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Risco-país da Argentina volta a superar 500 pontos e reacende alerta

Indicador do JPMorgan fecha em 506 pontos, maior nível desde maio, em meio a queda de títulos, tombo de ações e cenário externo mais adverso.

Risco-país da Argentina volta a superar 500 pontos e reacende alerta
📷 Getty Images
📋 Em resumo
  • Risco-país argentino fechou em 506 pontos nesta terça-feira, 18, alta de 18 unidades (+3,5%), maior patamar desde 26 de maio.
  • Indicador acumula salto de cerca de 50 a 60 pontos só em agosto, revertendo mínima de mais de oito anos (402/403 pontos) tocada em julho.
  • Bonares e Globales caem até 2% no dia; Merval recua e ADRs argentinos acumulam perdas de até 18% a 19% no mês.
  • Governo de Javier Milei divulgou superávit primário de R$ equivalente a 0,9% do PIB em sete meses, mas mercado ignora dado fiscal positivo.
  • Por que isso importa: a alta do risco-país encarece o financiamento externo da Argentina às vésperas da eleição presidencial de 2027 e serve de termômetro para o apetite de investidores por mercados emergentes na América Latina.
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O risco-país da Argentina, indicador calculado pelo banco JPMorgan que mede o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo argentino em comparação com os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, ultrapassou novamente a marca de 500 pontos nesta terça-feira, 18. O índice subiu 18 unidades e fechou em 506 pontos básicos, um novo máximo desde 26 de maio deste ano. A alta no dia foi de aproximadamente 3,5%, conforme cálculos da plataforma Rava Bursátil.

A deterioração veio acompanhada de novas quedas dos títulos soberanos hard dollar — Bonares e Globales —, que recuaram 0,9% em média, em meio a condições financeiras internacionais mais severas para ativos emergentes somadas a fatores locais. Entre os papéis mais afetados estão o Bonar 2035 (AL35D) e o Global 2046 (GD46D), que chegaram a cair até 2% em dólares na sessão.

De mínima histórica a novo pico em três meses

O patamar de 506 pontos é o mais alto desde 26 de maio, quando o indicador havia marcado 508 pontos, e representa um distanciamento importante dos 402 pontos tocados em meados de julho — mínima da gestão de Javier Milei (presidente da Argentina, La Libertad Avanza). Essa mesma variável havia tocado um mínimo em mais de oito anos ao se aproximar das 403 unidades antes da reversão.

Somente em agosto, o índice já acumula alta superior a 60 pontos, um movimento que levou investidores a voltar a exigir um prêmio de risco específico para ativos argentinos, distinto do comportamento de outros mercados emergentes. Parte da escalada é atribuída a fatores técnicos: segundo a consultoria Grit, o fenômeno costuma aparecer quando gestores de risco começam a exigir redução de posições, o que ajuda a explicar a realização de lucros que atinge os títulos argentinos.

Bolsa e ADRs também sofrem, mesmo com balanços positivos

O S&P Merval, principal índice da bolsa de Buenos Aires, recuou cerca de 1% em pesos nesta terça-feira, a 2,92 milhões de pontos. No acumulado de agosto, o quadro é ainda mais severo: até a sexta-feira anterior, 14, o Merval medido em dólares já caía 10,6% no mês, aos 1.866 pontos.

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Os recibos de ações argentinas negociados em Nova York (ADRs) tiveram desempenho pior ainda. Alguns papéis chegaram a registrar quedas de até 18% em agosto, enquanto o levantamento mais recente aponta ADRs com perdas de até 18% e um Merval em dólares que perdeu 4,5% apenas nas últimas cinco rodas de negócios. O setor bancário foi um dos mais castigados: a pressão ficou especialmente visível entre os bancos, com o Banco Macro registrando queda superior a 10% em uma única semana.

Chama atenção que o tombo ocorreu apesar de resultados corporativos acima do esperado. O mercado recuou mesmo diante de balanços melhores do que o previsto: YPF e Pampa Energía superaram em mais de 40% as estimativas de lucro por ação, enquanto Ternium e Telecom também bateram o consenso. Isso mostra que os investidores estão priorizando uma leitura mais ampla sobre o país — os bons balanços não foram suficientes para conter o aumento da percepção de risco sobre os ativos locais.

Superávit fiscal não convence o mercado

A piora nos ativos ocorreu no mesmo dia em que o governo argentino divulgou dados fiscais positivos. O Ministério da Economia informou que, em julho, o Setor Público Nacional registrou superávit primário de 2,96 trilhões de pesos e superávit financeiro de 244,9 bilhões de pesos, o que levou o resultado acumulado nos sete primeiros meses de 2026 a cerca de 0,9% do PIB de superávit primário e 0,1% do PIB de superávit financeiro, segundo o Palácio de Hacienda.

O ajuste fiscal é acompanhado de perto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), credor da Argentina em um programa que fixou meta de acumulação de US$ 8 bilhões em reservas líquidas do Banco Central para 2026. As reservas internacionais, no entanto, voltaram a cair no início de agosto: um pagamento ao FMI provocou queda diária de mais de US$ 1,2 bilhão e fez as reservas brutas do Banco Central da República Argentina (BCRA) recuarem para menos de US$ 49 bilhões, após terem tocado o pico da era Milei.

Juros americanos em alta e guerra no Oriente Médio pesam no exterior

Parte da pressão sobre os ativos argentinos não tem origem doméstica. Ao ruído local que já se refletia com clareza nos preços durante agosto, somou-se um cenário internacional adverso, marcado por forte alta das taxas de juros de longo prazo nos principais mercados. Globalmente, ações de tecnologia lideraram as quedas nas bolsas, enquanto os rendimentos dos títulos de longo prazo avançaram ainda mais em direção a máximas de décadas e os preços do petróleo prolongaram sua escalada, reduzindo o apetite dos investidores por ativos de risco.

Nesta terça, os índices de Wall Street chegaram a cair até 1,3%, com o Nasdaq à frente das perdas, enquanto o Merval acompanhava o movimento negativo.

O fator eleitoral de 2027 já pesa nos preços

Analistas ouvidos pela imprensa argentina apontam que parte do prêmio de risco reflete incerteza política. Segundo a Fundação Mediterránea, entidade de estudos econômicos, além da situação das reservas internacionais, pesam sobre a Argentina as restrições aos movimentos internacionais de capitais e um histórico de calotes que, na avaliação da fundação, deixa o país mal posicionado frente a outros vizinhos latino-americanos.

Os analistas da Fundação Mediterránea também identificaram como fator determinante o risco de mudanças drásticas na política econômica a cada eleição presidencial — elemento que segue pesando de cara à eleição de 2027 e que contribui para o atual nível do risco-país.

No plano político, o porta-voz da Presidência argentina, Adrián Ravier, saiu em defesa do ajuste do gasto público. Em referência ao apelido dado ao corte de despesas do governo Milei, ele afirmou que a política de austeridade — a "motosserra" — vai continuar até o fim do mandato.

Do lado técnico, a consultoria GMA Capital observou que, embora o câmbio no mercado atacadista tenha mantido relativa estabilidade em torno de 1.492 pesos por dólar nas últimas semanas, essa calma cambiária não se espalhou para o resto dos ativos locais: a bolsa aprofundou a correção e o risco-país seguiu em escalada, segundo a análise da própria GMA Capital.

Contraste com a euforia pós-eleitoral de outubro

A reviravolta atual contrasta com o otimismo que dominou o mercado após a vitória eleitoral de La Libertad Avanza (LLA, partido de Milei) nas legislativas de outubro de 2025. Na ocasião, o JPMorgan chegou a projetar uma redução de mais de 440 pontos básicos no spread soberano, o que levaria o indicador a cerca de 650 pontos, ante os 1.081 registrados na sexta-feira anterior aos comícios.

O rali seguiu-se de uma valorização mais ampla: em maio deste ano, a agência Moody's chegou a elevar a nota de crédito soberano argentino de Caa1 para B3, equiparando a Argentina a Fitch e S&P Global, em decisão impulsionada pelo equilíbrio fiscal do país — mesmo com a imagem do governo já em queda, afetada por atividade econômica sem repique e salários que mal superam a inflação.

Esse descompasso entre fundamentos macro e sentimento de mercado é o que mais preocupa analistas locais agora. Uma queda sustentada do risco-país é condição central para que a Argentina recupere acesso ao mercado internacional de crédito a taxas compatíveis com uma eventual refinanciamento de vencimentos — e é justamente essa recuperação que parece cada vez mais distante enquanto o indicador segue acima dos 500 pontos, a menos de um ano e meio das urnas presidenciais.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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