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Projeto Panamá: a IA que destruiu milhões de livros para aprender

Documentos judiciais revelam que a empresa de IA comprou, cortou e triturou milhões de livros — muitos raros — para treinar o Claude. Um juiz chamou a prática de uso legítimo

Projeto Panamá: a IA que destruiu milhões de livros para aprender
📷 LearningLark/flickr/creative commons
📋 Em resumo
  • A Anthropic, dona da IA Claude, manteve entre 2024 e 2025 uma operação interna batizada de "Projeto Panamá" para escanear destrutivamente livros físicos — cortando lombadas e triturando páginas após a digitalização.
  • Documento interno desselado em julho de 2026 definia o objetivo como "escanear destrutivamente todos os livros do mundo" e pedia sigilo: "não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso".
  • A empresa buscava obras impressas anteriores à era da internet para ensinar a IA a "escrever bem", em vez de imitar o "texto de baixa qualidade" da web.
  • Em agosto de 2025, a Anthropic aceitou pagar US$ 1,5 bilhão para encerrar uma ação de autores — mas por causa dos livros piratas, não dos comprados e destruídos, que a Justiça americana considerou uso legítimo.
  • Por que isso importa: a decisão judicial transformou "comprar e destruir livro raro" numa estratégia legalmente incentivada, e disparou um mercado global de compra em massa que já assusta livreiros na Europa e na Oceania.
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Entre o início de 2024 e meados de 2025, máquinas hidráulicas em galpões nos Estados Unidos cortaram as lombadas de milhões de livros para que scanners industriais digitalizassem cada página, uma a uma. O papel restante virou resíduo, enviado à reciclagem. A operação tinha um nome interno — Projeto Panamá — e um objetivo declarado em documento da própria empresa: "escanear destrutivamente todos os livros do mundo". A responsável era a Anthropic, uma das maiores companhias de inteligência artificial do mundo, criadora do assistente Claude.

O documento que a empresa não queria que fosse lido

A existência do projeto só veio a público porque um juiz federal decidiu, no fim de julho de 2026, tornar públicas mais de 4.000 páginas de documentos de um processo por direitos autorais. Entre elas estava um plano interno cuja frase de abertura não deixa margem para interpretação jornalística: era, nas palavras da própria Anthropic, o esforço para digitalizar de forma destrutiva todos os livros do mundo. O mesmo documento trazia uma recomendação explícita aos funcionários: não queriam que se soubesse do trabalho. A reconstrução da operação foi publicada primeiro pelo jornal norte-americano The Washington Post, em 27 de janeiro de 2026, e ampliada por novas revelações em julho.

"Não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso." — trecho do documento interno de planejamento do Projeto Panamá, citado nos autos.

Por que livros de papel, e não a internet?

A lógica por trás da operação é o ponto mais revelador. Segundo os documentos, executivos da Anthropic buscavam livros anteriores à era digital porque queriam ensinar o Claude a "escrever bem", em vez de imitar o "texto de baixa qualidade" da internet. Havia ainda uma preocupação técnica concreta: o chamado colapso de modelo — a degradação que ocorre quando uma IA passa a treinar sobre conteúdo gerado por outras IAs, contaminando o próprio aprendizado. Livros oferecem o que a web cada vez menos garante: enormes volumes de texto escrito e editado por humanos, ainda não poluído por conteúdo sintético.

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Para obtê-los, a empresa comprou dezenas de milhares de exemplares de cada vez de fornecedores como a Better World Books e a britânica World of Books, e terceirizou o corte e a digitalização. Um dos fornecedores registrou que a Anthropic buscava um parceiro capaz de "converter de 500 mil a dois milhões de livros num período de seis meses".

A distinção jurídica que mudou tudo

Aqui está o nó que todo leitor precisa entender. Em junho de 2025, o juiz William Alsup, do Tribunal Distrital do Norte da Califórnia, fez uma distinção decisiva: usar livros comprados legalmente para treinar uma IA constitui fair use (uso legítimo) sob a lei americana, por ser uma transformação do conteúdo. Já usar livros piratas — baixados de bibliotecas-sombra como a LibGen — não. Foi por essa segunda conduta, a pirataria de mais de 7 milhões de obras, que a Anthropic aceitou em agosto de 2025 pagar US$ 1,5 bilhão para encerrar a ação coletiva movida pelos autores Andrea Bartz, Charles Graeber e Kirk Wallace Johnson — o maior acordo por direitos autorais já registrado, cobrindo cerca de 500 mil obras.

Ou seja: comprar o livro e destruí-lo depois de escanear é legal. Piratear é que custou o bilhão e meio. A empresa reforça essa leitura. Em nota, a vice-conselheira jurídica da Anthropic, Aparna Sridhar, afirmou ao Washington Post que a decisão de 2025 continua de pé e que "a questão que resolvemos no acordo era sobre como alguns materiais foram adquiridos, não sobre se podíamos usá-los para desenvolver [IA]".

Comprar e triturar um livro raro é uso legítimo. Piratear é que custou US$ 1,5 bilhão. A lei premiou o método mais destrutivo.

O mercado que a decisão criou

O efeito colateral já é sentido fora dos tribunais. Como comprar virou a rota "segura", instalou-se um mercado global de aquisição em massa de livros usados e raros — e livreiros de vários países relatam encomendas anômalas. Um antiquário holandês achou que um pedido de mais de 3.000 exemplares fosse spam ou tentativa de golpe. Na Espanha, na Alemanha e na Nova Zelândia, livreiros descreveram o mesmo padrão: um cliente estrangeiro, pedidos em janelas de minutos, pagamento adiantado e frete que ninguém questiona. A Associação Alemã de Editores e Livreiros classificou a prática como reprovável, ressalvando não saber sua real extensão. Parte do circuito envolve empresas que estocam títulos em galpões europeus antes de despachá-los para escaneamento destrutivo nos EUA e no Canadá.

O ponto sensível é que, uma vez triturada, uma obra rara e fora de catálogo não tem reposição — e a cópia digital resultante é privada: não é pesquisável, não fica em biblioteca, não é acessível a autores ou leitores. Diferentemente do Google Books, que gerou um índice público, o corpus do Projeto Panamá serve a um único fim comercial e fechado.

Contexto: por que um leitor brasileiro deveria se importar

A disputa não é exclusiva da Anthropic. Meta, OpenAI, Google e Microsoft enfrentam ações semelhantes de autores, e vários escritores que ficaram de fora do acordo mantêm processos individuais. O que está em jogo é o precedente: a primeira grande definição sobre o que significa "uso legítimo" na era da IA saiu favorável ao método de comprar, escanear e descartar. Como litígios sobre IA e direito autoral começam a chegar ao Judiciário brasileiro e à pauta do Congresso, o parâmetro firmado nos EUA tende a ser citado — a favor e contra — nas discussões que definirão como obras de autores brasileiros poderão ser usadas para treinar modelos.

A defesa do método repousa sobre uma premissa frágil: a de que a cópia digital basta. Mas arquivo digital depende de energia, de formato que não se torne obsoleto, de um servidor que alguém decida manter ligado e de uma empresa que continue existindo e escolhendo preservar. O exemplar de papel atravessou séculos justamente porque não dependia de ninguém decidir mantê-lo vivo a cada instante. A lição que Alexandria deixou não foi sobre fogo — foi sobre redundância. O Projeto Panamá caminha na direção oposta: consolida a memória escrita num único ponto, privado e fechado, e destrói o original no processo. A pergunta que fica não é se perdemos um texto hoje. É quem passou a decidir, a portas fechadas e por critério de custo, quais objetos da cultura humana merecem sobreviver — e num mundo sem o digital, o que restaria.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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