Raízen: credores propõem novo plano para dívida de R$ 65 bi
Bancos pedem uso de 30% da venda de ativos na Argentina e substituição de Rubens Ometto; acordo precisa ser fechado até junho para evitar falência
📋 Em resumo ▾
- Credores bancários apresentaram proposta determinando que 30% da receita da venda de ativos argentinos da Raízen seja usada para amortizar dívidas
- Bancos e detentores de títulos pedem a substituição de Rubens Ometto (fundador da Cosan) da presidência do Conselho de Administração da Raízen
- Raízen propôs ceder até 70% das ações ordinárias; credores pedem até 90% de participação em troca de converter 45% da dívida
- Shell comprometeu-se com injeção de R$ 3,5 bilhões e Ometto com R$ 500 milhões; detentores de títulos solicitam aporte adicional de R$ 8 bilhões
- Por que isso importa: O prazo legal para acordo extrajudicial é 6 de junho de 2026 — sem consenso, a maior bioenergia do Brasil pode ser forçada à recuperação judicial, com impactos em cadeia no agronegócio e no mercado de capitais.
Credores bancários da Raízen (joint venture entre Cosan e Shell) apresentaram, em abril de 2026, uma nova proposta de reestruturação para a dívida de R$ 65 bilhões da companhia, determinando que 30% dos recursos obtidos com a venda de ativos na Argentina sejam direcionados ao pagamento do endividamento. A proposta também reitera o pedido de substituição de Rubens Ometto (fundador da Cosan) da presidência do Conselho de Administração, em meio a negociações tensas que têm como prazo limite 6 de junho para evitar um pedido de recuperação judicial. A movimentação ocorre em um momento crítico para a empresa, que enfrenta pressão de juros elevados, investimentos de longo prazo ainda sem retorno e desafios operacionais nas divisões de açúcar e etanol — fatores que resultaram em uma sequência de resultados abaixo do esperado."A proposta dos bancos se junta a outra apresentada anteriormente pelos detentores de títulos. A companhia segue em negociação para fechar um acordo." — Fonte: Bloomberg, apud Poder360
O que está em jogo na mesa de negociação
A reestruturação da Raízen não é apenas uma questão contábil. É um teste de governança, de alinhamento entre acionistas estratégicos e de resiliência do modelo de negócios do setor sucroenergético brasileiro. Os credores — incluindo Banco Bradesco, Banco Santander Brasil, Banco do Brasil e Itaú Unibanco — não especificaram um valor para injeção de capital em sua proposta mais recente, diferentemente dos detentores de títulos, que solicitam aporte de R$ 8 bilhões (US$ 1,6 bilhão). Ambos os grupos, no entanto, convergem em dois pontos centrais:
- Participação acionária elevada: pedem até 90% do capital em troca da conversão de 45% da dívida;
- Mudança na liderança: substituição de Rubens Ometto como presidente do Conselho, com maior influência dos credores na gestão operacional.
A Raízen, por sua vez, apresentou em abril uma contraproposta que ofereceria aos credores até 70% das ações ordinárias da companhia, mantendo a estrutura de controle atual, mas com diluição significativa.
Contexto: como a Raízen chegou a este ponto
Para entender a urgência das negociações, é necessário recuar alguns anos. A Raízen foi constituída em 2011 como joint venture entre Cosan e Shell, combinando a expertise da primeira no setor sucroenergético com o capital e a capilaridade da segunda no varejo de combustíveis.Nos últimos anos, porém, a empresa acumulou desafios estruturais:
- Exposição a ciclos de preços voláteis do açúcar e do etanol;
- Investimentos pesados em expansão de capacidade e logística, com retorno ainda em maturação;
- Alta do custo da dívida em um ambiente de juros elevados no Brasil;
- Pressões operacionais em unidades industriais, impactando margens.
O resultado foi um endividamento líquido que, segundo balanços recentes, atingiu R$ 53,4 bilhões — alta de 49% em doze meses. Em março de 2026, a companhia formalizou o pedido de reestruturação extrajudicial, mecanismo que permite renegociar dívidas sem entrar com recuperação judicial, desde que obtenha apoio de ao menos um terço dos credores de cada classe.
Os atores e seus interesses
A complexidade da negociação reside na multiplicidade de partes com objetivos parcialmente divergentes:
| Ator | Posição na negociação | Interesse principal |
|---|---|---|
| Shell | Acionista estratégico (50%) | Preservar valor do investimento, garantir governança estável, manter parceria com Cosan |
| Cosan / Ometto | Controladora e fundador | Manter influência na gestão, limitar diluição, preservar legado familiar no setor |
| Bancos credores | Detentores de dívida bancária | Recuperar crédito com menor risco, obter garantias reais e governança reforçada |
| Detentores de títulos | Investidores institucionais | Maximizar retorno via conversão de dívida em equity, influenciar estratégia operacional |
Nenhum dos envolvidos comentou oficialmente as propostas mais recentes quando contatado ao longo do fim de semana, segundo apuração da Bloomberg."É provável que a nova proposta sofra resistência. Durante reuniões de alto risco em Nova York na semana passada, os controladores Shell e Cosan resistiram aos pedidos de mais dinheiro." — Fontes à Bloomberg, apud NovaCana
O que acontece se não houver acordo até junho?
O prazo de 6 de junho de 2026 não é arbitrário. É a data limite estabelecida pela legislação brasileira para que uma reestruturação extrajudicial obtenha o quórum mínimo de aprovação e produza efeitos vinculantes. Caso o consenso não seja alcançado:
- A Raízen poderá ser forçada a ingressar com pedido de recuperação judicial;
- Credores ganhariam maior poder de barganha, mas o valor de recuperação tende a cair devido aos custos e à desvalorização da marca;
- O mercado de capitais brasileiro sofreria novo abalo, em sequência a casos recentes como GPA, Alliança Saúde e Oncoclínicas;
- Produtores de cana-de-açúcar vinculados à companhia enfrentariam incerteza sobre contratos e repasses da safra 2026/27.
A hipótese de cisão da empresa — separando operações de energia, distribuição e produção de biocombustíveis — também circula nos bastidores como alternativa para destravar valor e facilitar acordos setoriais.
Por que esta negociação importa para além do balanço da Raízen
A reestruturação da Raízen é um termômetro do apetite ao risco no mercado de crédito corporativo brasileiro. Se os credores conseguirem impor condições rigorosas — como troca significativa de dívida por equity e mudança de governança —, isso sinaliza uma nova postura diante de empresas em dificuldade, mesmo quando controladas por grupos tradicionais.Por outro lado, se a Cosan e a Shell lograrem preservar o núcleo de controle com ajustes pontuais, o caso pode ser lido como demonstração de resiliência de parcerias estratégicas de longo prazo.Há ainda uma dimensão setorial: a transição energética global pressiona por biocombustíveis de baixo carbono, e o Brasil tem na cana-de-açúcar uma vantagem comparativa. A forma como a Raízen navegar esta crise pode definir o ritmo de investimentos no setor nos próximos anos.
Cenários possíveis nos próximos 60 dias
- Acordo fechado até junho: conversão parcial de dívida, injeção de capital combinada (Shell + Ometto + terceiros), ajuste de governança com participação minoritária de credores no Conselho.
- Prorrogação negociada: extensão do prazo com apoio majoritário de credores, permitindo mais tempo para estruturar cisão ou venda de ativos não essenciais.
- Recuperação judicial: falha nas negociações leva ao pedido judicial, com administração controlada pela Justiça e possível entrada de novos investidores em condições desfavoráveis aos atuais controladores.
Nenhum desses cenários é trivial. Todos exigem concessões. E todos terão repercussão para além dos muros da Raízen.Versão em áudio disponível no topo do post