Protestos na Bolívia pressionam Rodrigo Paz por renúncia
Seis meses após assumir, presidente enfrenta bloqueios, escassez e coalizão multissetorial que transformou revolta agrária em crise de governabilidade
📋 Em resumo ▾
- Protestos multissetoriais paralisam a Bolívia com mais de 60 bloqueios rodoviários e exigem a renúncia de Rodrigo Paz
- Revogação da polêmica Lei de
- Terras não conteve a mobilização, que ampliou pautas para salário, combustível e modelo econômico
- Crise cambial, inflação de 14% e desabastecimento formam o pano de fundo da insatisfação popular
- Governo acusa Evo Morales de incitar violência; movimentos negam e denunciam repressão policial
- Por que isso importa: a instabilidade na Bolívia afeta cadeias regionais de suprimentos e testa a resiliência democrática na América do Sul
Seis meses após assumir a presidência, Rodrigo Paz (presidente da Bolívia) enfrenta a maior crise de governabilidade de seu mandato. Nesta segunda-feira (18), 23 bloqueios rodoviários mantinham a pressão pela sua renúncia, com escassez de alimentos e combustíveis em La Paz. O que começou como reação a uma lei fundiária converteu-se em revolta popular multissetorial.
Do recuo na lei de terras à exigência de renúncia
O estopim foi a promulgação da Lei 1.720, que permitia usar terras comunais como garantia bancária. Para camponeses e indígenas, a medida abria caminho para o endividamento em massa e a transferência de terras ancestrais a grandes players do agronegócio. A reação foi imediata: marchas de 24 dias, bloqueios estratégicos e pressão nas ruas.
Paz revogou a lei em 13 de maio, mas o gesto não bastou. A revogação foi lida pelas bases como sinal de fragilidade, não de diálogo. A pauta se ampliou: agora, exige-se a saída do presidente, reajuste salarial de 20% e fim das medidas de austeridade.
"De forma violenta e criminosa o governo interveio na mobilização do povo deixando como saldo falecidos, feridos e detidos", afirmou a Confederação Nacional de Mulheres "Bartolina Sisa" em nota pública.
Quem está nas ruas e o que querem
A coalizão que paralisa o país é diversa: mineiros, professores, transportadores, indígenas e a Central Operária Boliviana (COB). Os mineiros, historicamente vanguarda das lutas sociais bolivianas, levaram dinamites e confrontos ao centro de La Paz. A COB rejeitou proposta de mesa de diálogo por considerar a oferta tardia e marcou um cabildo aberto para definir próximos passos.
As demandas são concretas: fim da escassez de diesel e gasolina, controle da inflação (projetada em 14% para 2026), garantia de insumos para produção e proteção contra privatizações no setor extrativo. Para os manifestantes, o modelo de abertura ao mercado aprofundou uma crise cambial sem precedentes, com falta de dólares e desabastecimento crônico. 
Protestos pela renúncia do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz. Foto: Central Obrera Boliviana/Divulgação
Governo acusa, movimentos denunciam: a disputa pela narrativa
O porta-voz da Presidência, José Luis Gálvez, acusou grupos ligados ao ex-presidente Evo Morales de incitar violência e usar armas em protestos. "Qualquer pessoa que possua ou porte dinamite ou qualquer coisa que possa ferir outra pessoa será presa", declarou em comunicado oficial.
Morales rebateu nas redes: "Acusam de conspiração quem se levanta contra os opressores. Os eternos golpistas têm a audácia de clamar que a democracia está em risco". A Defensoria Pública da Bolívia registrou, no fim de semana, 47 prisões e cinco feridos em confrontos em El Alto, além de denúncias de assassinatos de manifestantes ainda em apuração.
"Não nos vão curvar na luta que travamos; estão querendo nos calar como liderança com ações populares e processos penais", afirmou Mario Argollo, secretário-executivo da COB.
O que está em jogo além das fronteiras
A instabilidade na Bolívia não é apenas um assunto interno. O país é elo estratégico em cadeias regionais de suprimentos. Bloqueios prolongados afetam o fluxo de insumos para países vizinhos e pressionam preços de commodities. Além disso, a crise testa a capacidade de instituições democráticas de mediar conflitos em um contexto de polarização e fragilidade econômica.
Para analistas, o recuo na lei de terras mostrou que a articulação popular mantém poder de veto. Mas a exigência de renúncia eleva a aposta: ou o governo constrói uma agenda de emergência com participação social, ou o impasse tende a se prolongar com custos políticos e econômicos crescentes.
A pergunta que fica não é apenas se Rodrigo Paz resistirá, mas como a Bolívia reencontrará um pacto mínimo de governabilidade sem sacrificar direitos históricos de suas maiorias. Enquanto isso, as estradas seguem fechadas — e o relógio da crise, correndo.
Versão em áudio disponível no topo do post.