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Terras raras Brasil: Lula abre porta para associação com EUA

Presidente afirma que país busca parcerias para industrializar minerais estratégicos, mas mantém condição: tecnologia e valor agregado devem ficar no território nacional

Terras raras Brasil: Lula abre porta para associação com EUA
📷 Canal Gov
📋 Em resumo ▾
  • Lula afirma que Brasil está aberto a associar-se aos Estados Unidos na exploração de minerais críticos, desde que haja transferência de tecnologia
  • País detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, mas processa menos de 1% do volume global
  • China controla 90% do refino mundial e usa o domínio como alavanca geopolítica; EUA buscam alternativas no Brasil
  • Sem domínio da química fina e logística competitiva, risco de repetir o ciclo do minério de ferro permanece
  • Por que isso importa: a disputa por terras raras define quem liderará a transição energética e a indústria do futuro
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, em evento oficial em Campinas (SP), que o Brasil está aberto a associar-se aos Estados Unidos na exploração de minerais críticos e terras raras, desde que as parcerias garantam industrialização no território nacional e transferência de tecnologia. A declaração sinaliza uma postura flexível, porém firme, em um momento de intensa disputa geopolítica pelo controle de recursos estratégicos para a transição energética e a indústria de alta tecnologia.

O que são terras raras e por que o mundo as disputa

Apesar do nome, as terras raras não são escassas na crosta terrestre. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos — como neodímio, praseodímio e disprósio — essenciais para a fabricação de ímãs de alta performance, baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones e sistemas de defesa. Sua relevância estratégica cresceu com a corrida por inteligência artificial e energias limpas.

"Podemos dizer que as terras raras são 'vitaminas da indústria tecnológica': usadas em pequenas quantidades, mas sem elas o desempenho de muitos sistemas cai drasticamente", afirma Ysrael Marrero Vera, pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral.

A complexidade não está na extração, mas na separação. Esses elementos possuem propriedades químicas muito semelhantes, o que exige processos industriais repetitivos, com uso intensivo de reagentes, controle rigoroso de pH e gestão de resíduos — inclusive radioativos, em alguns casos. Dominar essa cadeia levou mais de 50 anos de investimento contínuo por parte da China.

Lula: "Se o Trump deixar de brigar com o Xi, pode vir se associar a nós"

Em discurso durante cerimônia de entrega de novas linhas do acelerador de partículas Sirius, Lula foi direto ao ponto estratégico. "Eu estava pensando: o que o Sirius pode fazer pra gente? Porque, se a gente depender de fazer estudo cavando buraco, vai demorar muito", disse o presidente, destacando o papel da ciência nacional no mapeamento mineral.

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"A gente vai ter que contar com a inteligência e a ciência de vocês pra gente dar um salto e ver, se em um curto espaço de tempo, a gente faça com que o Trump deixe de brigar com o Xi Jinping e venha se associar a nós para que a gente possa explorar aqui", afirmou Lula.

A fala revela a estratégia brasileira: usar a ciência doméstica para acelerar o conhecimento do subsolo e, ao mesmo tempo, negociar com potências estrangeiras a partir de uma posição de soberania. O recado a Washington é claro: o Brasil quer parceria, não subordinação.

Brasil tem o minério, mas não a fábrica

O país concentra cerca de 23% das reservas globais de terras raras, ficando atrás apenas da China, que detém 49%. Em depósitos como os de argila iônica em Minas Gerais e Goiás, a extração é tecnicamente mais viável do que em rochas duras. No entanto, o Brasil processa apenas cerca de 20 toneladas anuais de óxidos separados, enquanto a China refina 270 mil toneladas.

"Ter o minério no chão é apenas 10% do desafio. A China tomou uma decisão estratégica há décadas: dominar toda a cadeia produtiva. É isso que falta ao Brasil", avalia Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP.

A única mina de terras raras em operação comercial no país é a Serra Verde, em Goiás, que recebeu investimento de US$ 565 milhões da Development Finance Corporation, braço financeiro do governo dos Estados Unidos. O acordo ilustra o interesse americano em reduzir a dependência de Pequim — mas também expõe a assimetria: o Brasil fornece o recurso; a tecnologia de transformação permanece externa.

Geopolítica: entre Washington e Pequim

A disputa por terras raras deixou de ser um tema técnico para se tornar peça central da rivalidade entre Estados Unidos e China. Com Pequim restringindo exportações em momentos de tensão, Washington acelerou a busca por fornecedores alternativos. O Brasil, pela combinação de reservas, estabilidade institucional e proximidade logística, entrou no radar como parceiro estratégico.

Em negociações com o governo de Donald Trump (EUA), a pauta de minerais críticos ganhou peso, mas com divergências de abordagem. Enquanto os americanos pressionam por agilidade regulatória e garantia de fluxo para suas indústrias, Lula reitera a condição de soberania: parcerias são bem-vindas, desde que incluam transferência de tecnologia e processamento em território nacional.

"Se é para explorar minerais críticos, desde que o processo de transformação aconteça no Brasil, vamos conversar", afirmou o presidente.

Essa postura busca evitar a repetição de ciclos históricos, nos quais o país exportou commodities a preços baixos e importou manufaturados a valores elevados. O desafio, agora, é transformar intenção em capacidade industrial.

O nó do Custo Brasil e a janela de oportunidade

Mesmo com vontade política e recursos no subsolo, o Brasil enfrenta barreiras estruturais. Juros elevados, infraestrutura logística defasada e insegurança regulatória encarecem investimentos de longo prazo — exatamente o perfil exigido por plantas de processamento de terras raras. Sem resolver essas questões, corre-se o risco de atrair capital para extração, mas não para industrialização.

A criação de um Conselho Nacional de Política Mineral, anunciado por Lula, pode ser um passo para coordenar estratégia de Estado no setor. No entanto, especialistas alertam: acordos sem cláusulas claras de transferência de tecnologia tendem a perpetuar a dependência.

O que está em jogo para o leitor

A disputa por terras raras não é um tema distante. Ela define quem controlará a cadeia de produção de veículos elétricos, energias renováveis e equipamentos de defesa nas próximas décadas. Para o Brasil, a pergunta não é se há minério — há, e em abundância. A questão é se o país conseguirá, desta vez, escrever os próximos capítulos da história: da química fina à manufatura de alto valor.

"Não queremos apenas exportar matéria-prima. Queremos produzir aqui e gerar emprego aqui", disse Lula.

A janela de oportunidade está aberta, mas é estreita. Enquanto o mundo redefine suas cadeias de suprimentos, o Brasil precisa decidir: será apenas mais um fornecedor de recursos ou construirá, de fato, uma economia do conhecimento baseada em seus próprios ativos estratégicos?


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