidária revela um Estado que virou sócio do submundo.

A pergunta que fica é quantos outros "postos de gasolina" no Rio são, na verdade, fachadas para a engrenagem de lavar o dinheiro que financia o poder paralelo. A história do Rio mostra que a cada milícia desarticulada, outra surge; a cada posto fechado, um novo CNPJ é aberto. O desafio do Brasil não é apenas prender os operadores do esquema, mas sobreviver à normalização de um Estado capturado.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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