Raízen: credores perto de controlar 80% da empresa
Acordo de reestruturação entra em fase final com conversão de dívida em ações e possível mudança no comando da joint venture entre Shell e Cosan
📋 Em resumo ▾
- Raízen negocia converter 45% de dívida de R$ 65 bi em ações, o que daria aos credores quase 80% do controle
- Aporte de R$ 500 milhões de Rubens Ometto segue em xeque;
- Shell comprometeu R$ 3,5 bi
- Empresa busca homologação de acordo na Justiça até início de junho para evitar recuperação judicial
- Cenário pós-IPO: de valuation de R$ 76 bi em 2021 a penny stock com prejuízo de R$ 15,65 bi
- Por que isso importa: o desfecho pode redefinir o controle de uma das maiores players de energia renovável do país e impactar o mercado de crédito corporativo.
A Raízen (RAIZ4), joint venture entre Shell e Cosan, caminha para um acordo de reestruturação que pode transferir o controle acionário da companhia para credores, em meio a um processo de recuperação extrajudicial protocolado em março. A proposta em discussão prevê a conversão de 45% da dívida — cerca de R$ 29 bilhões — em ações, o que resultaria na participação de quase 80% do capital votante nas mãos de detentores de títulos.
O desenho da reestruturação em reta final
As negociações avançam com um plano que inclui, além da conversão de dívida, uma capitalização de R$ 3,5 bilhões pela Shell e, potencialmente, um aporte de R$ 500 milhões do empresário Rubens Ometto, co-controlador e presidente do conselho da Raízen. No entanto, a continuidade de Ometto no processo de aumento de capital segue em discussão, com sua ausência sendo uma das opções consideradas por parte dos credores.
"A proposta de aporte segue de pé independentemente da minha continuidade no comando do conselho", afirmou Rubens Ometto.
O plano também prevê a divisão da Raízen em duas companhias distintas: uma focada na produção de etanol e outra voltada para a distribuição de combustíveis. Paralelamente, está programada para o primeiro trimestre de 2027 a eleição de um novo conselho de administração, com a criação de um cargo de diretor de reestruturação (CRO).
Por que a recuperação extrajudicial, e não a judicial?
A Raízen optou pela recuperação extrajudicial para renegociar suas dívidas diretamente com credores, sem intervenção imediata do Poder Judiciário. O modelo tende a ser mais ágil, menos burocrático e menos oneroso que a recuperação judicial, desde que haja consenso entre as partes.
A intenção da companhia é levar um plano para homologação na Justiça no início de junho, quando se encerra o prazo legal de 90 dias. A avaliação interna é de que a migração para a recuperação judicial seria o pior cenário para todos os envolvidos, com riscos de desvalorização adicional de ativos e prolongamento da incerteza institucional.
Do IPO ao colapso: a trajetória de uma tese ESG em xeque
A Raízen estreou na bolsa em agosto de 2021, no auge do apetite por ativos ESG, com valuation de R$ 76 bilhões e a promessa de liderar a transição para combustíveis verdes, impulsionada pelo etanol de segunda geração (E2G). Na prática, a tese encontrou obstáculos: arrefecimento do interesse global por investimentos sustentáveis, avanço do etanol de milho — alternativa mais barata e escalável — e pressão nos preços de açúcar e etanol.
Quase cinco anos depois, a joint venture perdeu valor de mercado de forma acentuada, com suas ações negociando na casa dos centavos, característica de penny stocks. Paralelamente, acumulou dívida bilionária após ciclo agressivo de aquisições e expansão de ativos.
"O cenário desencadeou rumores, negociações e promessas de aporte que se arrastaram por semanas até o protocolo da recuperação extrajudicial".
Na tentativa de reverter a trajetória, a Raízen iniciou, no fim de 2024, um processo de reestruturação que incluiu troca no comando executivo, com a chegada de Nelson Gomes ao cargo de CEO. Até fevereiro de 2026, a companhia havia levantado cerca de US$ 5 bilhões com desinvestimentos. Porém, no terceiro trimestre da safra 2025/2026, reportou prejuízo de R$ 15,65 bilhões. A dívida líquida saltou de R$ 38,6 bilhões para R$ 55,3 bilhões no período, e a alavancagem (dívida líquida/Ebitda) passou de 3 vezes para 5,3 vezes.
As propostas e contrapropostas dos credores
O início da recuperação extrajudicial abriu espaço para uma série de movimentos. Em abril, credores rejeitaram a primeira proposta de conversão de 45% da dívida em ações. Dias depois, apresentaram contraproposta exigindo 90% de participação na empresa em troca da mesma conversão.
Bancos credores, por sua vez, sugeriram que 30% dos recursos obtidos com vendas de ativos na Argentina fossem direcionados à redução da dívida. Entre as exigências recorrentes: a saída de Rubens Ometto da presidência do conselho — ponto que segue em negociação.
Em 28 de abril, um grupo de detentores de títulos de renda fixa contratou a consultoria Journey Capital e o escritório Felsberg Advogados para representá-los no processo. O grupo concentra cerca de R$ 14 bilhões em títulos emitidos pela Raízen.
O que está em jogo para o mercado e para o Brasil
O desfecho da reestruturação da Raízen transcende os interesses acionários imediatos. A companhia é um dos principais players na produção de etanol e bioenergia no país, com impactos diretos na matriz energética, na cadeia do agronegócio e na credibilidade do mercado de crédito corporativo brasileiro.
A exclusão da Raízen do Ibovespa e de outros índices da bolsa já reflete a percepção de risco elevada. A forma como Shell, Cosan, credores e gestão conduzirem o acordo pode estabelecer precedentes para futuras reestruturações de grande porte no Brasil.
"A recuperação extrajudicial é uma corrida contra o tempo: ou há consenso até junho, ou o Judiciário passa a ditar o ritmo".
A Raízen, procurada para comentar, informou que não se manifestará sobre o assunto enquanto as negociações estiverem em andamento.
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