Painel Rondônia

PT quer cassação de Eduardo Bolsonaro por permanência nos EUA

Partido acusa deputado de se esconder da Justiça brasileira e articulações contra o STF

Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn
Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

O Partido dos Trabalhadores (PT) intensificou sua ofensiva contra o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ao anunciar que pedirá a cassação de seu mandato.

A legenda alega que o parlamentar, que decidiu se licenciar do cargo e permanecer nos Estados Unidos, estaria tentando "se esconder da Justiça brasileira" enquanto articula ações contra o Supremo Tribunal Federal (STF) junto a autoridades norte-americanas. A informação foi confirmada pelo secretário de Relações Internacionais do PT, Romênio Pereira, em entrevista à CartaCapital nesta terça-feira, 18 de março.

A decisão de Eduardo de se afastar do mandato e fixar residência nos EUA ocorre em um momento de crescente pressão judicial sobre ele e sua família. Recentemente, os deputados petistas Lindbergh Farias (RJ) e Rogério Correia (MG) apresentaram uma notícia-crime ao STF solicitando a apreensão do passaporte do parlamentar e a abertura de uma investigação por suposta articulação internacional contra o Judiciário brasileiro.

Segundo o PT, Eduardo estaria colaborando com congressistas americanos para pressionar o STF, especialmente o ministro Alexandre de Moraes, responsável por investigações que envolvem a família Bolsonaro, como os inquéritos sobre a tentativa de golpe de Estado em 2022 e os atos de 8 de janeiro de 2023.

"Ele talvez já esteja querendo abrir um caminho para se esconder da Justiça brasileira nos Estados Unidos", afirmou Romênio Pereira. "Uma situação não só dele, mas de outras pessoas da família." O dirigente petista sugere que a estratégia de Eduardo reflete um padrão de comportamento dos Bolsonaro, que enfrentam múltiplos processos no Brasil.

Contexto da licença e atuação nos EUA

Eduardo Bolsonaro anunciou nesta terça-feira, 18, que não pretende retornar ao Brasil tão cedo, justificando sua permanência nos EUA como uma busca por apoio internacional para "punir quem viola direitos humanos no Brasil". Em suas redes sociais, ele mencionou explicitamente Alexandre de Moraes, acusando o ministro de ações autoritárias. Durante sua estadia nos EUA, que já ultrapassa 15 dias, Eduardo tem se reunido com figuras da extrema-direita americana, incluindo aliados do presidente Donald Trump, que reassumiu o poder em janeiro de 2025.

De acordo com reportagem do Correio Braziliense publicada em 27 de fevereiro de 2025, o PT já havia acionado a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Comissão de Ética da Câmara dos Deputados contra Eduardo, acusando-o de "crime de lesa-pátria" por suas articulações nos EUA.

Um exemplo concreto citado pelo partido é a aprovação, em 26 de fevereiro, de um projeto de lei pela Comissão de Justiça da Câmara norte-americana que visa barrar a entrada nos EUA de autoridades estrangeiras acusadas de violar direitos de liberdade de expressão — uma medida interpretada como uma retaliação direta a Moraes, que já foi alvo de críticas por decisões como o bloqueio temporário da plataforma X no Brasil.

A proposta, intitulada "Sem Censores em Nosso Território", ainda aguarda votação no plenário do Congresso americano. Aliados de Bolsonaro, como o deputado republicano que lidera o texto, esperam que ela dificulte a atuação internacional de Moraes, uma figura central nas investigações contra o bolsonarismo.

Repercussão e substituição na Câmara

A licença de Eduardo Bolsonaro abre espaço para a posse temporária de José Olímpio, missionário evangélico e ex-deputado federal pelo PL-SP, que assumirá a vaga enquanto o titular estiver afastado.

Segundo a CartaCapital, Olímpio, de 68 anos, já ocupou cargos legislativos em São Paulo e Itu, além de ter sido deputado federal entre 2011 e 2019. A substituição ocorre porque o primeiro suplente do PL em São Paulo, Adilson Barroso, já está em exercício, ocupando a vaga de Guilherme Derrite, atual secretário de Segurança Pública do estado.

A decisão de Eduardo gerou reações imediatas nas redes sociais. Usuários no X, como @jfhenrico3, afirmaram que o deputado "fugiu da Justiça brasileira" para evitar uma possível prisão ordenada por Moraes, enquanto @rosamst_ ironizou o "patriotismo" do parlamentar ao abandonar o mandato. Apesar da ausência de confirmação oficial sobre uma ordem de prisão, o clima de tensão entre o bolsonarismo e o Judiciário alimenta especulações.

Implicações políticas e jurídicas

Analistas políticos ouvidos pelo G1 avaliam que a saída de Eduardo do Brasil pode ser uma tentativa de escapar de processos iminentes. Além das investigações relacionadas ao golpe, ele também é alvo de ações por declarações polêmicas, como o deboche à tortura sofrida pela jornalista Miriam Leitão durante a ditadura militar, que motivou pedidos de cassação por PSOL, Rede e PT em 2022. Na época, o Conselho de Ética da Câmara não avançou com as representações, mas o caso segue como um precedente contra o deputado.

Para o PT, a permanência de Eduardo nos EUA é mais do que uma fuga: é uma ameaça à soberania nacional. "Ele está articulando contra os interesses do Brasil", declarou Lindbergh Farias em fevereiro, conforme noticiado pelo Correio Braziliense. O partido agora busca pressionar a Câmara a agir, embora a cassação dependa de um processo complexo no Conselho de Ética, que historicamente tem sido lento em casos envolvendo figuras de destaque.

Enquanto isso, a família Bolsonaro enfrenta outros desafios judiciais. Jair Bolsonaro, inelegível até 2030, é investigado por crimes como peculato e lavagem de dinheiro no caso das joias recebidas de autoridades estrangeiras, conforme relatório da Polícia Federal enviado ao STF em 2024. A possibilidade de Eduardo buscar refúgio nos EUA reacende debates sobre acordos de extradição e a capacidade do Brasil de responsabilizar figuras públicas que deixam o país em meio a processos.

O que vem pela frente

A estratégia de Eduardo Bolsonaro de se estabelecer nos EUA, onde mantém laços com a extrema-direita e já é sócio de uma empresa chamada Braz Global Holding LLC (segundo o UOL, desde maio de 2023), levanta questões sobre seu futuro político e jurídico. Por enquanto, o PT promete manter a pressão, enquanto aliados do deputado, como o senador Flávio Bolsonaro, criticam o que chamam de "perseguição" do STF.

À medida que o caso evolui, o Brasil acompanha um novo capítulo na polarização entre o Judiciário e o bolsonarismo, agora com um componente internacional. Resta saber se a Justiça brasileira conseguirá alcançar Eduardo além das fronteiras — ou se ele, como sugerem seus detratores, encontrará nos EUA um abrigo temporário contra as consequências de suas ações.