Suicídio é a principal causa de morte entre policiais, aponta Anuário de Segurança
Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 reacende debate sobre o adoecimento mental de quem trabalha na segurança; especialista defende programas permanentes de cuidado nas corporações
📋 Em resumo ▾
- O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 registrou 110 suicídios de policiais civis e militares em 2025.
- O suicídio permanece a principal causa de morte entre policiais — supera as mortes em confronto.
- Apesar da queda de 12,7% ante 2024, a série mostra crescimento dos casos desde 2017.
- Para a psicóloga Karen Scavacini, a cultura de força nas corporações faz do pedir ajuda um tabu.
- Por que isso importa: proteger a saúde mental de quem está na linha de frente é, segundo especialistas, parte da própria segurança pública — não um cuidado paralelo
Entre os muitos números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública na edição que marca os 20 anos da série, um dado desafia a imagem tradicional do risco policial: em 2025, foram 110 suicídios de policiais civis e militares no país, e o suicídio permanece como a principal causa de morte entre esses profissionais — à frente, inclusive, das mortes em confronto. O levantamento reacende um debate ainda pouco explorado publicamente: o adoecimento mental de quem é responsável pela segurança da população.
O que os números mostram — e o que eles escondem
Os dados trazem uma ambivalência que exige leitura cuidadosa. Em 2025, os 110 registros representaram uma queda de 12,7% em relação aos 126 casos de 2024 — do total, 89 ocorreram na Polícia Militar e 21 na Polícia Civil. À primeira vista, um recuo. Mas a análise do próprio Fórum situa o número num quadro mais amplo: os suicídios de policiais vêm crescendo desde 2017, e a redução pontual de um ano não altera o dado estrutural mais duro — o de que o principal vetor de mortalidade entre policiais não é o confronto em serviço, mas o suicídio, com as mortes violentas ocorrendo com mais frequência nos períodos de folga do que na atividade.
"Pedir ajuda não é fraqueza"
Para a psicóloga Karen Scavacini, doutora em Psicologia pela USP, mestre em Saúde Pública e fundadora do Instituto Vita Alere, os números do Anuário reforçam a urgência de ampliar essa discussão dentro das corporações. "Pedir ajuda não é fraqueza. Cuidar de quem protege também é fazer segurança pública", afirma.
Segundo a especialista, a rotina policial impõe um desgaste psicológico raramente reconhecido pelas próprias instituições. Policiais civis e militares lidam diariamente com situações de extrema violência, tensão e risco, muitas vezes sem espaço para processar o impacto psicológico disso. Para Karen, a cultura de força ainda presente nas corporações faz com que pedir ajuda seja visto, por muitos, como sinal de fraqueza — quando é o contrário.
"Cuidar da saúde mental de quem está na linha de frente da segurança pública não é um cuidado paralelo, é parte da própria segurança pública."
Campanhas ajudam, mas não bastam
Para a psicóloga, iniciativas pontuais como campanhas de conscientização têm papel importante para abrir espaço ao assunto, mas não substituem a continuidade necessária para construir preparo, estrutura e respostas adequadas dentro das instituições. Karen defende que as corporações estruturem programas permanentes de cuidado com a saúde mental de seus profissionais, indo além de ações isoladas em datas específicas do calendário, como o Setembro Amarelo.
Ela faz ainda uma ressalva técnica: boa intenção não é suficiente ao tratar do tema. É preciso conhecimento técnico, linguagem segura e capacidade para conduzir perguntas e possíveis reações do público, evitando que o assunto seja "entregue a quem não tem preparo".
Um retrato que vai além do confronto
O alerta ganha peso quando cruzado com o restante do Anuário. A publicação de 2026 mostra um país que reduziu a violência letal a patamares inéditos — a menor taxa de mortes violentas intencionais desde 2012 —, mas que segue exigindo de seus policiais uma exposição contínua ao risco e ao trauma. Ao colocar o suicídio no centro do debate sobre vitimização policial, o Fórum sugere uma mudança de perspectiva: a de que o cuidado com quem opera a segurança pública é condição, e não acessório, de uma política eficaz.
Num país que discute segurança sobretudo pela ótica do enfrentamento, o dado dos 110 obriga a uma pergunta desconfortável: de que adianta blindar o colete se a ferida que mais mata o policial é invisível, e raramente admitida dentro da própria farda?
Este texto aborda um tema sensível. Se você está passando por sofrimento psíquico ou pensa em suicídio, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e pelo site cvv.org.br.
Versão em áudio disponível no topo do post.