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"A Turma": a milícia privada que custava R$ 1 milhão por mês a Vorcaro

Relatórios da PF descrevem grupo de vigilância e coerção liderado por um policial federal aposentado, com ordens de agredir jornalista e dados escondidos num freezer

"A Turma": a milícia privada que custava R$ 1 milhão por mês a Vorcaro
📷 Victor Moriyama/Bloomberg.
📋 Em resumo
  • A Polícia Federal descreve nos autos da Operação Compliance Zero uma estrutura de vigilância e intimidação a serviço de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, batizada internamente de "A Turma".
  • O relator no STF, ministro André Mendonça, classificou o grupo como uma "milícia privada"; ele compõe o "núcleo de intimidação e obstrução" do esquema.
  • A coordenação operacional é atribuída a Luiz Phillipi "Felipe" Mourão, o "Sicário", que recebia cerca de R$ 1 milhão por mês; a liderança da "Turma" é imputada ao policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.
  • Diálogos citados na investigação registram ordens de Vorcaro para atacar o jornalista Lauro Jardim; na busca à casa de Marilson, a PF achou um celular escondido dentro de um freezer, além de armas.
  • Por que isso importa: o caso sugere que um conglomerado financeiro teria montado um aparato paraestatal de coerção — com um agente da própria PF a serviço de interesses privados.
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Entre os quatro núcleos que a Polícia Federal (PF) atribui à organização de Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero, um se destaca pela natureza: o de intimidação e obstrução de justiça. Segundo a investigação acolhida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), esse braço funcionava como uma estrutura privada de vigilância e coerção, apelidada internamente de "A Turma" — e classificada pelo relator, ministro André Mendonça, como uma "milícia privada" a serviço do dono do Banco Master. Os detalhes vieram à tona após a liberação do sigilo dos autos do processo pelo ministro André Mendonça, a qual PAINEL POLÍTICO teve acesso.

Uma folha de pagamento para o "trabalho sujo"

O eixo financeiro do grupo é o que mais impressiona pela dimensão. De acordo com relatórios da PF anexados aos autos, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — chamado de "Felipe Mourão" nas mensagens e apelidado de "Sicário" — recebia cerca de R$ 1 milhão por mês para executar ordens do banqueiro. A investigação estima que os repasses a ele superaram R$ 24 milhões desde 2023.

Parte desse valor, cerca de R$ 400 mil mensais, seria rateada com "A Turma", grupo cuja liderança operacional é atribuída ao policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Os pagamentos, segundo a apuração, eram operacionalizados por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, por meio de empresas ligadas ao grupo.

Segundo a PF, os repasses ao "Sicário" superaram R$ 24 milhões desde 2023 — parte rateada entre seis integrantes da "Turma".

O que a "Turma" fazia

A função do grupo, descreve a investigação, ia da coleta ilegal de dados sigilosos à intimidação de pessoas vistas como adversárias do banco: concorrentes, ex-funcionários e jornalistas. A atribuição de um policial federal aposentado a esse papel é o ponto mais delicado — a PF sustenta que Marilson usava a experiência e os contatos da carreira para acessar informações sensíveis e monitorar alvos.

O episódio que melhor ilustra o teor dessas ordens envolve o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo. Em diálogos citados na decisão, Vorcaro demonstra irritação com as reportagens e chega a determinar represálias físicas. As expressões atribuídas ao banqueiro são explícitas: mandar "dar um pau nele" e "quebrar todos os dentes" simulando um assalto.

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"Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele", diz Vorcaro em uma das mensagens atribuídas a ele nos autos, sobre o jornalista.

O celular no freezer

A materialidade do braço armado aparece nos relatórios de diligência. No cumprimento da prisão de Marilson, em 4 de março, em Belo Horizonte, a equipe policial narra que o investigado se recusava a indicar onde estava seu celular — até conduzir os agentes à área de serviço e retirar, de dentro de um freezer, escondido atrás de carnes congeladas, um iPhone. No imóvel, a PF relata ainda ter apreendido duas pistolas, munição de vários calibres, uma caminhonete e ativos rurais.

A cena resume o paradoxo do personagem: um ex-integrante da própria Polícia Federal tratando de ocultar provas da mesma corporação que um dia serviu.

Uma morte sob custódia

O desfecho do "Sicário" acrescenta uma camada trágica ao caso. Preso preventivamente em março, Felipe Mourão atentou contra a própria vida enquanto estava sob custódia da PF e morreu dias depois, por morte encefálica. Sua prisão fora decretada por Mendonça na mesma leva que atingiu Vorcaro, Fabiano Zettel e Marilson Roseno.

O que este núcleo revela sobre o resto

Se as fraudes financeiras são o coração do caso Master, o braço armado é o que expõe sua natureza mais perturbadora. Uma coisa é um banco quebrar sob suspeita de contabilidade fraudulenta; outra, muito distinta, é um grupo econômico manter uma estrutura remunerada para vigiar autoridades e ameaçar quem o fiscaliza — imprensa incluída. A presença de um agente público no comando operacional dá a medida do problema: quando a máquina de coerção privada recruta dentro do Estado, a fronteira entre o crime organizado e a instituição encarregada de combatê-lo deixa de ser óbvia. É essa fronteira, mais do que qualquer cifra, que a investigação sobre "A Turma" coloca em xeque.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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