Sobrado no DF lavou R$ 304 milhões da Conafer na Farra do INSS
Escritório de fachada no Recanto das Emas abrigou dez CNPJs usados para escoar parte dos R$ 708 milhões que a PF atribui à confederação investigada.
📋 Em resumo ▾
- Empresas sediadas na parte superior de um sobrado no Recanto das Emas (DF) lavaram R$ 304 milhões dos R$ 708 milhões que a Conafer teria lucrado com descontos indevidos em aposentadorias.
- CNPJs foram abertos em nome de Cícero Marcelino Santos, Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior e Lucineide dos Santos Oliveira, esta última ligada à Associação de Aposentados do Brasil (AAB).
- A PF apontou a Conafer como organização criminosa hierarquizada e indiciou 48 pessoas, entre elas o presidente foragido Carlos Roberto Ferreira Lopes e o ex-presidente do INSS José Carlos Oliveira.
- O prejuízo total do esquema de descontos associativos não autorizados é estimado em R$ 6 bilhões entre 2019 e 2024, segundo a Polícia Federal.
- Por que isso importa: o caso expõe como estruturas de fachada em endereços residenciais permitiram desviar recursos de aposentados por anos sem levantar suspeita de bancos e da Receita Federal.
Um pequeno sobrado no Recanto das Emas, região administrativa do Distrito Federal, funcionou como um dos principais pontos de escoamento de dinheiro desviado de aposentados na Farra do INSS. Segundo a Polícia Federal (PF), empresas registradas no andar superior do imóvel lavaram R$ 304 milhões do total de R$ 708 milhões que a Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores (Conafer) teria lucrado com o esquema de descontos indevidos em benefícios previdenciários.
Os CNPJs foram abertos no local em nome de Cícero Marcelino Santos e Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior, ambos vinculados à Conafer, e em nome de Lucineide dos Santos Oliveira – vinculada à Associação de Aposentados do Brasil (AAB) – outra instituição investigada nas fraudes. O indiciamento consta do primeiro relatório final apresentado pela PF no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura cobranças não autorizadas em benefícios de segurados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Fachada de dez empresas, vitrine de duas
Apesar de os envolvidos terem indicado na Receita Federal o endereço como sede de ao menos 10 empresas — que prometem oferecer desde comércio varejista a locação de carros e atividades de apoio à agricultura —, a fachada do pequeno escritório exibe apenas chamada para dois desses empreendimentos. Levantamento anterior do Metrópoles já havia identificado que, além das empresas de Lucineide (Expresso, Impacto, R E D Segurança e Solution), quatro CNPJs pertencentes a Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Conafer, funcionam no mesmo local: a Cifrão Sistemas, uma segunda empresa denominada Solution, outra apelidada também como Impacto, e a Embalatudo.
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O uso de nomes quase idênticos para empresas distintas — duas "Solution", duas "Impacto" — é apontado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS como estratégia deliberada. No relatório da comissão, Lucineide foi indiciada também por falsidade ideológica – pela constituição de empresas sem atividade operacional real e uso de nomes quase homônimos para dificultar a fiscalização e justificar fluxos financeiros inidôneos.
A rota do dinheiro: de Cícero a Samuel
A CPMI reconstituiu o fluxo financeiro como um circuito fechado. O esquema caracterizava-se por um "ciclo fechado", onde os recursos saíam da Conafer para as empresas do investigado e, em seguida, eram repassados para empresas ligadas ao assessor do presidente da confederação. Cícero Marcelino de Souza Santos, apontado como assessor do presidente da Conafer, chegou a afirmar, durante a CPMI, que lucrava "uns trocos" com o dinheiro que deveria ser destinado aos beneficiários do INSS, e foi preso em 17 de novembro, durante operação da PF.
Segundo apuração anterior, Santos negou saber de onde vinham os recursos recebidos pela Conafer. Ele e a esposa, no entanto, teriam movimentado R$ 300 milhões da instituição desde 2019. Durante a comissão, as empresas de Cícero foram descritas como estruturas de natureza laranja. A deputada Adriana Ventura (Novo-SP) resumiu o achado:
"A única coisa que estou vendo aqui nesta CPMI é que as pessoas que os sindicatos ajudam são os próprios dirigentes e seus familiares, as empresas dos dirigentes, dos familiares, ou dos laranjas e familiares dos laranjas" E você é um laranja, suas empresas são empresas laranjas.
O outro endereço: a igreja de Lucineide
Além dos CNPJs localizados no sobrado, um outro, pertencente a Samuel Chrisostomo, também nomeado como Solution, supostamente funciona no mesmo local de uma Igreja Evangélica, no Recanto das Emas, registrada em nome de Lucineide dos Santos Oliveira, sócia da Associação dos Aposentados do Brasil. A reportagem do Metrópoles esteve no endereço da igreja e encontrou apenas a instituição religiosa, erguida entre um centro catequético e um terreno baldio. Apesar disso, segundo dados da Receita Federal, a loja de Samuel está ativa no espaço, configurando a suspeita de ser uma empresa fantasma.
Lucineide preside a Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus e atua como tesoureira da AAB, entidade que replicou o modelo de descontos da Conafer. O casal formado por ela e Dogival José dos Santos, presidente da AAB, responde por corrupção ativa e passiva, inserção de dados falsos em sistemas, organização criminosa e lavagem de dinheiro, já que Dogival fundou a Crusada Nacional de Evangelismo, registrada em 1996, e preside a Associação dos Aposentados do Brasil, uma das entidades usadas para os descontos ilegais.
Operação Sem Desconto e os 48 indiciados
O indiciamento faz parte do primeiro relatório final apresentado pela PF no âmbito da Operação Sem Desconto, investigação que apura fraudes relacionadas a cobranças não autorizadas feitas em benefício de segurados do INSS. Segundo a PF, as irregularidades investigadas podem ter causado prejuízo estimado em cerca de R$ 6 bilhões aos beneficiários. A CartaCapital, com base no relatório da PF, apurou que o esquema envolvendo os descontos ilegais movimentou 6,3 bilhões de reais entre 2019 e 2024, de acordo com as autoridades.
A investigação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) concentra-se nos fatos envolvendo a Conafer, entidade suspeita de envolvimento em descontos indevidos em benefícios do INSS. Segundo a PF, a Conafer funcionava com uma estrutura organizada, com divisão hierárquica e diferentes núcleos de atuação, o que levou a corporação a caracterizar a entidade como uma organização criminosa. Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer, também foi indiciado pelos crimes de corrupção e organização criminosa, assim como outras pessoas ligadas à associação. Lopes segue foragido desde a deflagração da fase ostensiva da operação.
Ao todo, além do casal Dogival e Lucineide, outras 46 pessoas foram indiciadas pelas fraudes nos benefícios de aposentados e pensionistas, em um esquema com prejuízo estimado em cerca de R$ 6 bilhões aos beneficiários. Entre os nomes constam Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", apontado como lobista do esquema, José Carlos Oliveira, ex-presidente do INSS e ex-diretor de Benefícios do órgão, e Virgílio Antonio Ribeiro de Oliveira Filho, procurador do INSS. A PF também localizou provas documentais do fluxo de propina: durante as investigações, a PF encontrou planilhas com registros de pagamentos de propina atribuídos à Conafer, e os investigadores afirmam que os valores indicados nos documentos coincidiram com transferências bancárias analisadas.
Fortuna incompatível: Porsche, Mitsubishi e o CadÚnico
O relatório da CPMI detalhou a movimentação pessoal de Lucineide. Como pessoa física, ela recebeu R$ 160,9 milhões entre 2019 e 2025, dos quais R$ 113 milhões vieram diretamente da Conafer — "movimentação flagrantemente incompatível com sua realidade econômica, visto que em 2022 ela possuía renda formal de apenas R$ 2 mil e histórico de inscrição no CadÚnico", consta no relatório. Pelas empresas Expresso, Impacto e Solution, sediadas no Recanto das Emas, controladas por Lucineide, sem funcionários registrados, o total recebido foi de R$ 141 milhões, sendo R$ 138,9 milhões da Conafer e R$ 2,9 milhões da AAB.
Após o início dos repasses milionários, Lucineide adquiriu uma frota incompatível com seus rendimentos: um Porsche Boxster 2023, uma Mitsubishi Triton 2024 e um VW T-Cross 2025. A Polícia Federal aponta que ela também registrava veículos de terceiros em seu nome para blindar o patrimônio dos líderes da organização. Do lado de Samuel, a CPMI apurou que ele posicionou familiares próximos, como mãe, irmão e filho, em cargos de cúpula e conselhos da AAB, e, na qualidade de pessoa física, recebeu ao menos R$ 15 milhões de suas próprias empresas de fachada.
Elo político: os R$ 700 mil ao escritório de Milena Câmara
Parte dos recursos movimentados por Lucineide seguiu para fora do circuito das ONGs previdenciárias. Por meio de sua empresa Expresso Marketing, ela enviou R$ 9,5 milhões para a BSF Gestão em Saúde – controlada por Danilo Trento – e repassou R$ 5,94 milhões para o BK Bank, instituição investigada por lavar dinheiro para organizações criminosas. O caso tem capítulo antigo no DF, já que reportagens indicam ligação do mesmo banco com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Mais sensível politicamente foi outro repasse identificado pela comissão: Lucineide transferiu cerca de R$ 700 mil para o escritório de Milena Câmara, filha do deputado federal Silas Câmara, em pagamentos ocorridos entre 2023 e 2024, coincidindo temporalmente com reuniões de articulação entre o parlamentar e o presidente da Conafer.
"A participação de Lucineide foi indissociável da engenharia financeira que permitiu o desvio de centenas de milhões de reais do sistema previdenciário", registra o relatório da CPMI do INSS.
Origem comum e desdobramentos administrativos
Conafer e AAB não são entidades isoladas: as duas associações investigadas têm como sede o mesmo prédio empresarial localizado no Setor Comercial Sul de Brasília, informação que consta no Cadastro de Pessoa Jurídica das instituições e que permanece ativa, com os mesmos dados, no cadastro nacional da Receita Federal. Além da esfera penal, ambas aparecem na lista de Processos Administrativos de Responsabilização instaurados pela Controladoria-Geral da União em setembro do ano passado, suspeitas de aplicar descontos ilegais em aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS.
A dimensão do esquema levou a CGU a mapear irregularidades específicas da AAB: a entidade está implicada em desvios milionários por meio de descontos realizados em benefícios de pessoas falecidas há longos anos, e um levantamento da CGU identificou mais de 27 mil casos de descontos indevidos em nome de indivíduos já falecidos. Já a Conafer, segundo a Controladoria, pode ter desviado pelo menos R$ 640 milhões relacionados a aposentadorias — valor que a CartaCapital, a partir de outro trecho do relatório da PF, situa em aproximadamente 484 milhões de reais entre 2019 e 2024, indicando divergência entre metodologias de apuração dos órgãos.
A fase ostensiva da Operação Sem Desconto, deflagrada em 13 de novembro, teve escala nacional: a PF e a CGU mobilizaram equipes em 17 estados e no Distrito Federal, cumprindo ao todo 63 mandados de busca e apreensão, 10 mandados de prisão preventiva e diversas medidas cautelares. Entre os presos naquela etapa estavam Tiago Abraão Ferreira Lopes, diretor da Conafer e irmão do presidente da entidade, Carlos Lopes, Cícero Marcelino de Souza Santos e Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior.
Procurada em apurações anteriores sobre o caso, a defesa de Cícero Marcelino afirmou desconhecer o processo investigativo e informou ter protocolado pedido de acesso aos autos antes de se manifestar em detalhes. A Conafer, em nota após a fase ostensiva da operação, pediu respeito à presunção de inocência e disse temer que a investigação sirva para "silenciar ações sérias em favor das populações rurais e tradicionais". Dogival e Lucineide, segundo o Metrópoles, foram intimados para esclarecer os fatos, mas preferiram permanecer em silêncio.
Com o relatório final da PF já remetido ao STF e o processo de responsabilização da CGU em curso, o caso do sobrado do Recanto das Emas passa a ser peça-chave para entender como associações de fachada, sediadas em endereços residenciais e sem funcionários registrados, sustentaram por anos um fluxo de centenas de milhões de reais sem acionar alertas do sistema bancário — até que o Coaf e a CPMI cruzassem os dados.
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