Alcolumbre buscou blindagem com Lula antes de votar Messias no STF
Antes da rejeição de Messias, presidente do Senado teria pedido apoio ao presidente contra possíveis desdobramentos da colaboração premiada
📋 Em resumo ▾
- Alcolumbre procurou Lula duas semanas antes da votação de Messias para expressar preocupação com investigações da PF
- Relatos indicam que o senador teme que a delação de Vorcaro traga "mentiras e injustiças" contra seu nome
- Lula teria respondido que não pode interferir em órgãos de investigação, citando atuação responsável da PF
- Alcolumbre negou publicamente ter tratado do Banco Master com o presidente
- Por que isso importa: O movimento revela como lideranças do Congresso antecipam estratégias defensivas diante de investigações que podem reconfigurar alianças em ano pré-eleitoral
Duas semanas antes de liderar a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, Davi Alcolumbre (presidente do Senado, União-AP) procurou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em busca de blindagem contra possíveis desdobramentos da delação premiada de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo apurado pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, o senador manifestou preocupação com investigações da Polícia Federal e com o conteúdo da colaboração entregue à Procuradoria-Geral da República.
"A delação poderia trazer 'mentiras e injustiças' contra ele e pediu ajuda ao presidente para evitar ser atingido pelas investigações."
De acordo com relatos de aliados, Alcolumbre afirmou a Lula que vinha sendo alvo de "perseguições injustas" e demonstrou receio específico quanto ao impacto político da delação. A resposta atribuída ao presidente foi de cautela institucional: não haveria como interferir em órgãos de investigação ou no Judiciário. Lula teria acrescentado que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, vinha atuando com responsabilidade para evitar excessos.
A rejeição de Messias como contexto estratégico
Em 29 de abril, Jorge Messias tornou-se o primeiro indicado ao STF barrado pelo plenário do Senado em mais de um século. Nos bastidores do governo, a articulação conduzida por Alcolumbre passou a ser lida como uma reação política diante do avanço das investigações ligadas ao caso Banco Master — e não apenas como uma decisão técnica sobre o nome indicado.
A proposta de delação entregue por Vorcaro começou a ser analisada nesta semana pela PF e pela PGR. O material está dividido em anexos organizados por personagens políticos e empresariais, o que permite um mapeamento preciso de possíveis conexões. Investigadores estimam que a análise preliminar leve mais de dois meses antes da eventual formalização do acordo.
Procurado, Alcolumbre negou ter tratado do Banco Master com Lula. Em nota enviada por sua assessoria, o presidente do Senado afirmou que "jamais tratou do Banco Master com o presidente Lula e muito menos fez qualquer queixa ou alegação nesse sentido". A nota também reforça que Alcolumbre "não possui qualquer relação com o Banco Master e não é investigado, citado ou arrolado, sob nenhuma forma, em qualquer apuração relacionada ao caso".
Outras frentes que preocupam o entorno do senador
Além da delação de Vorcaro, auxiliares do presidente afirmam que Alcolumbre acompanha com atenção outras investigações que poderiam atingir seu entorno político. Entre elas, os apurados desvios no INSS e aplicações de cerca de R$ 400 milhões do fundo de pensão do Amapá em letras financeiras emitidas pelo Banco Master.
A Polícia Federal investiga suspeitas de gestão fraudulenta na administração desses recursos, com indícios de que gestores teriam ignorado alertas internos e realizado aportes sem a devida diligência. A Amapá Previdência afirma que se sente lesada e busca reter valores que seriam repassados ao Banco Master.
Blindagem ou antecipação legítima?
A proximidade temporal entre a suposta conversa Alcolumbre-Lula e a votação de Messias no Senado alimenta interpretações cruzadas nos bastidores de Brasília. Para aliados do governo, a derrota do indicado presidencial reflete uma articulação defensiva do presidente do Senado diante do avanço de investigações sensíveis. Para o entorno de Alcolumbre, trata-se de uma tentativa de vincular indevidamente o senador a um caso do qual ele afirma não participar.
"A fronteira entre articulação legítima e pressão sobre investigações é tênue — e é exatamente nesse espaço que se decidem alianças e rupturas no jogo do poder."
O que permanece inquestionável é que a delação de Vorcaro, quando e se homologada, poderá reconfigurar mapas de influência no Congresso e no Executivo. Os anexos organizados por personagens sugerem um raio-x das relações entre setor financeiro, política e órgãos públicos — um material que, por si só, já altera a temperatura dos bastidores.
Cenários possíveis
- Se a delação for homologada: novos nomes podem emergir, pressionando lideranças a se reposicionarem publicamente.
- Se a análise preliminar se estender: a incerteza mantém o tema em pauta, alimentando especulações que influenciam negociações legislativas.
- Se Alcolumbre for formalmente incluído em alguma apuração: a relação com o Planalto entraria em novo patamar de tensão, com reflexos diretos na pauta do Congresso.
Enquanto isso, o governo segue dependente da articulação com o Senado para avançar com sua agenda — e Alcolumbre, como presidente da Casa, mantém papel central nesse equilíbrio. A questão que fica: até que ponto movimentos de blindagem política, legítimos em tese, podem ser interpretados como tentativa de influenciar o ritmo ou o alcance de investigações federais?
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