Por que Costa Marques pode mudar o mapa logístico do Brasil?
Enquanto a Bolívia avança na preparação logística, Rondônia articula nos bastidores do FORDETRO uma estratégia para transformar a BR-429 em eixo de exportação rumo ao Pacífico
📋 Em resumo ▾
- FORDETRO, fórum criado pela Assembleia Legislativa de Rondônia, consolidou articulações entre setor produtivo, governo e lideranças bolivianas
- Costa Marques deixa de ser ponto periférico e emerge como nó estratégico na integração Brasil-Bolívia
- Enquanto o lado boliviano já executa obras de preparação rodoviária no Beni, o Brasil debate investimentos na BR-429
- Exportadores de Rondônia veem na rota uma alternativa para reduzir custos e tempo até portos do Pacífico
- Por que isso importa: a definição de prioridades logísticas nos próximos 24 meses pode determinar qual estado liderará o fluxo comercial sul-americano
Nos bastidores do poder em Rondônia, uma articulação silenciosa ganha contorno estratégico: transformar Costa Marques (município fronteiriço de Rondônia) em peça central de um corredor bioceânico que conectaria o agronegócio do Centro-Oeste brasileiro a portos do Pacífico. A movimentação, conduzida a partir do FORDETRO (Fórum Permanente de Desenvolvimento Estratégico de Rondônia), reúne empresários, parlamentares e autoridades bolivianas em torno de um objetivo comum: posicionar a BR-429 como eixo logístico internacional.
A estratégia que nasce no Parlamento estadual
O fórum, vinculado diretamente à presidência da Assembleia Legislativa de Rondônia e liderado politicamente pelo deputado Alex Redano (Republicanos), foi criado após demanda do próprio setor produtivo por um espaço permanente de diagnóstico e proposição. Em sua primeira edição, realizada em Ji-Paraná em maio de 2026, o FORDETRO trouxe painéis sobre a "Nova Rota Econômica de Rondônia" e o papel estratégico de municípios fronteiriços como Guajará-Mirim e Costa Marques.
A avaliação interna é de que Rondônia vive uma janela de oportunidade semelhante à que transformou estados do Centro-Oeste nas últimas décadas: a consolidação de corredores de exportação eficientes pode reposicionar economicamente todo o Norte do país.
"O Vale do Guaporé deixou de ser fim de linha. Agora pode virar porta de entrada para o Pacífico."
O lado boliviano já está em movimento
Enquanto Rondônia estrutura seu debate institucional, informações de interlocutores do setor produtivo indicam que o departamento do Beni, na Bolívia, já iniciou trabalhos de encascalhamento e preparação de trechos rodoviários que integrarão o futuro corredor. O governador boliviano Alejandro Unzueta participou de audiência pública em Costa Marques em outubro de 2025, onde defendeu a urgência da integração bilateral.
A presença de lideranças como o deputado Sathiel Casanovas (presidente da Brigada Parlamentar del Beni) e o empresário Mauricio Paz B. (diretor da OFIACAT) nas articulações reforça que o projeto transcendeu o campo diplomático e entrou na fase de execução logística.
BR-429: de rodovia regional a eixo internacional
A BR-429, que liga Presidente Médici a Costa Marques às margens do Rio Guaporé, tem 339 quilômetros e atravessa uma região de forte produção agropecuária. Em 2022, o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) concluiu revitalização em 11 quilômetros do trecho, com microrrevestimento e sinalização. Contudo, para operar como corredor de exportação, a rodovia exigirá investimentos estruturantes muito mais amplos: recuperação de pavimento, fortalecimento da fiscalização aduaneira e modernização dos acessos fronteiriços.
Parlamentares ligados ao setor produtivo já discutem, de forma reservada, estratégias para pressionar o Governo Federal por esses investimentos. A percepção é que a janela para captar recursos e definir prioridades é curta: outros estados da região também pleiteiam protagonismo nas novas rotas sul-americanas.
O protagonismo de Costa Marques
Historicamente distante do centro decisório estadual, Costa Marques passa a ocupar posição geopolítica relevante. O prefeito Dr. Fabiomar Agostini Bento integrou as discussões institucionais sobre preparação regional para um novo ciclo logístico. A cidade abriga o Forte Príncipe da Beira, patrimônio histórico, e está às margens do Rio Guaporé, fronteira natural com a Bolívia.
A proposta em debate prevê, inicialmente, uma travessia por balsa com fiscalização aduaneira sazonal, evoluindo para uma ponte alfandegada conforme a demanda crescer. O desembaraço de cargas poderia ser realizado em Ji-Paraná numa fase inicial, até a implantação de estrutura aduaneira local.
O que está em jogo para o agronegócio
Rondônia exportou mais de US$ 2,6 bilhões em produtos do agro em 2024, com destaque para carne bovina, soja e milho. Para esses produtores, uma rota direta ao Pacífico significaria redução de custos de frete e tempo de trânsito em comparação aos corredores tradicionais que passam pelo Sudeste ou pela Cordilheira dos Andes.
Empresários de Mato Grosso também acompanham as articulações, enxergando no eixo Costa Marques–Beni uma alternativa logística real para futuras exportações. A integração, se consolidada, poderia beneficiar toda a cadeia produtiva do Centro-Oeste brasileiro.
Um momento decisivo para Rondônia
Dentro do FORDETRO, a percepção predominante é clara: ou Rondônia assume protagonismo na integração sul-americana agora, ou corre o risco de assistir a outros estados ocuparem o espaço logístico que começa a se desenhar no continente. A definição de prioridades de investimento nos próximos 24 meses será determinante.
A pergunta que fica nos bastidores é estratégica: enquanto se debate o modelo ideal de integração, quem estará pronto para operar quando a demanda do mercado exigir? A resposta pode definir não apenas o futuro de Costa Marques, mas o posicionamento de todo o Norte do Brasil no mapa do comércio global.
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