Quem responde pelo rombo do BRB? Governadora do DF tenta se distanciar de Ibaneis e aponta corrupção de ex-presidente
Em entrevista ao Estadão, Celina Leão (PP) classifica a gestão de Paulo Henrique Costa como "fraudulenta", descarta privatização do banco e aposta em solução antes das eleições — enquanto tenta construir um muro de separação entre seu governo e o legado de Ibaneis Rocha
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- A governadora Celina Leão (PP-DF) classificou o Banco de Brasília (BRB) como vítima de uma "gestão fraudulenta" comandada pelo ex-presidente da instituição, Paulo Henrique Costa, preso em 16 de abril pela quarta fase da Operação Compliance Zero.
- Segundo a Polícia Federal, Costa recebeu R$ 146,5 milhões em propinado banqueiro Daniel Vorcaro,dono do Banco Master,por meio da transferências de imóveis de luxo — sendo que cerca de R$ 74 milhões já foram rastreados pelos investigadores.
- A contrapartida seria a aquisição pelo BRB de carteiras de crédito consideradas fraudulentas do Banco Master, com prejuízo já documentado de ao menos R$ 12,2 bilhões.
- Celina negou veementemente qualquer participação nas negociações, afirmou que nunca foi consultada pelo ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) sobre o tema e descartou a privatização do banco, prometendo resolver a crise antes das eleições de outubro.
- Por que isso importa: o caso BRB/Master é hoje o maior escândalo de corrupção financeira envolvendo um banco estatal brasileiro em anos, e a forma como Celina Leão administra o desdobramento político pode definir não apenas o futuro da instituição, mas também a viabilidade eleitoral do PP no Distrito Federal e a própria aliança com Ibaneis Rocha, hoje candidato ao Senado.
O Banco de Brasília (BRB) vive o pior momento de sua história. Em menos de seis meses, a instituição financeira controlada pelo governo do Distrito Federal passou de símbolo de solidez pública a epicentro da maior operação de combate à corrupção financeira do país em 2026. A governadora Celina Leão (PP), que assumiu o Palácio do Buriti em abril de 2025 após a renúncia de Ibaneis Rocha (MDB) para disputar uma vaga no Senado, concedeu entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo na qual tenta traçar uma linha de contenção entre seu governo e o escândalo que já provoca prejuízo documentado de ao menos R$ 12,2 bilhões. A entrevista revela uma estratégia clara: transformar o BRB em vítima, o ex-presidente Paulo Henrique Costa em algoz isolado, e o ex-governador Ibaneis em um ator distante das irregularidades — tudo enquanto o governo distrital busca um aporte financeiro urgente para evitar o colapso da instituição antes das eleições gerais de outubro.
Como o esquema funcionava, segundo a Polícia Federal
A quarta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 16 de abril de 2026, desmontou o que investigadores consideram uma engrenagem ilícita de alta sofisticação. De acordo com decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou as prisões, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa teria combinado com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, o recebimento de vantagens indevidas estimadas em R$ 146,5 milhões. O pagamento não se deu por transferências bancárias tradicionais. A Polícia Federal rastreou, até o momento, a movimentação de seis imóveis de alto padrão — quatro em São Paulo e dois em Brasília —, com valores já confirmados superiores a R$ 74 milhões. Os imóveis, segundo investigações, estavam vinculados a um "cronograma pessoal" de Costa, com nomenclaturas como Heritage, Arbórea, One Sixty, Casa Lafer, Ennius Muniz e Valle dos Ipês. A contrapartida, apontada pelos investigadores, era a utilização de recursos do BRB para a compra de carteiras de crédito fictícias do Banco Master. A operação apura ainda a atuação do advogado Daniel Monteiro, preso na mesma fase e apontado como testa de ferro de Costa, que teria recebido pessoalmente R$ 86,1 milhões em proveito ilegal ."O que aconteceu com o BRB foi a gestão do ex-presidente. Uma gestão fraudulenta. No momento em que você recebe algum tipo de vantagem para fazer ações prejudiciais ao banco, é uma ação criminosa", afirmou Celina Leão ao Estadão. A defesa de Paulo Henrique Costa, representada pelo advogado Cleber Lopes, nega as acusações e contesta a necessidade da prisão preventiva. Em nota à imprensa, Lopes afirmou que seu cliente "não cometeu crime algum" e não representa perigo à instrução processual .
"Ele confundiu banqueiro com bancário": o retrato pessoal de Celina
A governadora não economizou adjetivos para descrever o ex-dirigente. Em um dos trechos de maior impacto da entrevista, Celina Leão construiu um perfil psicológico de Costa que mistura vaidade, desconexão com a realidade do serviço público e ambição desmedida — elementos que, na sua análise, teriam sido combustíveis para o esquema."Era vaidoso demais, um homem muito ligado ao status", disse a governadora. "Eu acho que ele confundiu a figura do que é ser banqueiro do que é ser bancário. Foi mais ou menos nisso que ele se perdeu." A fala não é retórica vazia. Celina afirmou que já havia alertado Ibaneis Rocha, ainda em 2025, sobre a necessidade de afastar Costa. "Eu já havia avisado no ano passado da saída dele para o governador Ibaneis. Falei que a primeira pessoa que eu iria retirar do governo seria ele", relatou. Segundo ela, a "loucura" de Costa teria sido acelerada pela certeza de que seria removida do BRB: "Ele tinha certeza que eu ia tirá-lo e saiu correndo para continuar no controle do banco. "O relato, se confirmado por outros interlocutores, sugere que a fraude pode ter sido acelerada não apenas pela ganância, mas pela pressão de um cronograma político interno — um elemento que reforça a tese de Celina de que o BRB foi instrumentalizado por um gestor, não por uma política institucional de governo.
A blindagem de Ibaneis e o problema do "dois CPFs"
O ponto mais delicado da entrevista — e o de maior implicação eleitoral — é a tentativa de Celina Leão de desvincular seu governo de Ibaneis Rocha sem romper publicamente a aliança. A estratégia verbal é cirúrgica: ela reconhece que o ex-governador foi "muito enfático" na defesa da compra do Banco Master pelo BRB, mas atribui a insistência a argumentos técnicos apresentados por Paulo Henrique Costa."O argumento dele era que o Paulo Henrique dizia que o BRB seria um grande banco nacional. A defesa sempre foi técnica", afirmou Celina. Sobre a eventual responsabilidade de Ibaneis, foi taxativa: "Qualquer antecipação de juízo de valor sobre isso é prematuro. Até agora não teve nenhuma situação de vantagem financeira a ele." A governadora foi além. Ao responder sobre a acusação recorrente da oposição de que "gestão Ibaneis é gestão Celina", ela recorreu a uma comparação nacional para se legitimar: "Você nunca ouviu ninguém falar governo Lula e Alckmin. Você não fala em outro Estado governo Caiado e o nome do vice." E completou com uma frase que sintetiza sua estratégia de defesa: "São dois CPFs totalmente diferentes, o meu CPF e o CPF do governador Ibaneis, cada um tem um." O problema para Celina é que a oposição não precisa provar culpa para causar desgaste — basta manter a associação viva até outubro. A menção, ainda assim, a um suposto vínculo do escândalo com o PT no Planalto ("o escândalo do Caso Master está dentro do coração do PT no Planalto") revela que a governadora pretende nacionalizar o debate e transferir parte do fogo para a origem histórica do Banco Master, uma tática arriscada que pode tanto desviar o ataque quanto ampliar o alcance da crise.
O futuro do BRB: aporte, ajuste fiscal e a promessa de normalidade
Além do campo jurídico, Celina Leão precisa resolver um problema concreto: o BRB precisa de capital, e o governo do Distrito Federal não tem folga orçamentária para socorrê-lo sozinho. A governadora afirmou que o aporte seguirá o planejamento entregue ao Banco Central e que a situação será resolvida "bem antes" das eleições, mas descartou categoricamente a privatização. "Não há possibilidade nenhuma. Estamos fazendo todos os esforços possíveis. O BRB é um banco sólido, que tem um nome nacional e o respeito dos bancos S1", afirmou. Ela destacou que o BRB mantém transações ativas com instituições privadas de grande porte, o que, na sua avaliação, demonstra que o mercado ainda confia na recuperação da instituição.Sobre o socorro do governo federal, a resposta foi um misto de realismo e recado político: "O governo não se posicionou e nós não estamos aguardando nenhuma ajuda do governo federal." Celina acrescentou que, se o BRB dependesse de bancos públicos federais, "já teríamos fechado as portas". A declaração posiciona o governo distrital como autônomo, mas também expõe a fragilidade de uma administração que precisa negociar com bancos privados para salvar uma estatal.
O cenário fiscal do Distrito Federal é igualmente desafiador. Celina admitiu um "déficit financeiro alto" e anunciou um ajuste de 5% a 10% sobre o orçamento de R$ 74 bilhões. As medidas incluem corte de contratos de aluguel, redução de frota e a criação de uma secretaria exclusiva de governança digital. A área da saúde, segundo ela, será poupada e até ampliada, mas outras pastas podem sofrer reduções de até 80%.
Os cinco pontos que definem a crise
Para entender o momento atual, é preciso ter clareza sobre os elementos estruturais do caso:
- A propina imobiliária: R146,5milho~esemseisimoˊveisdeluxo,comR 74 milhões já rastreados, constituem o principal elo de corrupção apontado pela PF.
- O mecanismo da fraude: Aquisição de carteiras de crédito falsas do Banco Master pelo BRB, com prejuízo inicialmente documentado em R$ 12,2 bilhões.
- A prisão de abril: A quarta fase da Operação Compliance Zero prendeu Paulo Henrique Costa e seu suposto testa de ferro, Daniel Monteiro, com base em decisão do STF.
- A descoberta do esquema: Vorcaro teria interrompido os pagamentos a Costa em maio de 2025 após tomar conhecimento de investigação sigilosa — informação que, segundo a PF, lhe foi repassada por um funcionário via WhatsApp .
- O impasse político: Celina tenta separar seu governo do legado de Ibaneis enquanto administra um buraco fiscal que exige ajuste de bilhões e a confiança do mercado financeiro.
O que está em jogo além do BRB
A entrevista de Celina Leão ao Estadão é, acima de tudo, um documento político. Ela revela uma governadora em campanha de contenção de danos, tentando salvar um banco, um aliado eleitoral e sua própria viabilidade ao mesmo tempo. A tese de que o BRB foi vítima, e não cúmplice institucional, é o pilar sobre o qual ela constrói sua defesa. Mas a pergunta que permanece no ar é se o eleitorado do Distrito Federal — e o mercado — comprarão a narrativa de que uma fraude de R$ 12 bilhões foi obra de um único homem "vaidoso demais".Enquanto isso, a Justiça segue seu curso. Delações de Paulo Henrique Costa e de Daniel Vorcaro estão em curso, e novas fases da Operação Compliance Zero são esperadas. O que Celina Leão não pode controlar é o que essas delações dirão sobre quem, afinal, autorizou, acompanhou ou ignorou as operações que levaram o BRB ao buraco. E nesse jogo, "dois CPFs diferentes" pode não ser argumento suficiente."Quer entender se houve coisa errada? É só seguir o dinheiro", disse a própria governadora. A frase, dita para se defender, pode ser a que melhor define o desfecho que ela mais teme.
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