Todo mundo em Rondônia conhece alguém que morreu na BR 364
Leilão de privatização da rodovia está marcado para a tarde desta quinta-feira, em São Paulo

A BR 364 em Rondônia é uma rota assassina. Uma rodovia com quase 800 quilômetros entre Vilhena e Porto Velho já ceifou milhares de vidas ao longo dos últimos 20 anos. A rodovia foi aberta na década de 1960 e pavimentada na década de 1980. Ela trouxe desenvolvimento econômico e crescimento populacional nos estados da bacia amazônica de Rondônia e Acre.
Mas, desde sua pavimentação, nunca mais teve melhorias significativas, e em alguns períodos chegou a ficar ainda mais perigosa, devido a falta de manutenção. Eu particularmente sempre fui contra a privatização, mas sempre defendi a duplicação, o que nunca sequer chegou a ser cogitado pelos governos federais (e me refiro a todos, desde a redemocratização com Collor de Mello).
Eis que no terceiro mandato de Lula da Silva, foi anunciada a concessão, e o leilão está previsto para acontecer na tarde desta quinta-feira, 27. Porém, do nada, grupos distintos começam a se manifestar, desde o início de mês, contra o modelo que está sendo concessionado.
É óbvio que empresas privadas visam lucro, e chega a ser de uma infantilidade absurda querer discutir nessa altura do campeonato a forma como isso vai ser feito. O concessionário deverá construir sete praças de pedágio localizadas entre Porto Velho e outros pontos ao longo da rodovia. Os valores arrecadados servem para manutenção e melhorias, além é claro, de gerar lucro para os investidores.
Suspender ou querer anular a concessão neste momento é querer enxugar gelo. Leilões muito mais problemáticos foram feitos em Rondônia, de forma descarada e altamente prejudiciais a toda a população, como o caso da Ceron, que foi vítima de um verdadeiro assalto no governo Temer. Vendida por meros R$ 50 mil, para que a Energisa assumisse uma dívida medíocre, e hoje a população paga essa conta, que é um bem essencial, afinal ninguém consegue viver de forma digna sem energia elétrica.
Praticamente todo mundo que vive em Rondônia conhece ou já perdeu alguém vitimado por acidentes na BR 364. Perdemos gente como Eduardo Valverde, ex-deputado federal e Eli Bezerra, seu então assessor, este ano morreu o O Procurador-Geral da Câmara Municipal de Espigão D'Oeste, Sidnei Gonçalves, de 44 anos. Isso para ficar apenas em dois nomes mais conhecidos. Basta um Google sobre ‘morreu na BR 364 em Rondônia’ para ver a quantidade de notícias que pipocam.
O modelo está errado? Sim, está. Mas o tempo de debater, infelizmente acabou. Todos que agora se manifestam, tiveram tempo mais que suficiente para discutir esse tema, apresentar propostas, mas para variar, deixaram para chorar depois que o leite derramou.
Cabe a classe política de Rondônia, e os grupos que agora apareceram para reclamar, buscarem judicialmente ampliar as áreas que não terão duplicação, ao governo do Estado melhorar e ampliar a malha viária, permitindo que as populações das cidades possam desviar pelas rodovias estaduais o tráfego, proibindo carretas de circularem.
Rondônia precisa acordar, cedo. A classe política anda dormindo demais quando deveria estar atenta a questões importantes.
