Poder & Bastidores

Relatório Vladimir Herzog aponta violações em operações na Baixada

Levantamento detalha 84 mortes de civis, padrão de letalidade contra jovens negros e custo superior a R$ 349 milhões, sugerindo lógica de "operações vingança"

Relatório Vladimir Herzog aponta violações em operações na Baixada
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • nstituto Vladimir Herzog divulga relatório sobre as Operações Escudo e Verão na Baixada Santista (julho de 2023 a abril de 2024).
  • Ação resultou em 84 mortes de civis e três policiais, com 82% das vítimas sendo homens negros e jovens.
  • Estudo estima custo superior a R$ 349 milhões, incluindo gastos com mobilização, encarceramento e perda de capital humano.
  • Por que isso importa: Os dados expõem a ineficiência e o alto custo social de estratégias de segurança baseadas em letalidade, em detrimento de inteligência policial
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Três anos após o início da Operação Escudo, deflagrada em resposta à morte de um policial da ROTA na Baixada Santista, um relatório do Instituto Vladimir Herzog reúne evidências contundentes sobre os efeitos das ações de segurança realizadas na região. A pesquisa documenta violações de direitos humanos, identifica um padrão de letalidade concentrado e apresenta uma estimativa inédita dos custos econômicos dessa estratégia.

O perfil das vítimas e a lógica da retaliação

Ao longo do período analisado, as operações resultaram em 84 mortes de civis e três policiais mortos. Os dados traçam um perfil demográfico alarmante: homens representam 98% dos mortos, com idade média de 29 anos, incluindo sete adolescentes. Levantamentos citados pelo estudo indicam que 82% das vítimas eram negras, evidenciando a concentração da violência estatal sobre jovens negros residentes nas periferias de municípios como Guarujá, Santos e São Vicente.

A cronologia construída pelas pesquisadoras identifica um padrão claro nas execuções. Picos de mortalidade ocorreram logo após a morte de agentes de segurança, como entre 27 e 31 de julho de 2023, e em fevereiro de 2024. Para as autoras, essa concentração temporal reforça a hipótese de "operações vingança", marcadas pelo emprego intensivo da força letal, em vez de ações orientadas por inteligência policial.

Violações sistêmicas e a ausência de responsabilização

O relatório compila um amplo conjunto de relatos e documentos que apontam para violações recorrentes, incluindo tortura, invasões de residências sem mandado, destruição de bens e adulteração de cenas de crime. Essas práticas, segundo o estudo, dificultaram a produção de provas e comprometeram a apuração dos fatos.

A resposta das instituições de controle também é criticada. Até a conclusão da pesquisa, 17 mortes haviam sido arquivadas a pedido do Ministério Público sem oferecimento de denúncia. Embora 13 policiais militares respondam por acusações em sete casos específicos, as denúncias não alcançam integrantes da cadeia de comando das operações.

Apoie o jornalismo independente
Leia o Painel Político por inteiro
Assine e tenha acesso ao arquivo completo e a tudo que publicamos. Você sustenta um jornalismo que não se dobra ao poder.
Assinar por R$ 19/mês
ou acompanhe de graça
São canais, não grupos: só o Painel publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.

O custo invisível da violência estatal

Além das violações, o estudo apresenta uma estimativa inédita do impacto econômico. O custo total é calculado em mais de R$ 349 milhões, considerando despesas com mobilização da Polícia Militar, serviços da Polícia Técnico-Científica, processamento de 958 prisões e encarceramento.

"As famílias convivem com perdas que permanecem muito depois do fim das operações. Os efeitos da violência estatal não se encerram na morte, atravessam a renda, a saúde mental, a vida comunitária e o acesso à Justiça", afirma Lorrane Rodrigues, gerente de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog.

Muitas vítimas eram os principais provedores de renda de suas famílias. Após as mortes, esses núcleos enfrentaram redução brusca de recursos, problemas de saúde mental e gastos com a busca por responsabilização judicial, custos que permanecem invisíveis nas estatísticas oficiais.

A análise sobre a eficácia da segurança pública

Diante desses números, a verdadeira questão que se impõe à sociedade e aos gestores públicos é: qual é o retorno real de um modelo de segurança que gasta centenas de milhões de reais, viola direitos fundamentais e falha em responsabilizar suas cadeias de comando, enquanto aprofunda o luto e a pobreza nas periferias?

A política de segurança não pode ser medida apenas pelo número de apreensões ou pela retórica de "guerra ao crime". Quando o custo humano e financeiro supera em muito qualquer ganho em estabilidade, o modelo deixa de ser uma solução para se tornar parte estrutural do problema. Resta saber se os poderes constituídos terão a coragem de revisar esses protocolos ou se continuarão a financiar um ciclo de violência que a própria evidência já comprovou ser ineficaz.


Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #segurancapublica #violacaodedireitoshumanos #RiodeJaneiro #CombateAoCrime