Poder & Bastidores

Senado derruba Messias, humilha o governo e manda recado ao STF: a era das aprovações automáticas acabou

Em votação histórica — a primeira rejeição em 132 anos —, o Plenário enterrou o nome do advogado-geral da União por 42 a 34 votos, expôs a articulação de Alcolumbre contra o governo, reacendeu a guerra entre Congresso e Supremo e sinaliza que a tensão só vai piorar até outubro

Senado derruba Messias, humilha o governo e manda recado ao STF: a era das aprovações automáticas acabou
📷 Ton Molina - AG Senado
📋 Em resumo
  • O Senado rejeitou, por 42 votos a 34, a indicação de Jorge Messias ao STF — a primeira derrubada de um nome presidencial para a Corte em 132 anos, desde o governo Floriano Peixoto em 1894, sendo também o primeiro após a Constituição de 1988.
  • Bastidores revelam que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, articulou ativamente contra a indicação, chegando a prever o placar com precisão milimétrica num microfone aberto transmitido ao vivo pela TV Senado — o que abriu uma crise política imediata entre o Planalto e o Congresso.
  • O governo, que esperava 44 ou 45 votos e liberou R$ 11,6 bilhões em emendas parlamentares só em abril, foi traído pela base e agora avalia demissões de indicados de Alcolumbre na Esplanada — numa "declaração de guerra" que pode agravar ainda mais a relação com o Legislativo às vésperas de eleições.
  • Com 75% dos brasileiros dizendo que o STF tem "poder demais" e 54 vagas de senador em disputa em outubro, a rejeição de Messias não é um episódio isolado — é o primeiro movimento de um rearranjo institucional que pode redesenhar o equilíbrio entre os Três Poderes nos próximos anos.
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O Brasil acordou diferente na manhã desta quinta-feira (30). Na noite anterior, no plenário do Senado Federal, um placar silencioso reescreveu 132 anos de história republicana e deixou a Praça dos Três Poderes em estado de alerta. Por 42 votos contrários e apenas 34 favoráveis, os senadores rejeitaram a indicação do advogado-geral da União, Jorge Rodrigo Araújo Messias, ao Supremo Tribunal Federal. Foi a primeira rejeição de um nome presidencial ao STF desde 1894 — e, mais simbolicamente, a primeira desde a promulgação da Constituição de 1988, o documento que fundou a Nova República.

A derrota não foi apenas histórica. Foi humilhante. E os bastidores revelam um nível de traição política que vai muito além de um simples voto de consciência.

O microfone aberto que expôs tudo

O momento mais revelador da noite não veio do painel eletrônico. Veio de um descuido técnico. Segundos antes de o placar oficial ser exibido no telão do plenário, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ainda com o microfone ligado, virou-se para o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), e sussurrou a previsão: "Ele vai perder por oito", disse Alcolumbre, em voz baixa, mas audível pelo microfone que permanecia ligado. A frase foi pronunciada instantes antes de a Secretaria-Geral da Mesa exibir o placar oficial no painel do plenário. 

O flagrante de Alcolumbre corrobora com a ideia de que ele estava ciente do placar e que teria trabalhado para barrar a indicação de Messias. Quando o resultado apareceu — 34 favoráveis, 42 contrários, exatamente oito votos de diferença —, a oposição explodiu em gritos de comemoração. Jaques Wagner se limitou a abraçar Alcolumbre em silêncio, antes de seguir para o Palácio da Alvorada com a notícia da maior derrota do governo Lula no Senado. 

A assessoria de Alcolumbre tentou conter o dano com uma nota fria: o senador "apenas expressou uma opinião ao comentar que Messias perderia por oito votos". Ninguém no Planalto acreditou nisso. 

Cinco meses de guerra fria antes do baque

Para entender a dimensão da derrota, é preciso voltar ao princípio — e o princípio é um conflito que se arrastava desde novembro de 2025.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) ao STF. Além de preferir outro candidato, Alcolumbre reclamou de não ter sido avisado da decisão do petista. Ao saber da escolha de Messias pela imprensa, Alcolumbre reagiu marcando a sabatina para 10 de dezembro de 2025 — e colocou em votação, em retaliação, uma "pauta-bomba" para o governo. O Planalto recuou: Lula simplesmente não enviou a mensagem oficial com o nome de Messias, paralisando o processo. Alcolumbre cancelou a sabatina e acusou o governo de "grave omissão". A mensagem formal só chegou ao Senado em abril de 2026, quatro meses após o anúncio da indicação. 

Aquele período de imobilismo custou caro. A caminhada de Jorge Messias até o fatídico plenário foi marcada por adiamentos estratégicos e uma "fritura" pública que durou quase um ano. Desde que seu nome começou a ventilar como sucessor de Luís Roberto Barroso, a oposição de extrema direita e o partido Novo transformaram a indicação em um "terceiro turno" eleitoral. 

O próprio Messias reconheceu que foi alvo de uma operação sistemática de demolição. "Passei por cinco meses de um processo de desconstrução da minha imagem. Toda sorte de mentiras para me desconstruir ocorreu. Nós sabemos quem promoveu tudo isso", disse, sem citar nomes, após a votação.

O governo contava com 44 votos. Teve 34

Na véspera da votação, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, estimava ao menos 44 ou 45 votos favoráveis. O Planalto havia mobilizado uma ofensiva de articulação nos dias finais, incluindo uma liberação extraordinária de emendas parlamentares. Apenas em abril, foram empenhados R$ 11,6 bilhões — um salto em relação ao R$ 1 bilhão liberado entre janeiro e março. Desse total, R$ 2,5 bilhões foram destinados a senadores. 

O dinheiro não comprou votos. E a ironia não passou despercebida. O fracasso chegou a virar piada na oposição. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) ironizou: "Senador recebeu emenda do Lula e meteu voto contra o Messias." 

O voto secreto foi o grande aliado dos traidores. Como a escolha de ministros do Supremo é feita sem registro nominal no plenário, senadores da base governista puderam votar contra sem romper publicamente com o Planalto. Dez votos a mais que o esperado foram contra. O governo não sabe — ainda — de quem foram todos. 

Na sabatina, que durou mais de oito horas na CCJ, Messias tinha tentado todos os acenos possíveis à oposição conservadora. Declarou-se "totalmente contra o aborto", defendeu a separação dos Poderes, pregou autocontenção judicial, prometeu respeito ao Congresso. Mas sua condição de ministro de Lula pesou mais do que qualquer discurso. A oposição também explorou críticas ao ativismo judicial, à atuação do STF em temas políticos e criminais, à anistia dos condenados pelo 8 de Janeiro e ao projeto da dosimetria. 

A anatomia da rejeição: duas guerras num só placar

O que o placar de 42 a 34 revela, para quem lê nas entrelinhas, é que duas guerras distintas confluíram numa única derrota.

A primeira é a guerra entre o Senado e o governo Lula. Alcolumbre nunca engoliu ter sido ignorado na escolha do nome. A indicação de Messias, feita sem consulta e contra sua preferência explícita, foi vivida pelo presidente do Senado como um desrespeito institucional. Nos bastidores, parlamentares atribuem a derrota, em grande parte, à atuação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Contrário à indicação de Messias, ele teria atuado para barrar o nome. Isso porque Alcolumbre defendia outra indicação para a vaga no STF: a do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

A segunda guerra é entre o Senado e o STF. Ela vem de antes e vai mais longe. O Supremo foi progressivamente ocupando espaços que o Congresso considera seus — da regulação de plataformas digitais à condução de investigações criminais envolvendo políticos, passando pelo inquérito das fake news e pelos processos do 8 de janeiro. A tensão foi se acumulando durante anos. O caso do Banco Master — com suspeitas de envolvimento de ministros da Corte com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro — adicionou um ingrediente explosivo de descrédito institucional.

O resultado dessa acumulação aparece em números: 75% dos brasileiros dizem que os ministros da corte têm poder demais, e 75% afirmam que as pessoas acreditam menos no STF agora do que no passado, aponta pesquisa Datafolha de abril de 2026. O dado mais perturbador: entre quem votou em Lula no segundo turno de 2022, o índice dos que dizem que o STF tem poder demais chega a 64%. O desgaste do Supremo não é mais exclusividade da direita. É transversal. 

Ao derrubar Messias, o Senado cobrou esse débito acumulado. A mensagem foi direta: se o STF quer continuar tendo onze ministros indicados pelo presidente sem filtro real, que negocie melhor com o Congresso. A era do carimbo automático acabou.

O precedente histórico e o que ele significa

Para contextualizar a magnitude do que ocorreu na quarta-feira, é necessário entender o que foi rompido. Desde que o STF foi criado, em 1890, apenas cinco nomes foram barrados pelo Senado, todos em 1894, durante o governo de Floriano Peixoto. O caso mais notório foi o do médico Barata Ribeiro, rejeitado porque a CCJ da época considerou que ele não era jurista. Floriano também chegou a indicar um militar e três outros com formação jurídica. Todos foram rejeitados — fruto de um conflito aberto entre Executivo e Senado que marcou os primeiros anos da República. 

Depois disso, 132 anos de "sim" ininterruptos. Mesmo em momentos de alta tensão política, o Senado nunca ousou cruzar essa linha. A indicação de André Mendonça ficou quatro meses parada — Alcolumbre era presidente da CCJ na época e preferia o então PGR Augusto Aras, num roteiro curiosamente idêntico ao atual. A de Flávio Dino rendeu 10 votos contrários em 2023. Ninguém chegou perto da rejeição. O placar mais apertado aprovado antes foi o de Francisco Rezek, com 45 votos à época, numa indicação de Fernando Collor.

Messias é o primeiro indicado a ser rejeitado após a aprovação da Constituição de 1988. A votação representa a primeira rejeição de um indicado ao STF em 132 anos, rompendo a tradição de aprovação desde 1894 e encerrando um ciclo que a República brasileira acreditava ter enterrado nos livros de história.

Os bastidores do Planalto: reunião de crise e caça a traidores

Enquanto o placar era divulgado, Messias assistia à votação no gabinete da liderança, onde foi consolado por aliados e pela esposa. No Palácio da Alvorada, Lula convocou reunião de emergência. Após a derrota, Lula chamou Jorge Messias para uma conversa, com o objetivo de entender os fatores que levaram à rejeição e definir os próximos passos. Também estiveram presentes na reunião o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães; o ministro da Defesa, José Múcio; e o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). 

O tom público foi de serenidade forçada. O ministro da Secom, Sidônio Palmeira, disse que Lula recebeu o resultado "com tranquilidade". José Guimarães cobrou explicações: "Cabe ao Senado explicar as razões dessa desaprovação." Randolfe Rodrigues garantiu que "a relação com o Congresso não mudou e não mudará."

Nos fundos, outra história. O resultado foi recebido com forte desconforto. Nos bastidores, aliados do governo atribuem a derrota, em grande parte, à atuação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que teria articulado votos contra o indicado de Lula. O Planalto iniciou uma "caça a traidores".

A rejeição de Jorge Messias ao STF abriu uma nova frente de crise no governo Lula, agora centrada na possibilidade de retaliações políticas contra partidos e lideranças consideradas responsáveis pela derrota. Entre as medidas cogitadas estão exonerações de indicados ligados ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o redesenho de espaços ocupados por partidos aliados na Esplanada dos Ministérios.

A CNN Brasil apurou que o governo Lula avalia uma ofensiva para demitir ocupantes de cargos de confiança ligados ao senador Davi Alcolumbre na Esplanada dos Ministérios, em reação à derrota na votação. Nos bastidores, o movimento é descrito como uma "declaração de guerra" contra parlamentares e aliados considerados responsáveis pela articulação contrária ao Planalto. 

Mais longe ainda: entre as medidas discutidas está o enfraquecimento político de Alcolumbre em seu estado. Aliados sugerem que o presidente se envolva nas eleições no Amapá para tentar derrotar candidatos ligados ao senador, reduzindo sua influência no Congresso. 

A relação entre o Planalto e o presidente do Congresso é dada como definitivamente rompida, sem mais panos quentes. 

O próximo capítulo: dosimetria, eleições e o STF em xeque

A derrota de Messias não foi o único problema que o governo acordou nesta quinta. O clima se agrava com a derrota que se aproxima nesta quinta-feira, quando o Congresso vota o veto presidencial ao projeto da dosimetria, criado para beneficiar condenados pelos atos de 8 de janeiro. A expectativa é de que o Congresso derrube o veto de Lula, anistiando na prática os condenados pelo 8 de janeiro — mais uma humilhação institucional sequencial. 

O ambiente pré-eleitoral transforma cada votação em campo minado. Com 54 cadeiras em disputa em 2026, o Senado pode redesenhar forças políticas em 2027 e ampliar pressão institucional sobre o Supremo Tribunal Federal. O cenário projetado por analistas é de um Senado ainda mais à direita a partir de 2027, com maior capacidade — e disposição — para pressionar o STF por reformas, limitar decisões monocráticas e, no limite, avançar com pedidos de impeachment de ministros. 

Os pré-candidatos à Presidência em 2026 têm intensificado críticas ao STF, explorando crises recentes da Corte para reforçar seus discursos eleitorais. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato, afirma que o impeachment de ministros do STF passou a figurar como tema relevante na disputa. Ronaldo Caiado defende mandato fixo de dez anos para ministros e listas prévias para indicação. Zema chegou a pedir a prisão de ministros.

A rejeição de Messias cai exatamente nesse caldo político. Para o STF, não é um alerta distante — é a primeira consequência concreta de um movimento de reequilíbrio de poder que o Congresso vem ensaiando há anos.

O que vem agora: três cenários para a vaga aberta

A vaga permanece aberta. O STF opera com dez ministros — o que, na prática, aumenta o risco de empates em votações relevantes e sobrecarrega os demais integrantes da Corte. Não há prazo legal para uma nova indicação, e o relator Weverton revelou que Lula havia dito, ainda antes da votação, que não enviaria outro nome imediatamente caso Messias fosse derrotado.

Três cenários se apresentam ao presidente. O primeiro é enviar um nome de perfil mais técnico e menos identificado com o campo petista, capaz de conquistar senadores do centro e da centro-direita — mas isso seria lido como capitulação política. O segundo é aguardar as eleições de outubro e tentar uma nova indicação com um Senado recém-renovado, apostando numa composição diferente — mas manter o STF incompleto por meses tem custos institucionais reais. O terceiro — indicar novamente Messias — é improvável, mas constitucionalmente possível.

A rejeição de Messias muda o ambiente político da próxima escolha. Depois de uma derrota histórica, Lula terá de buscar um nome capaz de reunir confiança pessoal, currículo jurídico e viabilidade real no Senado. A votação também reforça que a sabatina para o Supremo deixou de ser um rito previsível e passou a funcionar como arena de disputa entre Executivo, oposição e comando do Congresso.

O que ficou para a história

Qualquer que seja o próximo capítulo, o que ficou desta quarta-feira não se apaga. O Senado Federal, casa que por 132 anos nunca disse não a um ministro do STF, disse não. E disse com folga — oito votos de margem, um microfone aberto e um presidente do Congresso que sabia o resultado antes de qualquer um.

A mensagem chegou a dois endereços ao mesmo tempo. Ao governo Lula, que agora terá que reconstruir pontes com uma base que já não obedece. E ao STF, que precisa entender que a nova aritmética política do país cobra um preço por cada passo percebido como extrapolação institucional.

O pacto tácito que sustentou a composição da Corte por mais de um século foi rompido. E, com as eleições de outubro se aproximando, tudo indica que a tensão entre os Poderes vai aumentar — não diminuir — antes que qualquer equilíbrio novo seja encontrado.

O Brasil de quinta-feira (30) não é o mesmo de terça-feira (28). E o STF de hoje não é mais aquele cujos ministros podiam contar, sem surpresas, com o carimbo do Senado.

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