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Compliance Zero: seis meses da maior fraude bancária do Brasil

Operação da PF revela esquema bilionário, conexões políticas e pressão sobre o sistema financeiro. Entenda os desdobramentos e o que vem pela frente

Compliance Zero: seis meses da maior fraude bancária do Brasil
📷 EBC
📋 Em resumo
  • Operação Compliance Zero completa seis meses com seis fases e 21 prisões decretadas
  • Esquema do Banco Master envolve políticos, servidores do BC e agentes da PF
  • FGC já desembolsou R$ 49,5 bilhões para ressarcir clientes das instituições intervenidas
  • Áudios de Flávio Bolsonaro reacendem debate sobre financiamento político e influência
  • Por que isso importa: o caso testa a resistência das instituições e a credibilidade do sistema financeiro nacional.
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A Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), completa seis meses nesta segunda-feira (18) expondo o que pode ser a maior fraude contra o Sistema Financeiro Nacional já registrada no país. Sob investigação, o banqueiro Daniel Vorcaro (proprietário do Banco Master) e uma rede que inclui políticos, diretores do Banco Central (BC) e agentes federais. O prejuízo potencial chega a dezenas de bilhões de dólares.

O cronograma de uma apuração sem precedentes

Deflagrada em 18 de novembro de 2025, a operação começou com a prisão de Vorcaro e outros seis investigados, incluindo o ex-CEO do Master, Augusto Ferreira Lima. A PF apurava a "fabricação de carteiras de crédito sem lastro financeiro" — títulos vendidos ao Banco de Brasília (BRB) e substituídos após fiscalização do BC, sem avaliação técnica adequada.

"A Turma", como Vorcaro se referia ao grupo, era chefiada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário".

Desde então, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou 21 prisões — temporárias ou preventivas — e 116 mandados de busca e apreensão. Bens próximos a R$ 27,71 bilhões foram bloqueados ou sequestrados. As ações ocorreram em sete unidades da Federação: Bahia, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Distrito Federal.

A segunda fase, em janeiro, ampliou o alcance: 42 mandados judiciais e bloqueio de mais de R$ 5,7 bilhões. Alvos incluíram o empresário Nelson Tanure e o ex-presidente da Reag Investimentos, João Carlos Mansur. O pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi detido ao tentar embarcar para os Emirados Árabes.

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A teia política e a blindagem institucional

A terceira fase, em março, trouxe revelações perturbadoras: mensagens no celular de Vorcaro indicavam planos para simular um assalto contra o jornalista Lauro Jardim (O Globo) e ações violentas contra ex-empregados. Mourão, o "Sicário", foi encontrado morto na cela após tentativa de suicídio, segundo a PF.

Na quarta etapa, em abril, a mira recaiu sobre agentes públicos. O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa (PHC), e o advogado Daniel Monteiro foram presos preventivamente. A PF aponta que Costa teria combinado receber R$ 146,5 milhões em propina via imóveis — valor parcialmente pago, segundo as investigações.

A quinta fase, em maio, atingiu o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do partido e ex-ministro do governo Jair Bolsonaro. Ele é suspeito de atuar politicamente em favor de Vorcaro em troca de vantagens mensais entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além de custeio de viagens e despesas.

Em agosto de 2024, Nogueira apresentou acréscimo à PEC nº 65/2023 que ampliaria a garantia do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão — texto conhecido como "Emenda Master", supostamente redigido por assessores do Banco Master.

O primo de Vorcaro, Felipe Cançado Vorcaro, operador financeiro do esquema, foi preso temporariamente após escapar de uma ação anterior em Trancoso (BA).

O custo para o sistema e o papel do FGC

Até o momento, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) gastou aproximadamente R$ 49,5 bilhões para ressarcir clientes do Grupo Master, Will Bank e Banco Pleno. Mantido por contribuições obrigatórias das instituições financeiras, o fundo garante pagamento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em caso de intervenção ou liquidação pelo BC.

A liquidação extrajudicial de instituições do conglomerado Master — incluindo Master de Investimento, Letsbank, Master Corretora de Câmbio, Will Financeira e Banco Pleno — foi oficializada pelo BC, que também decretou indisponibilidade de bens dos controladores e ex-administradores.

A sexta fase, em 14 de maio, cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão. Entre os alvos, Henrique Vorcaro (pai de Daniel), apontado como partícipe da gestão de "A Turma", e o policial federal Anderson da Silva Lima, suspeito de vazar dados sigilosos de investigações.

O capítulo Dark Horse e a zona cinzenta do financiamento

Na última semana, o portal The Intercept Brasil revelou gravações em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, pede recursos a Vorcaro para a cinebiografia de Jair Bolsonaro, intitulada Dark Horse. O senador admitiu a veracidade dos áudios, mas negou irregularidades, afirmando que os valores foram usados integralmente na produção.

Segundo as reportagens, o banqueiro teria acordado destinar R$ 134 milhões à obra, com ao menos R$ 61 milhões efetivamente liberados. Parlamentares de diferentes espectros pedem apuração da origem e do uso dos recursos.

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro afirmou que o orçamento do filme "não é caro para os padrões de Hollywood", citando o diretor estadunidense Cyrus Nowrasteh e o elenco internacional, incluindo Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro.

O que o caso revela sobre o momento institucional

A Operação Compliance Zero não é apenas um caso policial. É um teste de estresse para as instituições brasileiras. A exposição de conexões entre poder econômico, político e aparelhos de Estado levanta questões sobre a eficácia dos mecanismos de controle e a permeabilidade do sistema a influências ilegítimas.

O fato de diretores do BC e agentes da PF figurarem nas investigações exige resposta institucional à altura: transparência, celeridade processual e independência funcional. Do contrário, a percepção de impunidade pode corroer a confiança no sistema financeiro e na própria democracia.

Enquanto o Judiciário avança com prisões e bloqueios, o Congresso precisa refletir sobre propostas como a "Emenda Master": ampliar garantias do FGC sem lastro técnico pode transferir para a sociedade o custo de riscos privados. Quem paga a conta, no fim, é sempre o contribuinte.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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