Rondônia vira polo de rota migratória irregular rumo aos EUA
Relatório da Abin com a OIM aponta Porto Velho como ponto de partida do trajeto mais usado por brasileiros que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos.
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- Relatório "Contrabando de Migrantes no Brasil", lançado pela Abin e pela OIM em abril de 2026, identifica Rondônia como ponto de origem de rotas irregulares para os EUA, com atuação de redes em Porto Velho, Cacoal, Ji-Paraná, Ouro Preto do Oeste, Buritis e Nova Mamoré.
- Cerca de 15% dos brasileiros atendidos pelo programa federal "Aqui é Brasil" são de Rondônia, que figura entre os cinco estados que mais recebem repatriados, atrás apenas de Minas Gerais.
- Operações da Polícia Federal como Yankee, Human Commodity e O Sonho Americano já desarticularam esquemas de "coiotes" no estado, com movimentação de dezenas de milhões de reais e centenas de vítimas identificadas.
- O endurecimento migratório do governo Trump elevou as deportações de brasileiros a patamares recordes, pressionando o fluxo de retorno para o estado.
- Por que isso importa: Rondônia deixou de ser coadjuvante e passou a concentrar uma logística criminosa que movimenta dinheiro, documentos falsos e vidas humanas em escala transnacional.
Rondônia passou a ocupar posição central nas rotas de contrabando de migrantes que levam brasileiros aos Estados Unidos, segundo o relatório "Contrabando de Migrantes no Brasil: uma análise de inteligência", publicado em 2026 pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM). O documento aponta Porto Velho como ponto de partida do trajeto mais usado e cita redes com atuação ou indícios de operação em Cacoal, Ji-Paraná, Ouro Preto do Oeste, Buritis, Nova Mamoré e distritos da capital.
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), lançou nesta terça-feira, 28 de abril, a publicação "Contrabando de Migrantes no Brasil: uma análise de inteligência", em evento no Palácio do Planalto. É o primeiro levantamento nacional do gênero, e o trecho dedicado a Rondônia é direto: o estado se consolidou como ponto de origem de brasileiros que recorrem a redes de migração irregular para os Estados Unidos.
Brasil como corredor estratégico
O Brasil se consolida como país de origem, trânsito e destino dessas rotas, favorecido por sua extensa fronteira, com mais de 16 mil quilômetros, e por sua posição geográfica estratégica. Segundo o levantamento, o país tem ao menos 14 estados com rotas estruturadas para migração irregular, usadas tanto por brasileiros que tentam sair rumo aos EUA quanto por estrangeiros em trânsito para outros destinos. Entre as tendências mapeadas, há crescimento da participação da Região Norte nas rotas de entrada irregular. No caso rondoniense, o relatório atribui a persistência do fluxo a fatores econômicos: cresce o número de rondonienses deportados ou retornados, muitos dos quais mantêm o interesse em tentar novamente, impulsionados por redes de apoio já consolidadas nos Estados Unidos, com a vulnerabilidade econômica local e a atuação estruturada de aliciadores sustentando esse fluxo.
Buritis como polo de saída
Dentro do estado, Buritis aparece como o município mais sensível. Levantamento do Ministério Público de Rondônia (MPRO), em diálogo com o mesmo relatório da Abin, descreve a cidade como provável "exportador" de quantidade significativa de habitantes de forma ilegal para os Estados Unidos, com possível atuação de coiotes na região. Foi justamente ali que a Polícia Federal identificou, em 2023, o núcleo logístico de uma das maiores operações contra o contrabando de migrantes já deflagradas no estado.
"A análise de Inteligência contribui para a relevância do debate e tomada de decisões, sendo uma iniciativa corajosa e responsável", afirmou Michelle Barron, chefe de Programas da OIM Brasil, no lançamento do estudo.
O rastro das operações policiais no estado
O histórico de investigações antecede o relatório de 2026 e ajuda a explicar por que Rondônia chamou a atenção dos analistas de inteligência. Em fevereiro de 2023, a Polícia Federal deflagrou a Operação Yankee, em Porto Velho, contra um grupo suspeito de movimentar quantia superior a R$ 16,5 milhões levando migrantes ilegais aos EUA. Uma empresa de viagens e turismo localizada em Buritis era utilizada para operacionalizar o esquema e lavar o dinheiro, cuidando de emissão de passaporte, compra de passagens e auxílio nos voos dos migrantes com destino ao México, de onde a travessia seguia a pé pela fronteira. A investigação, iniciada a partir de informações do oficialato da PF em El Paso, no Texas, identificou 444 pessoas que foram contrabandeadas entre 2019 e 2022. A Justiça Federal expediu dez mandados de busca e apreensão em Rondônia, Amazonas, Tocantins e Goiás, além de prisões preventivas, inclusão de suspeitos na Difusão Vermelha da Interpol e bloqueio de mais de R$ 8 milhões. Não foi caso isolado. Em 2022, a Operação Human Commodity mirou um esquema com origem em Monte Negro, no interior de Rondônia, dedicado à promoção de migração ilegal e lavagem de dinheiro. Dois anos antes, a Operação O Sonho Americano apurou um grupo responsável por promover a entrada ilegal de mais de 500 brasileiros nos Estados Unidos através da fronteira com o México, com mandados cumpridos em Rondônia e Mato Grosso. Em Ji-Paraná, outra frente de investigação nasceu de uma rondoniense presa em flagrante por apresentar documento falso para tirar passaporte do filho e migrar ilegalmente com a criança para os EUA, com uma agência de turismo local também sob suspeita.
Rondônia entre os cinco estados que mais recebem repatriados
O relatório da Abin cruza a origem dos "coiotes" com o destino dos brasileiros que voltam ao país, forçados ou não. Dados do programa federal "Aqui é Brasil" mostram que Minas Gerais foi o estado de destino que mais recebeu repatriados, seguido de Rondônia, São Paulo, Goiás e Espírito Santo. É esse recorte de cinco estados que hoje organiza a resposta institucional: o MPRO fará a articulação entre Ministérios Públicos de Minas Gerais, Rondônia, São Paulo, Goiás e Espírito Santo, os cinco territórios apontados pelo relatório da Abin como os que mais recebem repatriados. Segundo a pauta apurada pela reportagem, cerca de 15% dos brasileiros atendidos pelo "Aqui é Brasil" têm origem em Rondônia — uma fatia expressiva para um estado que responde por menos de 1% da população nacional. O programa, lançado em 6 de agosto de 2025, com duração inicial de 12 meses e investimento de R$ 15 milhões, atendeu, até 25 de julho daquele ano, 1.223 repatriados, sendo 949 homens, 220 mulheres e 54 sem gênero informado. 74,2% dos atendidos pretendem trabalhar no Brasil, e a maior parte morou por períodos curtos nos Estados Unidos, especialmente em Massachusetts, Texas, Flórida e Nova Jersey.
Deportações em ritmo recorde nos EUA
O fluxo de retorno para Rondônia acompanha uma escalada nacional nas remoções promovidas pelo governo americano. Segundo dados reunidos pela Polícia Federal e pelo MDHC, as deportações de brasileiros passaram de 1.138 em 2020 para 1.648 em 2024, e saltaram para 3.294 em 2025 — o maior patamar já registrado. Levantamento aponta ainda que até o início de outubro de 2025 já haviam sido contabilizadas 2.268 deportações de brasileiros, alta de 37% em relação a 2024. A tendência não deu sinais de arrefecer em 2026: entre janeiro de 2025 e 30 de abril de 2026, 4.199 brasileiros foram efetivamente deportados em 51 voos fretados pelo governo americano, a maioria com destino ao Aeroporto Internacional de Confins, em Minas Gerais. Reportagens atribuídas ao Itamaraty indicam ainda que 17 mil brasileiros estariam sob custódia do ICE aguardando vaga em voos de deportação. Um dado chama atenção pela contradição com o discurso de segurança do governo americano: 73% dos imigrantes detidos não possuem antecedentes criminais, segundo dados oficiais.
Resposta institucional ainda em formação
Diante do diagnóstico da Abin, o MPRO reforçou parceria com a OIM em reuniões recentes em Brasília, com as promotoras Tânia Garcia e Elba Chiappetta representando o estado. A OIM no país conta hoje com 13 polos e cerca de 250 integrantes, atuando em Rondônia nos municípios de Porto Velho, Ariquemes e Jaru. Está prevista para 30 de julho, Dia Internacional contra o Tráfico de Pessoas, a realização de um evento em Rondônia para debater o tema com a população. Enquanto isso, o governo americano amplia recursos para as remoções: para o ano fiscal de 2026, a ICE projetou avançar rumo à marca de 1 milhão de deportações anuais, embora o próprio orçamento preveja cortes em despesas de detenção e transporte para 2027. A pergunta que fica para Rondônia é se a resposta local — ainda concentrada em acolhimento e articulação entre Ministérios Públicos — será suficiente para conter redes de aliciamento que, segundo a própria Abin, já operam há mais de uma década no estado com sofisticação crescente.
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